Dia e Noite é uma das animações mais interessantes que a Pixar já fez (e até mais interessante que o próprio Toy Story 3, apesar deste também ser muito bonito). Apesar da sua simplicidade, é um curta de cerca de 6 minutos, a animação é muito bonita e guarda um forte sentido ético. O filme começa com o despertar de um personagem bem esquisitinho, uma espécie de fantasminha transparente. A escuridão que lhe cerca é contrastada pela luminosidade de sua barriga, que funciona como uma janela que dá acesso e visibilidade ao mundo (a simplicidade na construção do bichinho é contrastada com a riqueza de detalhes da animação desse mundo). É através dos seus movimentos que o mundo também entra em movimento, vemos cenas da natureza, uma cachoeira, alguns animais, paisagens tranqüilas e repletas de sossego. Porém, no seu caminho, a criatura encontra um ser misterioso. Na aparência, ambos são muito parecidos, mas seus corpos dão acesso a dois mundos completamente distintos: um é o dia, o outro é a noite. Eles se olham e conseguem apenas enxergar a alteridade de si próprios. O outro é o estranho e o incompreensível, por isso a primeira reação de ambos se limita a um esforço de anulação daquilo que é estranho na manifestação do outro. Eles se agarram, se batem, se jogam, mas a força não é capaz de aproximá-los. A diferença permanece irredutível. É difícil imaginar uma representação fílmica mais simples e clara, mas também intensa e poética, dessa percepção do outro como algo incompreensível e ameaçador. As duas criaturas tomam consciência de uma espécie de fissura, não há possibilidade de se tornar o outro, nem de reduzir a sua estranheza para um plano comum. Assim, é a partir dessa consciência que elas buscam um novo caminho para se relacionar. Só que agora não mais buscando a anulação da diferença, mas a partir de uma experiência de compartilhamento, num com-sentir a alteridade do outro. É por isso que o curta é atravessado por um forte sentido ético: a possibilidade de uma experiência comum não nasce da anulação da diferença e nem do encontro com um idêntico, mas num esforço de abertura para a alteridade, para aquilo que é irredutível e inalcançável no outro. Isso significa que o fundamento de qualquer relação a dois, e em especial daquilo que chamamos de amizade, se localiza nessa impossibilidade de fusão do outro com o eu. E a cena que ilustra isso é belíssima: as duas criaturas se abraçam e lentamente o dia se torna noite e a noite se torna dia. O eu vira outro, mas no mesmo movimento o outro vira eu e a identificação, capaz de anular a diferença, dura apenas um breve lapso de tempo, apenas para afirmar uma nova diferença. É nesse jogo de deslocamentos, de diferença em diferença, que ganha algum sentido o gesto de compartilhamento de experiências. É por isso que poucas vezes o cinema conseguiu fazer um elogio da amizade com tanta intensidade como nessa breve animação.

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7 Comments to “Dia e Noite de Teddy Newton (o curta exibido antes do Toy Story 3)”

  1. renatocinema disse:

    Adorei essa animação. Muito. Sem dúvida, das melhores da Pixar.

  2. babi disse:

    e é belíssimo também ver como todo esse discurso é mostrado sem fala. a poesia consegue se concentrar nas imagens e a ética na percepção de quem o assiste.

  3. Caio disse:

    Leandro,

    a lista está aqui: http://www.edusp.com.br/doc/editoras_feira_2010.xls

    É que os espertos colocaram o link associado ao cartaz de divulgação presente na parte de eventos do site da Edusp.

    Divulgue!

  4. Leandro disse:

    Renato,

    É ótimo mesmo! Acho que apenas o Wall-E (é minha animação preferida da Pixar) é melhor.

    Obrigado pelo comentário e pela visita

    Leandro

  5. Leandro disse:

    Babi,

    Muito bem lembrado, é fantástico como o curta funciona perfeitamente sem a necessidade da fala. Acho que isso torna o curta ainda mais bonito.

    Obrigado pelo comentário e pela visita.

    Leandro

  6. Leandro disse:

    Caio,

    Obrigado pela dica. Eu tinha clicado na imagem na esperança de estar com o link, mas na ocasião ainda não estava. Depois esqueci de tentar novamente. Já coloquei a lista no blog.

    Leandro

  7. carol disse:

    A animação é muito bonita mesmo e a linguagem simples é encantadora. eu assisti no cinema e quando acabou foi como se a visita já tivesse valido à pena.

    Complementou o Toy Story, que eu adorei também!

    Adorei o “com-sentir a alteridade do outro”! :)

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