Eu, você e todos nós de Miranda July

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Eu, você e todos nós é um filme muito surpreendente. A diretora do filme, e também roterista e protagonista, é Miranda July, uma artista performática de grande relevo nos meios digitais. Suas obras são bem interessantes, mas nunca tinham despertado muito meu interesse. E no início parecia que ocorreria o mesmo com o filme, apenas uma história bacaninha, cheia daqueles maneirismos típicos do cinema alternativo americano. Pode até parecer um pouco isso, mas o filme consegue escapar dessa linguagem comum e recorrente, criando algumas das cenas mais bonitas e singelas do cinema recente. O protagonista é Richard Swersey, um vendedor de sapatos numa grande loja de conveniências que atravessa um momento bastante difícil. Sua mulher pediu o divórcio e agora ele precisa administrar a solidão e o sentimento de fracasso, mas também cuidar de seus dois filhos (um entrando na adolescência e outro ainda uma pequena criança). É no meio dessa crise que ele conhece Christine, uma artista solitária (interpretada pela própria July) que vem tentando, ainda sem sucesso, deslanchar sua carreira e realizar uma exposição de seu trabalho. O dilema de Richard é como seguir sua vida e escapar da sensação de catástrofe generalizada na qual está enfiado. Porém, ele não é o único que se sente preso numa vida meio fracassada. Há ainda um conjunto de personagens secundários que completam a trama: o pai de Christine que descobriu na velhice o grande amor de sua vida; duas garotas que começam uma espécie de brincadeira erótica com um vizinho meio tarado; outra vizinha e sua pequena filha que sempre freqüentam a loja de Richard; uma importante e solitária curadora da principal galeria de arte da cidade, entre outros. O que parece aproximar todos os personagens é uma espécie de sensação de solidão ou de inadequação diante do mundo. Todos lembram um pouco aquelas figuras, tão recorrentes em muitos filmes, de americanos que perderam o caminho do sucesso, que se afastaram do sucesso típico do american way of life. Porém, ao contrário das expectativas habituais, isso não significa que suas existências estejam repletas apenas de momentos miseráveis, de violências cotidianas ou de angústias existenciais. No universo de Miranda July, inadequação não significa, necessariamente, sofrimento ou mal-estar. Ainda que a solidão sempre se faça presente, há sempre uma possibilidade de abertura ou de superação. Ninguém está condenado a uma existência completamente alienada da presença do outro. E isso porque July acredita na força dos pequenos gestos e de acontecimentos completamente banais e simples. As coisas singelas funcionam como pequenas epifanias, por meio das quais os personagens de July conseguem introduzir, na existência cotidiana, novos espaços de compartilhamento e de encontro com o outro. Existe um sentido bastante poético por trás dessas epifanias, como se todo gesto de convivência exigisse uma forma de criação, de afetividade poética que pudesse anular por um momento, ainda que breve, a ordem normal das coisas. É nesse sentido que o filme constrói uma determinada interpretação sobre a arte. O gesto artístico não aparece mais limitado apenas para aquilo que está exposto na galeria (ou em qualquer outro espaço institucional de arte), mas sim como uma criação de novos modos de vida e de relacionamento. O que se passa com Richard e Christine, mas também com os demais personagens do filme, é uma tentativa de estetização a vida comum, criando uma nova possibilidade de encontro a dois.

 

Para conhecer mais sobre Miranda July: http://mirandajuly.com/

 

E um trecho do filme, a bela cena do peixe:

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2 Comments to “Eu, você e todos nós de Miranda July”

  1. Leandro, eu realmente acho que a July dirige muito bem, mas não consigo deixar de ver nesse filme dela uma certa tentativa de ser bonitinha, poética, como algo forçado. Mas faz um tempo que eu vi o filme, talvez precise rever.

    • Leandro disse:

      Rafael, no começo também estava com essa impressão, mas o filme funciona muito bem e achei que escapou um pouco dessa coisa forçada. Acho que o grande momento do filme é a cena da praça. Só não dá pra descrever muito para não estragar a surpresa de quem não viu.

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