Encontros e Desencontros de Sofia Coppola

0

Sou um grande fã dos filmes de Sofia Coppola. E dos seus filmes, meu favorito é o Encontros e Desencontros. A trama é muito bonita e a atuação de Bill Murray é memorável. Além disso, o filme elabora uma interessante reflexão sobre a amizade na contemporaneidade. O que estrutura a narrativa é uma espécie de crise existencial enfrentada pelos dois protagonistas, Bob Harris (o já mencionado Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson). Ainda que por razões muito diversas – afinal Bob é um homem de meia idade que vive num casamento longo e frio; já Charlotte é uma jovem mulher, recém-casada e recém-formada, que está apenas esboçando os primeiros passos em direção a uma vida adulta – ambos vivenciam uma profunda sensação de solidão. Sensação que apenas se agravou com a estadia em Tóquio. Presos num mundo estranho, com sua cultura particular (algumas das cenas mais engraçadas do filme tratam justamente da sensação de estranheza vivenciada pelos personagens quando interagem com os japoneses) e sua língua completamente desconhecida, Bob e Charlotte encontram-se desprovidos de amigos, de qualquer tipo de companhia capaz de compartilhar a existência. Forma-se uma situação na qual ambos sentem o mundo a partir de uma fissura de incompreensão e desentendimento entre si próprio e o outro, como se não existisse uma linguagem comum capaz de ultrapassar tal distância. Por isso, pode-se dizer que o grande tema do filme, já muito bem sinalizado no título original (Lost in Translation), é justamente a necessidade de superar esta dificuldade no estabelecimento de uma comunicação compreensiva entre subjetividades, ameaçada sempre pela incapacidade de tradução de si ao outro. A normalidade dos relacionamentos humanos seria marcada por confusões, causadas por erros de tradução, que mais afastam do que aproximam, inviabilizando a experimentação de uma amizade no seu sentido mais forte. Porém, e é isso que realmente torna o filme interessante, há uma abertura capaz de romper essa normalidade, qual seja, a possibilidade de um acontecimento (aquilo que não entra na ordem imediata das coisas), o que reabriria um espaço de convivênciacom-sentimento, ou seja, possibilitar a criação de um espaço próprio à amizade. Este acontecimento, obviamente, é o encontro fortuito de Bill e Charlotte, no bar do hotel em que estão hospedados. A empatia é imediata. É como se, após a longa privação de comunicação, fosse necessária uma compensação imediata. A partir desse ponto, o filme funciona segundo uma sucessão de situações nas quais ambos experimentam um conjunto de momentos doces, em total contraponto com o clima melancólico que acompanhava as ações prévias da dupla. A doçura deste encontro acontece na medida em que se torna uma experiência compartilhada, com-sentida por ambos. É uma relação que funciona através de uma suspensão, ainda que provisória, daquela incapacidade de abertura ao outro, é essencialmente uma experimentação de descentramento ou deslocamento. O relacionamento de Bill e Charlotte capta muito bem aquilo que Agamben falou a respeito da amizade: o amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na ‘mesmidade’, um torna-se outro do mesmo. No ponto em que percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessada por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si. Esta amizade, porém, encontra-se sempre ameaça pela tensão erótica estabelecida entre os dois. Há um risco constante da conversão dessa amizade numa simples aventura amorosa, e consequentemente na perda dessa possibilidade de experimentar junto, de uma convivência alegre. A beleza do filme nasce dessa tensão, que nunca se resolve, sempre alertando ao espectador que a amizade é essa relação que nasce do acaso, do imponderável, e está sempre ameaçada, sempre no limite da sua própria anulação. A possibilidade de cultivá-la, portanto, permanece no plano do indefinido, do imponderável. É na duração incerta dessa experiência fugidia que se torna possível uma vivência menos fixa e determinada, acompanhada apenas pela alegria do bom encontro.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.