Deixe-me entrar (Let Me in) de Matt Reeves

2

Deixe-me Entrar é a famigerada refilmagem do sueco Deixe ela entrar (recomendo a leitura prévia do texto que escrevi sobre o filme original). Antes de ver a nova versão, tudo indicava que seria um baita fiasco. Tudo bem, está muito longe de ser um fiasco, mas também não tem as mesmas qualidades da obra original. A grande diferença, como já suspeitava, está na medida. Enquanto o filme sueco economizava nos gestos e nos efeitos, a versão americana exagera em todos os sentidos. Isso deixa a trama com um aspecto muito mais didático, as coisas são reveladas sem pudores, sem meias palavras (isso fica muito claro quando lembramos as diferentes abordagens dadas ao relacionamento da menina com seu velho lacaio). Porém, isso não é o mais grave. Na realidade, o exagero provoca um ligeiro deslocamento no sentido da trama original (pelo menos na maneira como eu a interpretei). No essencial, os acontecimentos são quase idênticos. Owen é uma criança solitária e melancólica. Sofre agressões dos colegas na escola, mora com sua mãe divorciada e não tem nenhum vínculo na comunidade em que vive. Sua existência é marcada por uma cisão entre a impotência de suas ações (o menino não consegue fazer nada) e a potência dos seus desejos (ele se imagina atacando seus agressores ou espia a vizinha transando). Seu problema é não conseguir ultrapassar esta separação entre desejo e ação. A figura da vampira, no filme original, aparecia justamente para resolver esta tensão. Ela existia numa condição de pura potência, afinal a realização de seus desejos era a condição necessária para sua própria existência. Pouco a pouco, a convivência possibilitava um processo de aprendizado, no qual o garoto tomava consciência do seu próprio desejo, conseguindo sair da sua posição de passividade. Isto porque ela era retratada não como um monstro ou uma entidade maligna, mas sim como a manifestação da dimensão desejante na existência humana. É isto que aparece noutro sentido nessa nova versão. Agora a vampira, Abby, aparece de maneira muito mais animalesca. Apesar do seu primeiro aspecto, uma menina delicada, quase assexuada, quando entra em transe, por causa da sua sede de sangue, ela se transforma. Seu rosto ganha contornos monstruosos, seus gestos são brutais e selvagens (não dá pra esquecer da cena que ela escala uma árvore, um momento animalesco e um pouco constrangedor), capaz de movimentos rápidos e ações completamente inumanas. E o mais importante: sua violência é completamente desmedida, brutal, assustadora. Por conseguinte, a brutalidade das suas ações a transforma num ser que é correlato de um animal (ou um monstro, o inumano por excelência) e não mais como a manifestação do humano. Isso esvazia a possibilidade de identificação e transformação entre o garoto e a vampira. Essa mudança pode parecer pequena, ou mesmo insignificante. Porém, o que me pareceu mais interessante no filme original era essa dimensão ética do filme, o que possibilitava uma rica inversão na tradição de filmes de vampiros. O que mais vemos, quando se trata de vampiros, é a construção de um forte discurso moralizado a partir dessa figura, basta ver o mais famoso exemplo recente, a série Crepúsculo. Em Deixe ela entrar, acontecia uma recolocação do desejo (o material mesmo de qualquer experiência ética) no centro da narrativa, de maneira muito inventiva e intensa. A refilmagem, obviamente, não joga isso totalmente para escanteio, mas isso é um pouco eclipsado por essa necessidade de animalizar as ações de Abby. É quase como se houvesse uma espécie de recusa do desejo (sua dimensão violenta e/ou erótica), lhe colocando fora da órbita do humano.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Deixe-me entrar (Let Me in) de Matt Reeves”

  1. Kamila disse:

    A sua visão sobre esse filme é mais completa do que a minha, porque você conhece o longa original, ao contrário de mim. Gostei muito do seu texto e fiquei com muita vontade de assistir ao original depois de ver o remake.

    • Leandro disse:

      Olá Kamila, fico feliz que tenha gostado. A versão original é muito boa mesmo, e não é difícil de encontrá-la. Vale a pena assistir.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.