Dois Irmãos

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A marca que domina os personagens da peça “Dois Irmãos”, uma adaptação do texto homônimo de Milton Hatoum, é o desejo. Seja pela sua presença sufocante e irrefreável, seja pelo seu oposto, pela ausência congelante e vazia, a tragédia da família de libaneses na Amazônia nasce do desejo. A trama central da peça é o conflito insuperável dos gêmeos Yaqub e Omar, diferentes em tudo: Yaqub é centrado, disciplinado, tímido, aplicado nos estudos e comedido nos modos; Omar é puro desejo, festeiro, extrovertido, hedonista e sem limites. Ainda que de personalidades tão antagônicas, ambos acabaram nutrindo uma paixão pela mesma garota, fato que serve de gesto inaugural de todo o conflito. Em torno do conflito dos irmãos, gira o restante da família: o patriarca Halim, que nutre uma paixão sem limites por sua esposa, Zana. Esta nunca consegue se desprender de seus filhos, especialmente Omar. Rânia é a filha mais nova da família, guardando uma relação ambígua com a mãe e seus irmãos. Finalmente, vive na casa uma cunhatã chamada Domingas, tratada quase como escrava, mas que estabelece uma relação íntima com os gêmeos. Muito mais do que uma história de ódio fraternal, a peça fala sobre a força paralisante e trágica do desejo. É o desejo de Halim por Zana que o submete a todas as vontades de sua esposa. São essas mesmas vontades que impedem Zana de libertar seus filhos, de permitir que eles partam e vivam. É o desejo negado a Rânia, quando sua mãe não lhe permite que viva com o homem que ama, que a torna fria e reclusa, vazia e quase sem vida. Mas, não há dúvida nenhuma que os dois personagens que expressam com mais força a ambigüidade do desejo sejam os dois gêmeos. Omar é puro desejo, que na sua força irrefreável acaba por ferir e causar sofrimento a todos que lhe são próximo. Já Yaqub é o absoluto contrário. Sua disciplina austera tenta a todo custo dominar seu desejo, mas isso o torna uma pessoa vazia e cheia de ódio, incapaz de reatar qualquer vínculo duradouro com sua família. Na impossibilidade de superar essa ambigüidade do desejo é que vai se estruturando um conflito trágico, que acaba por arrasar todos. Vale dizer que a tensão interna da família extravasa para além do núcleo doméstico, possibilitando uma articulação da narrativa com os movimentos mais gerais da sociedade brasileira no período, como por exemplo, na tomada de posições contrárias dos gêmeos frente ao golpe militar de 1964. Por isso tudo, a peça “Dois Irmãos” é uma história que toca com força o espectador. A montagem, bastante simples, sem nenhum recurso exagerado, contribui bastante para a força do texto, fazendo jus à beleza da obra original.

A peça está em nova temporada, agora no Teatro Imprensa, até o dia 16/03.

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