Entre os muros da escola

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Há toda uma tradição de filmes sobre professores e escolas. Em geral, estes filmes contam a história de um professor que assume uma classe difícil, com alunos insubordinados e bagunceiros. No início, o professor sofre com a rebeldia juvenil, mas aos poucos consegue contornar os problemas e transformar a sala. A ação professoral se realiza nesse ato milagroso: transformar os jovens rebeldes em alunos disciplinados. Estes filmes são animados por uma meta-narrativa otimista, qual seja, do ambiente escolar como um espaço de radical transformação social, basta colocar um professor dedicado que a mágica vai ocorrer. É bonito, mas é uma beleza completamente idealizada, descolada de qualquer experiência escolar efetiva. A força dessa imagem idealizada conseguiu, por muito tempo, nublar os horizontes de qualquer projeto cinematográfico que pretendesse apanhar o ambiente escolar, na sua concretude, como matéria-prima narrativa. Os filmes sobre a escola falavam de tudo, menos da escola. Esse panorama começou a mudar nos últimos anos, em especial no campo documental. Ser e Ter e Pro Dia Nascer Feliz são dois bons exemplos desse esforço, da tentativa de recuperar a fala dos agentes sociais que estão efetivamente envolvidos com o ambiente escolar. Ainda assim, faltava um filme não-documental, uma trama ficcional que buscasse sua matéria nas experiências escolares, que colocasse efetivamente o problema educacional no centro da reflexão cinematográfica. Felizmente, atendendo todas as minhas melhores expectativas, Entre os muros da escola consegue realizar com genialidade essa proposta. O filme do francês Laurent Cantet narra alguns episódios das aulas do professor François Marin durante um ano escolar com seus alunos de sétima série. Baseado no livro de François Bégaudeau, que escreveu a partir de suas próprias experiências como professor, o filme opta pela narrativa mais próxima da rés-do-chão escolar, acompanhando os conflitos, o aprendizado, o diálogo, as discussões, as dificuldades, tudo que se passa em uma sala de aula. O grande lance do filme é seu esforço para atingir estas experiências concretas, simulando a captação de uma realidade documental, é quase como se fosse um documentário. A câmera apenas acompanha os personagens, não tenta se distanciar deles, não se refugia em nenhuma metanarrativa, não tenta explicar o que está acontecendo, simplesmente narra, mostra, cria um espaço de observação. Com isso, o filme provoca uma ruptura radical na tradição de filmes escolares, pois não tenta moralizar a ação docente, o professor não aparece como um mágico que vai operar milagres escolares (ou ainda pior, o professor não surge como um missionário civilizacional que consegue civilizar os bárbaros adolescentes) a sala de aula não é criada como um espaço de sucessos definitivos, não é um filme que tenta expiar os fracassos educacionais com uma saída de mestre. O professor François erra, os alunos erram, todos erram, desvelando o erro como algo estruturante da realidade escolar. E destes erros vai nascendo uma trama que envolve e cativa, as mais de 2 horas de filme transcorrem com muita leveza. Se o erro ocupa um papel central na narrativa, o conflito o acompanha. Ao evitar a facilidade das metanarrativas reconfortantes, Cantet precisou dar um espaço muito grande para a dinâmica de conflitos que são criados dentro dos muros escolares: o enfrentamento do professor com seus alunos, as brigas entre os próprios alunos ou entre os professores, a dificuldade em conciliar a cultura escolar com a cultura dos alunos, os esforços para estabelecer uma disciplinar escolar, etc. Esses conflitos são completamente permeados pela violência, pela dificuldade em estabelecer uma relação democrática na escola, pela utilização de recursos autoritários e excludentes. Esse par erro/conflito traz uma dimensão muito mais realista e concreta ao filme, evitando qualquer saída ligeira e simples para a reflexão escolar. O filme obriga a refletir sobre a necessidade de viver uma experiência escolar efetivamente democrática e inclusiva, mas também mostra como a facticidade dessa experiência é complicada, muito difícil de ser alcançada. Quase ao final do filme, uma das alunas de François lhe pergunta algo parecido com isso: “o que estamos fazendo aqui?”. A força do filme reside justamente na implicação ética desta questão. O que estamos fazendo quando entramos nos muros da escola? Quando desarmamos a lógica auto-explicativa das metanarrativas, tudo o que resta é a concretude da ação, é o comprometimento ético com uma experiência escolar menos violenta e mais democrática. Com isso, a ilusão da mágica professoral acaba sendo desfeita. O que resta é apenas essa dimensão ética, esse comprometimento com o agir, é isso que torna o filme imprescindível.

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2 Comments to “Entre os muros da escola”

  1. Duanne Ribeiro disse:

    Olá,

    Meu nome é Duanne Ribeiro, editor da revista online de literatura e cultura Capitu. Nesse mês de junho, nós tivemos uma matéria sobre Entre os Muros da Escola (criticando o filme/livro e comparando com o cotidiano de uma escola de São Paulo). Na próxima edição, vou linkar o seu post sobre o filme, como uma das reações entre os blogs a respeito do assunto.

    A reportagem é essa: http://www.revistacapitu.com/reportagem_entreosmurosdaescola.html

    Se você quiser comentar sobre a matéria e escrever um post sobre ela, também será colocado o link. Favor informar em olvra.ribeiro@gmail.com

    A intenção é rastrear na net qual foi a discussão a respeito desse assunto.

    att,

    Duanne Ribeiro
    http://www.revistacapitu.com
    http://www.twitter.com/rcapitu

  2. Leandro disse:

    Olá Duanne, agradeço a visita. Vou ler o texto da sua revista com calma e depois vejo se faço algum comentário. De qualquer modo, irei acrescentar o seu link na minha lista de sites.

    Não sei se você reparou, mas eu escrevi um texto tratando exclusiviamente do livro, caso queira dar uma olhada o endereço é: http://ensaiosababelados.blogspot.com/2009/06/entre-os-muros-da-escola-de-francois.html

    Atenciosamente

    Leandro

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