El Justicero de Nelson Pereira dos Santos

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Nelson Pereira dos Santos é considerado um dos principais diretores do cinema brasileiro. Sua obra abarca uma temática muito variada, adaptando textos importantes da literatura, retratando a vida urbana do Brasil nas décadas de cinqüenta e sessenta, ou a “realidade” do homem nordestino sob o signo da seca e da miséria. Infelizmente, seus primeiros trabalhos não são muito acessíveis para nós. Vidas Secas, seu filme mais importante, só está disponível em cópias de qualidade muito prejudicada, e a única versão em DVD não foi lançada no Brasil. O mesmo vale para suas demais obras mais antigas, nenhuma delas se encontra em catálogo no momento.

Apesar disso, vez ou outra surge a oportunidade de assistir seus filmes em festivais (ou graças ao maior site de compartilhamento de arquivos: Google). Consegui assistir uma das suas obras menos destacados ontem, no 4º Festival de Cinema Latino-Americano: El Justicero, de 1966. O filme, como explicado pelo próprio diretor, nasceu do puro acaso. Com o golpe militar e a perseguição de alguns professores da Universidade de Brasília, a maior parte dos profissionais daquela instituição, entre eles o próprio Nelson Pereira, se demitiu em solidariedade aos perseguidos, fato que acabou prejudicando a produção dos projetos de Sousa. Por isso, ele foi obrigado a procurar novas oportunidades no Rio de Janeiro.

A legislação da época possibilitava a utilização de parte do imposto de renda pago na distribuição de filmes estrangeiros para financiar projetos nacionais. Por conta disso, Nelson Pereira apresentou suas idéias a uma importante distribuidora de filmes europeus, na esperança de encontrar um produtor capaz de garantir a realização de suas obras. Porém, para conseguir o financiamento, ele foi obrigado a apresentar uma proposta que pudesse ter algum apelo popular, uma comédia capaz de envolver o público. Vale lembrar que as chanchadas eram o modelo de cinema comercial brasileiro do período. Da necessidade de bolar um filme que agradasse seu produtor nasceu El Justicero.

A película foi inspirada no livro de João Bethencourt, As vidas de El Justicero: O Cafajeste sem Medo e Sem Mácula, e conta a história de Jorge Dias Das Neves, o famigerado El Justicero. Conhecido pelos mais íntimos como El Jus, o personagem é filho de um grande empresário que se tornou rico graças aos seus golpes e falcatruas. Um homem poderoso e influente, expressão mais acabada do empresariado brasileiro envolvido na modernização conservadora que se realizava no Brasil daquele momento. El Jus aproveita com sabedoria os fartos recursos de seu pai. Vive como um verdadeiro playboy: nunca trabalha, vive na praia, se envolve com todas as belas mulheres do Rio de Janeiro, conhece as manhas e os artifícios da vida citadina. Mas não é um playboy qualquer, El Jus se considera uma espécie de Robin Hood carioca, sempre atento aos problemas da população mais pobre. É, portanto, uma espécie de herói que transita bem tanto entre as elites quanto entre os populares.

O filme, no entanto, provoca um estranhamento no espectador, que não consegue simpatizar verdadeiramente com o protagonista. Na realidade, a narrativa é construída por um viés satírico e jocoso, que desmonta qualquer característica heróica de El Jus. Toda sua ação é desprovida de qualquer seriedade, de qualquer sentido ou propósito. Jorge Dias aparece apenas como um sujeito fútil e um pouco mimado, a quintessência do homem cordial brasileiro. É como se naquele clima, naquela sociedade pós-golpe, naquele estrato social, não houvesse espaço para nenhum tipo de heroísmo.

Nesse sentido, a figura do intelectual e do comunista não poderiam estar ausentes. O intelectual é representado por Lenine, o biógrafo de El Jus, um personagem instruído pela filosofia contemporânea, um arguto observador da realidade brasileira e de suas contradições. Porém, o intelectual não encontra um espaço autônomo para realizar sua atividade, por isso acaba vivendo numa existência meio parasitária, meio dependente, ao lado de El Jus. O intelectual representa muito claramente o sentido de nossas idéias fora de lugar. Não deixa de ser uma reatualização da figura do eterno agregado.

A comunista é a irmã (se não estou enganada) da namorada do intelectual. Porém, seu credo político não a impede de se apaixonar e se envolver com pessoas do mesmo estrato social de Jorge Dias. Suas idéias se mostram, assim, pura vacuidade, sem nenhuma potencialidade prática. O filme realiza, portanto, um movimento que esvazia toda possibilidade de ação dos seus personagens, tudo é meio absurdo e gratuito. Ninguém leva a sério o que diz ou o que faz.

O anti-herói é o grande campeão desse universo, é o personagem que sabe manipular com segurança os instrumentos dessa sociedade, capaz de conseguir o que quer e viver como quer. Ele, mais do que qualquer outro, sabe como jogar com as relações pessoais e afetivas que orientam a ação social. Por isso, que as idéias intelectualizadas ou politicamente motivadas se mostram tão vazias, pois elas não alcançam esse núcleo duro da sociedade.


O filme, apesar do seu caráter – uma comédia de costumes encomendada pelo produtor –, é um retrato muito crítico da sociedade que acabara de assistir ao golpe militar de maneira absolutamente passiva, uma sociedade fortemente marcada por um tradicionalismo e um moralismo conservador, cheia de autoritarismos e desigualdades sociais. El Jus é fruto desses embates, incapaz de abrir caminho para transformar qualquer coisa, servindo apenas como motivo de repetição de tudo que já existia. O filme, apesar de algumas limitações estéticas, é uma interessante representação da segunda metade da década de 60, capaz de ridicularizar com o que havia de mais absurdo naquele cenário. A risada, as vezes, é o caminho mais rápido e poderoso para a crítica e a reflexão. A graça do filme de Nelson Pereira pode parecer simples, mas revela muito. Por isso, é uma pena que não seja um filme de fácil acesso. Por sorte, o generoso Google pode ajudar a divulgar este filme meio esquecido…

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One Comment to “El Justicero de Nelson Pereira dos Santos”

  1. josaphat disse:

    Obrigado pela visita. Linkei teu blog também. Fiquei interessado em "Entre os muros da escola". Vou procurá-lo.
    Um abraço.

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