Exit Through the Gift Shop de Banksy

0

Existe um traço comum entre uma obra de arte e um documentário. Ambos funcionam a partir de um mesmo pacto, qual seja, um pacto de verdade entre o espectador e o autor. A obra de arte se diferencia de outras instâncias discursivas porque aquele que a observa acredita no valor daquela obra, um valor que advém da figura do artista, uma espécie de baliza que garante um suplemento de sentido externo à própria obra de arte. O documentário funciona de uma forma semelhante. O que garante a veridição do documentário, o separando dos gêneros fílmicos ficcionais, é justamente a marca do autor, do seu trabalho quase ético de respeito ao verdadeiro, de recusa da adulteração e da subversão do “real”.

Um dos grandes valores de Exit Through the Gift Shop é, numa tacada só, desarticular esse pacto duplo. O filme de Banksy é uma narrativa que tenta reconstituir os passos amalucados de Thierry Guetta, um homem obcecado com câmeras. Sua obsessão era tamanha que não conseguia fazer absolutamente nada sem o registro das lentes de sua filmadora. Por causa dessa mania, ele acabou se envolvendo com o mundo da street art, acompanhando um número imenso de artistas que trabalhavam na subversão do espaço público de grandes metrópoles globais. Todos os principais envolvidos no movimento foram registrados por Guetta, sempre com a justificativa de preparar material para produzir um grande documentário sobre o assunto.

É claro que isso era apenas história, Guetta é apenas um homem dominado pelo desejo de capturar e registrar vidas, um registro sem objetivos ou propósitos. Não houve nunca a vontade real de organizar o material num discurso documental. Porém, o apelo da ideia era muito grande e Guetta o utilizou para encontrar aquele que é o mais recluso e irascível dos artistas de rua, Banksy. A primeira metade do filme, ou um pouco mais, é simplesmente a narrativa dessa busca, de como Guetto ficou obcecado com a figura de Banksy e tenta encontrá-lo a todo custo. O encontro é um marco na carreira de Guetto, ele se envolve profundamente nas atividades de Banksy, apoiando na logística e nas suas aventuras pela noite de Los Angeles.

A aproximação dos dois acontece no momento em que a própria street art passava por uma importante transformação: seu caráter contestatório e subversivo começava a esvaziar e as obras entravam nas galerias e nos leilões do mercado de arte. O que se passa é justamente a conformação daquele pacto de veridição, no qual as pessoas (guiadas pelo sacro-santo julgamento do mercado de artes) começavam a acreditar no valor artístico daquelas manifestações públicas. É por causa dessa transformação que Banksy estimula Guetto a preparar seu documentário. Ele acredita que essa é a única maneira de registrar o que foi realmente o movimento da street art antes daquilo estar completamente cooptado pelo establishment artístico.

O problema, entretanto, é que Guetto não tem a menor ideia de como organizar todo o material (são milhares de fitas) que registrou num discurso lógico e funcional. O resultado do trabalho é uma compilação de imagens completamente absurdas e incompreensíveis. Diante daquilo, Banksy percebe que não existe a menor chance daquele homem conseguir preparar um filme e acaba lhe propondo outra atividade: abandonar as filmagens e partir para uma carreira artística, fazendo pequenas intervenções na cidade e, quem sabe, posteriormente uma exposição simples de seu trabalho. Só que Guetto não é homem de pensar pequeno, ele leva ao pé da letra a recomendação de seu grande amigo e decide se tornar um (grande) artista. A partir daí, começa a segunda metade do documentário.

Da noite pro dia, ele assume um pseudônimo, Mr. Brainwash, e começa a preparar uma gigantesca exposição. Para isso, ele contrata uma equipe (como ele diz, um artista não precisa fazer nada, basta ter ideias e contratar outros para realizá-las), aluga um galpão abandonado e começa a preparar um verdadeiro pastiche artístico. Misturando os mais diversos estilos, tudo aquilo que ele observou durante seu período de filmagem, ele constrói um conjunto gigantesco de obras, tornando-se uma espécie de copista das obras alheias.

O mais incrível é como ele captou a essência do mercado de artes: o primeiro passo para o sucesso é fazer as pessoas acreditarem que ele é um verdadeiro artista. Então, ele começa um processo de divulgação agressiva: pede referência para seus colegas (Banksy, por exemplo, escreve um pequeno comentário, que logo é convertido em slogan), entra em contato com a imprensa, prepara promoções para os visitantes, enfim tudo o que é necessário para criar um evento de alta intensidade midiática.

