Deixa ela entrar de Tomas Alfredson

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Deixa ela entrar, do diretor sueco Tomas Alfredson, é um excelente exercício de renovação de um gênero muito desgastado. Há uma enxurrada de filmes de vampiros sendo exibidos e produzidos. O tema, que vai muito além do cinema, se tornou uma espécie de praga, é quase impossível andar de metrô sem dar de cara com um leitor da série Crepúsculo e suas variantes. Na televisão, seguindo a onda, também existem vários seriados recentes que estão aproveitando a temática sobrenatural. Esta moda, na verdade, reatualiza um gênero que sempre se fez presente na produção cultural de massa. Basta lembrar o sucesso dos filmes da Universal no início do século passado, potencializado pela figura poderosa de Bela Lugosi, ou mesmo a importância do Nosferatu do expressionismo alemão. Algumas décadas depois, foi a vez do estúdio Hammer e sua variada produção de filmes vampirescos, também ancoradas em duas figuras muito impactantes: Peter Cushing (o eterno caçador) e Christopher Lee (o diabólico vampiro). Estas obras clássicas foram reapropriadas inúmeras vezes, fornecendo as balizas de fórmulas fílmicas, ocasionalmente subvertidas, extrapoladas, mas muitas vezes copiadas. O problema, porém, é que, como toda fórmula, ela se tornou vazia de sentido ou valor estético. Dessa maneira, pode-se dizer sem nenhum erro que os filmes mais contemporâneos de vampiros consistem apenas numa série de repetições de modelos que já foram exageradamente experimentados, tornando-se obras monótonas, quando não simplesmente constrangedoras. Esta vacuidade, não raramente, resulta em filmes nos quais a violência exagerada, verdadeiras pornografias de sangue, se torna um fim em si mesmo. O filme sueco, felizmente, mostra como é possível retrabalhar as fórmulas do gênero de maneira inventiva e muito rica. O filme conta a história de Oskar, um garoto isolado e que sofre constantes ameaças e violências de seus colegas de escola. No seu sofrimento solitário, o garoto alimenta um profundo desejo de vingança, materializado na constante imaginação de atos de violência contra seus agressores. É este ato que o aproxima de Eli. A garota que acabara de chegar à vizinhança o observa de longe, enquanto ele pratica seu desejo secreto, apunhalando uma árvore. Ela é capaz de compreender a potência destrutiva do desejo de Oskar e por isso se aproxima do garoto. O filme trata desse relacionamento, que a primeira vista seria apenas o encontro de dois personagens desajustados e inadaptados. Porém, logo se revela que Eli não é uma garota de fato. A pequena menina é uma vampira que precisa matar suas vítimas para sobreviver. O que une os dois é esta sua natureza destrutiva, já que ela enxerga nele alguém capaz de compreendê-la, capaz de entender a sua condição violenta. O filme se estrutura em torno do aprendizado, por parte de Oskar, do caráter inerentemente violento do desejo. Dessa forma, Eli não é retratada como uma entidade maligna, nem como uma espécie de vilã, mas sim como a manifestação da dimensão desejante da existência humana. Há, portanto, uma espécie de desmoralização da figura vampírica, o que permite a construção de imagens que subvertem, de maneira muito profunda, as fórmulas usuais do gênero. A violência praticada por Eli não é retratada nem numa dimensão plana, como um ato bom ou mal, nem de maneira puramente anestesiante, aquela exibição torrencial de sangue e corpos dilacerados. Ela é simplesmente uma marca de sua existência, uma realidade que não pode ser negada e nem abandonada, do contrário é a sua própria existência que corre riscos. Para Oskar, este aprendizado significa, acima de tudo, uma reação, a liberação da potência imaginária de seu desejo. Fato que provoca um profundo deslocamento, uma espécie de rito de passagem, no menino. Ele abandona sua existência passiva, a constante negação de seu desejo, para uma ativa, que afirma o próprio desejo. Não é gratuito que este processo, além de estar situado no signo da violência, também ganhe um sentido erótico, da descoberta do corpo alheio, da possibilidade de tocar e sentir este corpo. O beijo dos dois personagens representa muito bem esta transição, este rito de passagem em direção à uma existência ativa, pois é um beijo selado pelo sangue de uma das vítimas de Eli, a violência e o erotismo como duas manifestações do desejo. Não é difícil perceber o quanto esta aproximação subverte as fórmulas do gênero. O problema é que a subversão de hoje se tornará a fórmula de amanhã, um estúdio de Hollywood já comprou os direitos da obra para refilmá-la. Aí, talvez, tenhamos a (triste-)oportunidade de ver a história de Oskar e Eli muito mais à maneira dos crepúsculos da vida.

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7 Comments to “Deixa ela entrar de Tomas Alfredson”

  1. IcaroReverso disse:

    vou assistir!

  2. Anonymous disse:

    Você leu a entrevista com o diretor onde ele fala umas coisas legais sobre crianças atores? acho que saiu na folha de sp. Enfim, é massa saber que ambas as crianças não eram atores, porque, graças a Deus, em algum lugar do mundo respeitam a infância e não enfiam os moleques que ainda chupam dedo em malditos sets de filmagem e escolinhas de atores mirins, enfim, só pra provar que lugar de criança não é sustentando a família e que diretor bom tira leite de pedra. Enfim, Låt den Rätte Komma In é muito foda. Não só pelo gênero, mas por tudo.

    Tripa

  3. Leandro disse:

    Icaro,

    vale a pena. Acho que ainda está em cartaz.

    Pablo,

    preciso procurar a entrevista. Como você disse, um bom diretor consegue fazer mágica com os atores, pois a menina é genial. E o filme é realmente muito bom.

    Abraços

  4. Há uns meses tinha lido este post e fiquei com seus apontamentos na cabeça. Hj tive a oportunidade de assistir o filme e estou meio que sem palavras. Terror, vampiros e afins sempre foi algo que fugi, que sempre achei meio bobo… só que este, em especial, é uma obra de arte. Seu tom pessimista em relação pode até ser verdadeiro, mas a melhor parte já está feita… deixe que os outros se divirtam menos.

    • Leandro disse:

      É,esse é de longe o melhor filme de terror feito nos últimos anos. O que é uma pena, parece que hoje é muito difícil para o gênero do terror se reinventar. Por sinal, vi um filme antigo esses dias que me surpreendeu bastante, uma história de assombração e mistério muito engenhosa, vale ver. É o Na escuridão da noite. É fácil de achar pela internet, tem até no youtube. Um belo filme.

  5. foi mal pelos erros, dia longo :P

  6. Raquel disse:

    vou procurar o filme, obrigada pela dica!

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