Detachment (O Substituto) de Tony Kaye

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Detachment parece mais um filme sobre a figura do professor-redentor. Aquele que chega numa escola fracassada e desorientada, se depara com um grupo de alunos que não enxergam nenhum sentido nos estudos e um bando de professores incapazes e insatisfeitos com a profissão. Diante de todas essas dificuldades, o novo professor se mostra capaz de transformar a ordem catastrófica na qual está imersa a instituição escolar, lhe convertendo no seu contrário. O negativo é suprimido, o caos é harmonizado e a escola se transforma num lugar de salvação e civilização. Esse ideário percorre nossas representações da escola e marca fortemente nossa imaginação sobre o que é necessário para garantir o bom funcionamento do espaço escolar: precisamos de redentores. Nesse caso, Henry Barthes, o protagonista do filme, parece se encaixar perfeitamente nessa posição. Ele é um professor substituto, que trabalha cobrindo as licenças e afastamentos de outros professores. Sua função é tampar um buraco, garantir a ordem e evitar que a situação saia do controle dentro da sala de aula. E ele desempenha seu papel com grande eficiência. Logo no primeiro contato com a turma nova, Barthes demonstra um tremendo controle da situação, conquistando o respeito de seus alunos. Não demora, porém, para percebermos que ele não é capaz de redimir ninguém. Barthes é um personagem vazio, solitário, perdido. É a própria encarnação do desapego, de onde vem o nome do filme (detachment pode receber várias traduções, o estar a parte, estar separado, desapegado enfim. Por isso, é bastante incompreensível a escolha para o título nacional do filme). Desprendido de si próprio, ele enxerga o mundo como um lugar caótico e inexplicável, no qual não existe muito espaço para salvação. Essa percepção da facticidade do mundo implica num desengajamento: Barthes recusa um compromisso duradouro com as coisas e os seres. Nada de relacionamentos amorosos, amizades ou mesmo carreiras profissionais. A posição de substituto é perfeita. Ele é aquele que ocupa temporariamente um espaço, desempenha sua função, cria um envolvimento passageiro e depois parte. Isso não significa que Barthes não se importa com o mundo, apenas que enxerga o mundo como um espaço transitório e que está num movimento irremediável de colapso. Ainda que o filme não escape de um psicologismo barato – quando trata do passado trágico de Barthes (o suicídio da mãe quando ele era apenas uma criança), o que constitui o maior problema da trama –, essa explicação puramente individual é matizada por uma reflexão mais ampla do próprio fracasso institucional da escola. Barthes, assim, aparece como aquele que enxerga a impossibilidade da escola em servir como um espaço de orientação ou de redenção diante do absurdo da realidade. Por mais que a escola tente funcionar como um caminho para superar as dores da realidade, esse projeto acaba inelutavelmente fracassando. Essa percepção das coisas funciona como uma desconstrução da representação tão comum do professor-redentor. Isso fica muito claro quando observamos a relação desenvolvida entre Barthes e uma de suas alunas, Meredith. A garota é a típica menina excluída e sofrida. Com uma sensibilidade aflorada, uma verdadeira artista, ela sofre com a rejeição do seu pai e parece bastante isolada dentro da sala de aula. Nela, toda a tragédia da existência reverbera com mais intensidade, ela não suporta o peso das coisas. E claro, o professor percebe seu sofrimento. Porém, seus esforços para amenizar os sofrimentos da garota não bastam. Ninguém pode ajudá-la. E no fim, Meredith só encontra o caminho do suicídio. O aspecto mais trágico do filme nasce dessa impossibilidade de salvação. Barthes tentou, mas não foi capaz. E ninguém mais, dentro da escola, parece capaz de qualquer ato de salvação. Por isso que o filme tem interessante, na medida em que essa dimensão negativa é operacionalizada no interior mesmo de uma representação importante de legitimação da ação escolar. Pode parecer pouco, mas a recusa da figura do professor-redentor traz consigo um gesto relevante de desconstrução do papel de governo das almas que a escola desempanha na modernidade. Se não existe possibilidade da ação professoral redimir a juventude do mundo, por que insistir na manutenção dessa instituição? No final das contas, é como se o filme nos lembrasse que chega o momento de enxergar, tal qual o protagonista do filme, o desmoronamento da casa de Usher que é o sistema educacional moderno.

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