A operação é muito bem sucedida e Mr. Brainwash se torna um sucesso de público e de vendas. Em pouco mais de 2 meses, ele consegue lucrar cerca de 1 milhão de dólares com a venda de parte das suas obras. O curioso é como as pessoas bem entravam na exposição e já viam lá um artista de renome e talento, um criador nato capaz de entender o mundo contemporâneo. Outros artistas, porém, não conseguiam compreender aquele sucesso todo. É como se ele fosse uma fraude, uma figura burlesca que se aproveita do trabalho alheio. Ou pior, e talvez seja isso que crie tanto incômodo nos outros artistas, ele demonstra como é frágil qualquer tentativa de legitimar uma obra a partir de critérios puramente internos (em outras palavras, critérios estéticos).

Essa é a grande discussão do documentário, o que é um artista? Por que algumas obras valem fortunas e outras não valem nada? Existe um critério estético que demarca e separa uma obra de arte de uma obra não-artística? Todos os acontecimentos que envolvem a figura de Mr. Brainwash giram em torno desses questionamentos. Um homem que nunca fez absolutamente nada, que nunca desenvolveu um estilo próprio ou avançou sua capacidade técnica, que sequer criou algo novo (todo o trabalho foi feito pelos seus empregados), será ele um artista? Bem, o mercado de artes o reconhece enquanto tal, o público o reconhece enquanto tal, ele se reconhece enquanto tal. Exceto para aqueles que se sentiram traídos, Mr. Brainwash ganhou o estatuto de artista e suas obras se converteram em obras de arte.

O filme sinaliza para um fato muito simples, qualquer um pode se tornar um artista, basta convencer o mundo desse fato. Não há uma verdade transcendente (o belo em si mesmo), mas sim um pacto coletivo, uma espécie de crença comum que justifica e dá valor aquilo que é dito ou feito. Esse procedimento, evidentemente, acaba demonstrando a fragilidade da própria noção de artista ou de autoria. Por conseguinte, o filme se torna uma forte crítica ao mercado de artes, na medida em que demonstra claramente o que há de ficcional nos valores que orientam estas transações, basta uma frase de efeito (como Banksy mesmo concedeu ao seu colega) para fazer qualquer coisa virar objeto de valor.

No entanto, não é a crítica ao mercado de arte a coisa mais importante que perpassa o discurso do filme. Na realidade, isso é até secundário. O que é relevante é o sentido prático-político do argumento. Desfeito o pacto de veridição que sustenta a figura do artista, segue-se logicamente um fato inquestionável, qualquer um pode criar aquilo que chamávamos de arte. É toda hierarquia da arte contemporânea (e da arte em si) que ameaça ruir, afinal não há mais nenhum valor ou nenhuma garantia exterior que legitime uma distinção estética.

Banksy, portanto, cria um filme fortemente político, na medida em que ele remove da criação qualquer tipo de valor universal (o verdadeiramente belo, a essência do poético, etc.) e a coloca como um atributo comum à multidão. É apenas a multidão que pode criar ou se apropriar do já criado. O artístico se converte numa propriedade comum, que pode ser reapropriado, modificado, copiado, distribuído ou questionado. O que vai junto nessa dissolução do artístico é também a noção de autoria, quem é o dono de uma obra de Mr. Brainwash? Ninguém. Ainda que alguns prefiram a mistificação do mercado artístico, a peça pode ser comprada e guardada, mas não pode ser removida do uso comum da multidão.

Para encerrar, existe uma forte discussão sobre a autenticidade desse documentário. Muitos dizem que, na realidade, tudo não passa de uma grande piada de Bansky e talvez nem exista mesmo um Mr. Brainwash. O próprio Banksy insiste com firmeza na autenticidade de seu trabalho. Suas declarações, porém, parecem repletas de uma ironia, de uma vontade de sustentar a dúvida. Ao fim e ao cabo, o espectador está desarmado diante do filme. Não existe maneira de assegurar a legitimidade do discurso, a verdade encontra-se em estado de suspeição. Esse procedimento também tem um sentido político bem interessante, é como fossemos obrigados a desnaturar essa força que atribuímos ao real, como se só este suplemento exterior de verdade (criado por outra manifestação do efeito autor, desta vez o documentarista) desse sentido e legitimidade ao filme. O documentário de Banksy está numa zona opaca, na qual a verdade e a ficção se tornam indiscernível, como que alertando que todo jogo de veridição sempre funciona a partir de um pacto frágil, de pouca sustentabilidade, e que pode muito bem ser abandonado a qualquer momento.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.