Em Paris de Christophe Honoré

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O que movimenta a trama de Em Paris, do diretor francês Christophe Honoré, é um questionamento sobre o que resta após o fim de um relacionamento. O filme inicia com a separação de Paul e Anna. Não sabemos muito bem o que ocorreu, vemos apenas algumas cenas que sinalizam para um casal em profunda crise. De um amor que não existe mais, de uma relação sacrificada pelo peso da rotina, pelo desgaste e pelo ressentimento recíprocos. A separação, porém, não significa um alívio, mas um lento e melancólico processo de luto. Paul busca refúgio na casa de seu pai, onde também mora seu irmão Jonathan, o narrador do filme. A tristeza de Paul parece não encontrar limites. Tudo o que faz é permanecer prostrado em sua cama, de pijama, incapaz de comer ou de realizar qualquer coisa. Os esforços de seu pai, de seu irmão e mesmo de sua mãe, são incapazes de ultrapassar essa tristeza paralisante que reina sobre sua existência. Nesse sentido, a tristeza não é simplesmente uma condição da existência, mas o próprio divórcio diante da vida. Parece que Paul, aos poucos, se mostra incapaz de lutar, de afirmar-se, de proteger-se da própria tristeza. É por isso que Paul lembra a história de sua irmã mais nova, uma garota que passava sempre alguns dias do mês na mais profunda melancolia. São os dias melancólicos. É como se o amor fosse uma tentativa de proteção contra essa impotência triste, capaz de tornar a própria existência inoperante. E Paul bem sabe o que acontece quando se torna impossível deter essa impotência, na inoperância é a própria existência que acaba, como sua jovem irmã, que num dia surpreendeu a todos e cometeu suicídio. O fim do relacionamento de Paul parece, então, como esse momento de fragilidade que arrisca a existência de todo amante: quando o amor acaba e não resta nada que possa protegê-lo da tristeza. Porém, existe um momento de virada, uma possibilidade de reconciliação consigo próprio, mas também de si para com o amor partido. A grande beleza de Em Paris é justamente essa crença intensa na possibilidade de um recomeço, de um reencontro entre os amantes perdidos. Este reencontro nasce de um gesto simples, um pequeno movimento de reaproximação, de uma tentativa de reconstituir aquilo que se partiu. A simplicidade do gesto, porém, não significa algo menos intenso. Na realidade, a pequena cena de Paul e Anna ao telefone, cantando a canção avant la haine, carrega uma potência rara. É como se conseguisse sintetizar em seus poucos minutos toda a dor de um amor sufocado pelo ressentimento imposto pela rotina e pelo distanciamento. Contra esse ressentimento, o casal entristecido tenta encontrar uma chance, uma possibilidade de novo encontro. É a conversão do ódio em amor, da impotência em potência. Não é possível saber bem que tipo de recomeço será este, pode-se apenas saber que se trata de um caminho capaz de ultrapassar a ruptura, a quebra. É uma recusa da morte e do luto. No fim, Em Paris funciona como um elogio, quase uma profissão de fé, da possibilidade de seguir adiante após o fim e recomeçar.

E vale ver e rever a bela cena da canção Avant la haine:

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