Eles não usam Black-Tie de Leon Hirszman

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O filme Eles não usam Black-Tie, do diretor brasileiro Leon Hirszman, tem um sentido histórico muito forte. Lançado em 1981, a obra dialogava diretamente com as transformações em curso na sociedade brasileira de então, especialmente em relação ao movimento operário, sua organização, suas greves e a maneira como enfrentavam o governo autoritário. A trama, baseada na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, está centrada na figura de Tião, um pobre operário da periferia de São Paulo. Ao mesmo tempo em que descobre a gravidez de sua namorada, Tião também precisa lidar com a iminência de uma greve na fábrica em que trabalha. Porém, ao contrário de seu círculo familiar, ele não enxerga a greve como um instrumento válido de ação, vendo toda a situação como uma ameaça aos seus projetos de futuro e ao seu esforço de ascensão social, o que lhe afasta da organização sindical.

O filme converte a questão política numa questão também pessoal (e num dilema ético), a recusa de Tião, que acaba realmente furando a greve, não é apenas um problema político: sua decisão marca também seu afastamento da comunidade em que vive, sua decisão acaba o isolando. A consciência de classe é representada como a grande costura social, o elemento mesmo que possibilita a sociabilidade entre os semelhantes. Por isso, pode-se dizer que o grande tema do filme é a íntima relação entre o político e a vida cotidiana, a sobredeterminação do mundo privado pelo mundo público. O filme acaba ecoando o espírito da abertura política, marcado pela crença nas possibilidades de mudança e transformação da sociedade, desde que houvesse de fato uma mobilização classista, um movimento que transcendesse a mera questão pessoal. É claro que o filme não professa uma visão ingenuamente otimista, as marcas da repressão e do enfrentamento estão por toda parte. Mas isso não impede a formação de uma zona de ação, de engajamento, que possibilita ao indivíduo a consecução de um ato político.

Dessa maneira, a obra guarda uma grande atualidade com o momento de sua realização. Há um sentimento de urgência, sentimento próprio de uma narrativa que capta a mudança no momento mesmo em que ela se manifesta. Esta atualidade, porém, ganha um sentido muito diverso quando observada do ponto em que nos encontramos. É como se houvesse uma disjunção entre o tempo histórico do filme e o nosso, especialmente quando observamos a fratura, evidente para todos com o mínimo de lucidez, entre o mundo público e o privado. A descrença na política, o esfacelamento do movimento operário e das suas políticas tradicionais, especialmente a greve, tudo se aglutina no esvaziamento do mundo público, cada vez menos relevante para nossas vidas privadas. Se por muito tempo a grande matriz identitária, a base das nossas representações como sujeitos individuais, estava estruturada a partir de elementos políticos, o burguês, o proletário, o intelectual, etc., nota-se um acelerado processo de dessubjetivação dessas categorias.

O filósofo italiano Giorgio Agamben expressa muito bem o efeito desse processo nas representações tradicionais da política: “as sociedades contemporâneas se apresentam assim como corpos inertes atravessados por gigantescos processos de dessubjetivação que não correspondem a nenhuma subjetivação real. Daqui o eclipse da política, que pressupunha sujeitos e identidades reais (o movimento operário, a burguesia etc.), e o triunfo da oikonomia, isto é, de uma pura atividade de governo que visa somente à sua própria reprodução” [1].

Nesse sentido, Tião se torna o símbolo desse esvaziamento, do triunfo cada vez mais acelerado da oikonomia e seus dispositivos de poder. A atualidade do filme, ao contrário do que as “viúvas do marxismo” gostariam de pensar, não está, assim, na leitura que denuncia o esvaziamento da política classista, e na defesa do retorno ao velho esquema da luta de classes, mas para a necessidade de pensar o problema do governo, na contemporaneidade, a partir da falência mesma dessa grade conceitual. Não basta insistir num discurso decadentista, que celebra a era de ouro da luta contra o capital, mas tentar entender como nos governamos e somos governados, que tipo de sujeitos (ou não-sujeitos, como entende Agamben) as práticas de governo produzem, e que tipo de ação faz sentido nesse contexto. O grande valor do filme, portanto, é que ele nos obriga a situar o olhar nessa disjunção, que nos separa de um período tão próximo de nós (afinal, trata-se de uma obra com apenas 30 anos), mas também tão distante.

 

 

 

[1] Giorgio Agamben, O que é um dispositivo, p. 48-49.

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