O livro Entre os Muros da Escola, do escritor francês François Bégaudeau, me agradou tanto quanto sua adaptação fílmica. A preocupação das duas obras é mais ou menos a mesma, mas cada uma encontrou uma maneira, própria a sua linguagem, de realizar esta preocupação. Como já tratei do filme anteriormente, irei esboçar algumas idéias que nasceram da leitura do livro.

Para começar, é importante destacar que um dos méritos do texto de Bégaudeau é a maneira que ele encontrou para dar uma forma literária ao ambiente escolar. Ambiente marcado pela rotina e pela repetição, o que exige a construção de um texto que recupere esta característica. Nesse sentido, o livro é construído em torno de certos referenciais estáveis: a sala de aula, a sala dos professores, a reunião pedagógica, a sala do diretor. Estes elementos são repetidos inúmeras vezes no desenvolvimento do texto. E em cada espaço há mesmo a repetição de certas situações: o problema com a máquina de xérox ou com a máquina de café, o conflito insistente com tal ou qual aluno, etc. Essa sensação de um ambiente que não se desenvolve é reforçada pelo reinicio de cada capítulo, quando a mesma situação é sempre reatualizada.

Esta preocupação em “dar vida” ao ambiente escolar é reforçada pelo foco narrativo do livro. O autor elegeu como seu narrador o professor François, de francês. Este é uma espécie de narrador-protagonista, que relata aquilo que presencia, de um ponto limitado, sem uma perspectiva totalizante. François descreve minuciosamente aquilo que seu olhar enxerga. Esta descrição acaba privilegiando, na maior parte das vezes, os momentos tensos e conflituosos com os alunos ou com os demais agentes escolares. A utilização muito moderada de monólogos interiores também funciona segundo esta perspectiva. O personagem-narrador julga pouco e descreve muito. Seu relato é, portanto, fixado num plano muito próximo daquilo que seria a “realidade” da sala de aula. Este recurso, é claro, não significa que o livro busque estabelecer uma narrativa objetiva e estável. Na realidade, o olhar de François abre uma janela particular para a realidade escolar, possibilitando uma reflexão que desnaturaliza um pouco o que lá acontece. Este ponto me parece chave para refletir sobre a representação que o livro apresenta do universo escolar.

O personagem de François olha para aquela situação, aquela que nos é narrada, buscando um ponto de apoio, uma posição capaz de situá-lo em relação ao que acontece entre os muros da instituição. A questão que o livro lança é justamente a impossibilidade de encontrar este ponto de referência. Com isso, torna-se impossível a reconstituição orientada segundo um sentido explicativo da narrativa escolar. Não é gratuito que o livro esteja estruturado em forma de fragmentos, de cenas que vão se sucedendo sem compor um quadro homogêneo, sem avançar numa narrativa coerentemente organizada – não há rigorosamente um início, meio e fim da história. A narrativa não caminha em linha reta, mas de maneira circular, claramente desprovida de um sentido prévio.

Esta dimensão tortuosa é alimentada por conflitos que simplesmente não podem ser resolvidos. Novamente, a escolha do personagem-narrador é instrutiva. François é professor de francês e, de uma maneira ou de outra, todos os conflitos escolares nascem de um impasse lingüístico. Os professores acusam os alunos de desrespeito e de indisciplina, posturas que se manifestam prioritariamente no âmbito da linguagem: é a maneira desrespeitosa de se dirigir ao professor, é a resistência ao trabalho (o exercício escolar é sempre um exercício da língua, não importa a disciplina), é a troca de ofensas entre os colegas, ou mesmo a pura e simples incompreensão da língua francesa. De outra parte, os alunos não conseguem penetrar no mundo dos códigos adultos, um mundo regido essencialmente pela língua culta, pelo francês oficial. Por isso, resistem e afrontam estes mesmos códigos. Há, portanto, uma cisão entre dois mundos lingüísticos (na realidade, o livro mostra a existência de múltiplos mundos lingüísticos, mesmo a linguagem dos estudantes é muito marcada pela diversidade étnica da escola francesa, cheia de chineses, mulçumanos, africanos, franceses, etc.). Esta cisão cria uma zona opaca ao diálogo, uma zona de incompreensibilidade mútua. A falha da linguagem se substancia na falha da narrativa, na impossibilidade de estabelecer um ponto seguro para estruturar a narrativa escolar.

Nesse sentido, o livro constrói uma interessante reflexão articulando esta questão com o problema da autoridade e da violência escolar. Como se sabe, este ponto é extremamente relevante, senão um dos mais centrais, em torno do debate educacional coetâneo. A violência é uma via de mão-dupla, praticada por todos os agentes escolares. Seja o exercício autoritário dos mecanismos disciplinares, seja a resistência difusa dos alunos, a norma que regulamenta as relações escolares é o gesto violento. Este reverbera de múltiplas maneiras, o livro é repleto de exemplos, dos quais o limite extremo é sempre a exclusão do ambiente escolar (fora da sala de aula, fora da atividade, fora da instituição). O que o livro de Bégaudeau se propõe, muito mais do que uma crítica antiautoritária, é desvelar a naturalidade, para os próprios agentes escolares, desse caminho de organização da instituição. A violência se torna um gesto que vicia e paralisa. E isso ocorre porque ele reside, justamente, naquela cisão das linguagens escolares.

A narrativa do livro consegue direcionar nosso olhar para este ponto graças aos recursos “realistas” adotados pelo autor. O olhar de François tenta registrar da maneira mais objetiva o que acontece na sala de aula, mas o que ele revela de fato é a naturalidade que o gesto violento, não importa qual seja a natureza da sua manifestação, ganhou entre todos aqueles que vivem dentro dos muros escolares. É por isso que o olhar se torna tão importante para compreender o livro. É ele que viabiliza a desnaturalização do que há de mais natural no ambiente escolar: a vinculação entre conflito e violência, ou a profunda falência de uma linguagem comum a todos os participantes do espaço escolar.

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