Em um Mundo Melhor de Susanne Bier

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Em um Mundo Melhor é uma espécie de reflexão sobre a falha na soberania. Porém, a proposta não é criticar ou pensar uma alternativa à ordem soberana. Na realidade, o que vemos é uma tese que insiste na dimensão central da soberania como estruturante da civilização. Por trás de um discurso cheio de boas intenções e politicamente engajado, com belas imagens e uma trama até que bem arranjada, o que vemos é um discurso bastante conservador e pessimista.

O filme funciona a partir de duas narrativas distintas e que se conectam através das ações do protagonista, o médico Anton. A primeira é aquela que se passa num acampamento médico e de ajuda humanitária no continente africano. A região é indeterminada e genérica, recuperando as imagens mais comuns que utilizamos para imaginar a situação social da região: pobreza, fome, doenças e violência. No meio de tanto sofrimento, Anton aparece como um homem idealista, preocupado em minimizar os problemas e cuidar daquela população desprovida de qualquer recurso ou defesa, num constante estado de vulnerabilidade. E nada reforça com mais ênfase essa condição de vulnerabilidade do que a ação de um bando de violentos mercenários. Estes atacam e saqueiam os acampamentos com muita violência e sadismo.

Diante desse grupo bárbaro, a população local não encontra nenhuma forma de proteção, nenhum mecanismo capaz de neutralizar a ameaça e o estado de insegurança. Essa vulnerabilidade, como fica implícito no desenrolar do filme, é o resultado de um vazio político, da ausência de um Estado ou de uma autoridade capaz de mediar os conflitos e impedir a barbarização da existência. Nessa falha da soberania, tudo que resta é um estado de guerra, no qual cada um pode fazer justiça com suas próprias forças, e mesmo o mais violento não tem garantia nenhuma de que não será também violentado (basta lembrar o que ocorre com o líder dos mercenários).

Este “estado de guerra” também aparece na segunda narrativa que percorre o filme. Agora o problema se desenrola no coração do mundo civilizado, a tranqüila e supostamente cordata Dinamarca. Só que nesse caso, o foco é colocado na perspectiva de duas crianças. Elias, o filho de Anton, é uma criança que enfrenta problemas na escola. Ele é vítima do bullying. Retraído e tímido, incapaz de se defender, é constantemente agredido e humilhado. Seus problemas se agravam com a incompreensão do mundo adulto. Seus pais passam por um processo de separação, além de estarem sempre ocupados com seus trabalhos. E os professores também não conseguem entender a gravidade da situação, nem imaginar uma forma de controlar os abusos impostos ao garoto. Como se percebe, a escola se transformou numa terra de ninguém, sem regras ou leis, e os mais fortes se juntam para violentar os indefesos. Porém, como já mencionei, nesse universo hobbesiano, não há força que não possa ser superada por outra força.

É nisso que entra Christian, um jovem garoto recém-ingresso na escola. Ele também enfrenta problemas em casa, sua mãe morreu de câncer e ele culpa seu pai pela morte. Incapaz de vivenciar o luto, ele se afasta da família e adota um comportamento extremamente violento e destrutivo. Ele aparece como a melhor manifestação dos efeitos predadores da violência sem limite. O problema é que ele se aproxima de Elias e realiza uma espécie de pedagogia da violência: diante da ameaça, ele ensina ao seu novo amigo, é necessário revidar com o máximo de força. É assim que ele resolve os problemas de bullying do colega, quase matando o garoto que liderava as humilhações.

O nexo explicativo dessa violência é o fracasso duplo daquilo que forma a base da sociedade disciplinar: a família e a escola. Ambas as instituições encontram-se distantes e incapazes de funcionar como materializadoras das regras sociais mais amplas. É como se coubesse a elas o papel de inserir no microcosmo social a ordem da soberania política. Nessa incapacidade, a ordem se esvai e a violência só cresce. É por isso que a figura de Anton é tão importante. É ele que acaba confrontado, nos dois mundos, com os efeitos da ausência de soberania e tenta reintroduzir alguma ordem ao mundo.

Para isso, ele defende uma postura de total intransigência contra a violência. O espírito da coisa é que toda ação leva a uma reação e isso acaba criando um ciclo infinito de violências. Christian é o exemplo perfeito disso. Ainda que sua brutalidade tenha resultados positivos, a situação escapa do seu controle e por pouco ele não acaba com a vida do seu próprio colega. O que Anton prega, portanto, é que para superar a barbárie é necessário utilizar recursos que não os violentos. Esse idealismo, entretanto, não funciona na África. A sensação que fica é que, na perspectiva do filme, a barbarização da região é tão profunda que não sobra nenhum espaço para reversão. E lá só existe uma ordem possível, a da guerra de todos contra todos.

Porém, a crise do mundo civilizado é muito menos profunda. E quando retorna à Dinamarca, Anton tem sucesso na mediação do conflito. E isso passa essencialmente pela reconciliação com as instituições disciplinares: a violência de Christian só cessa quando ele reencontra um espaço de diálogo e confiança junto a seu pai. E isso acontece através da intervenção de Anton e da sua convicção que a única forma de superar o círculo de violências era recusando o desejo de vingança. Por isso, mesmo vendo seu filho a beira da morte, ele não titubeia quando cabe apenas a ele salvar o responsável por aquilo tudo, Christian.

No final, o filme apenas reforça a diferença entre os civilizados e os bárbaros. Aqueles são capazes de mediar sua violência e reintroduzir a ordem soberana ao mundo (não é gratuito que a salvação do garoto passe necessariamente pela figura do pai/soberano). Estes, infelizmente, não são capazes do mesmo. Por isso, cabe aos europeus tentaram, ao menos, remediar essa situação com seu trabalho humanitário. O filme não poderia acabar de outra maneira, o idealista retorna ao continente africano para continuar sua missão heróica. Com uma tese tão conservadora, não é surpreendente que o filme tenha levado o Oscar de filme estrangeiro.

 

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