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O texto que segue abaixo é resultado de uma discussão que realizei sobre os usos da tecnologia em sala de aula. Em dado momento do debate, um dos participantes defendeu o uso de câmeras para que os responsáveis pelos alunos pudessem acompanhar o trabalho pedagógico realizado em sala de aula. Não pude concordar com a ideia. Por isso, escrevi o texto abaixo para justificar a minha discordância. A versão que coloco no blog sofreu algumas modificações, mas ainda assim é um texto ligeiro e que apenas delineia algumas questões que me parecem relevantes. Também omiti qualquer referência que fazia aos demais participantes da discussão.

Bem, continuo enxergando o sistema de monitoramente como uma curiosa inflexão nas relações de poder que perpassam o ambiente escolar, o que está diretamente relacionado com mudanças nas formas de subjetivação instauradas pela ação institucional. Antes de tudo, é necessário um breve esclarecimento sobre o que entendo por relações de poder. Longe de pensar o poder como uma ação exclusivamente violenta, de dominação e controle, penso nele como um conjunto de procedimentos e práticas adotado para a condução das condutas alheias. Nesse sentido, o poder não é nada mais do que um tipo de relação entre os indivíduos que envolve esse agir sobre outras ações. Por conta disso, exercer um poder não se limita a um esforço de dominação (na realidade, numa relação de absoluta dominação nem mesmo existiria relações de poder), mas sim numa espécie de produtividade: seu exercício produz novas condutas e ações. Essa produtividade se manifesta naquilo que podemos chamar de práticas de subjetivação e dessubjetivação. Logo, não seria errado dizer que aquilo que chamamos de euinterioridade,alma, ou qualquer termo que se aplique, é um efeito direto dos jogos de poder que perpassam as relações humanas e o corpo social, tecendo uma rede extremamente complexa de micropoderes. Portanto, toda subjetividade é resultado de uma ação de poder, de uma maior ou menor violência, de um maior ou menor controle. Nesse sentido, é importante lembrar uma belíssima ideia formulada por um grande historiador português, Jorge Ramos do Ó. Segundo ele, o ideário da escola moderna era governar sem governar, de ampliar os poderes até aos limites mais distantes, ou seja, às escolhas de sujeitos autônomos. As práticas de governo (ou seja, o exercício concreto do poder, que doravante chamarei pelo termo governança) aplicadas pela escola, funcionam essencialmente a partir da constituição de liberdades reguladas, na qual os indivíduos interiorizam regras básicas de comportamento (disciplina), o que possibilita a constituição de sujeitos individual capazes de gerenciar sua própria liberdade. Em termos mais claros: a liberdade nasce a partir das práticas de adestramento e controle organizadas em torno da disciplina escolar. Isto tudo ajuda a compreender como a escola produzia um determinado tipo de sujeito durante a “era dourada” da sociedade disciplinar. Foi nesse momento que a escola era se constitui na peça central do maquinário de produção de sujeitos livres e habilitados para a ação no espaço público liberal. Por isso era tão importante a noção de liberdade: cada sujeito deveria ser capaz de moderar suas ações para agir com a responsabilidade devida, ser capaz de escolher seus governantes, realizar a sua rotina de trabalho (nada mais disciplinar do que bater o ponto diariamente, um hábito trabalhado diariamente na escola, com a chamada), enfim ser livre e útil para a sociedade. Esta época dourada, da qual não devemos carregar nenhum tipo de saudosismo, está se desfazendo. Basta lembrar de noções tão novas como trabalho imaterial, pós-taylorismo, ensino a distância, etc. Ora, qual é a grande novidade? Um processo de subjetivação no qual não é mais necessário a criação dessas liberdades reguladas, afinal de contas vai surgindo infinitos mecanismos capazes de controlar as ações necessárias para o funcionamento dos novos espaços produtivos (e não mais necessariamente espaços públicos). Os prazos, as metas, os objetivos, as tarefas semanais, tudo controlado por senhas individualizadas, por mecanismos de gestão infinitesimais. Veja o exemplo dos cursos a distância. Ele sintetiza muito bem a nova personalidade que está sendo gestada: o cumpridor de tarefas. O cursista não precisa criar uma rotina de trabalho diário, como na sala de aula tradicional. Ele pode usar seu tempo da maneira que lhe apetece, distribuir o trabalho de acordo com sua disposição e disponibilidade. Tudo que necessita é garantir o cumprimento das tarefas que foram dispostas. Isso significa que não é mais necessário o lento trabalho de introjeção dos mecanismos disciplinares: a conquista de uma rotina de estudos e reflexão, de um método de aprendizado estruturado segundo regras rígidas. Nada disso. Tudo se limita a seguir a organização do sistema, pois ele é que regula o trabalho. Semanalmente a plataforma do curso enviará atividades e instruções, as quais poderão ser realizadas de forma assistemática ou descontinua. A única coisa importante é o cumprimento de todas as tarefas. Dessa forma, acontece um deslocamento da disciplina: ela não é mais interiorizada, mas externalizada na forma de um sistema de controle. De forma pontual isso realmente não parece ter efeitos mais grandiosos. Porém, a longo prazo esse processo modifica a natureza mesma da subjetividade contemporânea. Apenas um exemplo: hoje o aprendizado acontece cada vez mais por meio de rotinas curtas, pouca concentração, leituras e tarefas múltiplas, leio um minuto e salto pra outra coisa, ai volto pra leitura, e por assim vai. Isso torna cada vez mais desnecessário a leitura de textos longos, a síntese se torna uma grande virtude. É nisso que entra a história dos pais poderem assistir as filmagens em sala de aula, exatamente nesse processo de desdisciplinarização que estou falando. A ideia da câmera é muito simples: o espaço escolar é colocado ao alcance de mecanismos constantes e contínuos de controle, nos quais qualquer um pode participar. Claro, poderíamos dizer que esse controle não será continuo, que pai nenhum ficará o tempo todo olhando através da câmera, serviria apenas para dar uma “olhadinha”, e isso não seria uma péssima ideia. Mas quem disse que o controle precisa ser exercido sempre? O próprio do panóptico era exatamente essa possibilidade de uma olhadinha. Quem está sob vigilância nunca terá condições de saber quem está olhando, quando está olhando e com que propósito. A câmera representa a radicalização do controle, que intensifica e generaliza de tal forma a disciplina, ultrapassando as fronteiras das instituições, tornadas permeáveis de forma que não há mais distinção entre fora e dentro, ao ponto de não ser mais necessário gastar energia com a disciplina: o aluno cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser utilizado para corrigi-la. O professor cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser corrigido. O conflito que necessariamente se estabelecia processo de disciplinarização se esvazia. O aluno não precisa mais introjetar uma regulação da sua conduta, pois estará constantemente posto em vigilância, mesmo que nem sempre alguém esteja lá olhando. É a lógica do BBB na sala de aula. Nesse sentido, vale mencionar novamente as ideias de Giorgio Agamben, a respeito dessa mutação na forma de subjetivação contemporânea: a subjetividade ocidental fora produzida a partir de uma série de dispositivos (entre eles, com claro destaque, os mecanismos de escolarização), que visavam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Entretanto, o que define os dispositivos com os quais temos que lidar na contemporaneidade é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivaçãoos quais não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Frente a estes seres espectrais, as próprias noções da modernidade começam a se esfacelar: a política, a separação de público e privado, a linguagem e a possibilidade mesma de educação. Como diz Michael Hardt, com todas estas transformações vivenciamos cada vez mais um déficit do político, o lugar da política foi desrealizado. Este fato torna possível a constituição de uma sociedade que começa a aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Num momento de transformação, no qual o velho vai se esfacelando, será que o melhor papel para aqueles diretamente interessados numa política educacional consistente, é justamente remar em consonância com essas novas formas de controle? Defendendo entusiasticamente essa conversão generalizada da sociedade em um corpo de delinquentes? Ou não seria esta uma excelente oportunidade para bolarmos novas formas de ação e subjetivação?

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