Festa de Separação

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Fiquei muito impressionado com a peça Festa de Separação, concebida pela atriz Janaina Leite (do grupo XIX) e pelo músico e filósofo Felipe Teixeira Pinto. A proposta do espetáculo é por si só muito inovadora, pois se trata de um experimento, da realização de um documentário cênico. A experiência consiste na apropriação de uma estrutural documental ao espaço teatral, problematizando um pouco os limites entre realidade e ficção. O tema deste documentário é o processo de separação do casal de idealizadores da peça. Para celebrar esta separação, o casal realizou uma série de festas, as festas de separações, as quais foram registradas de mil maneiras diferentes. Dessa maneira, o experimento é uma reconstrução dos registros e fragmentos deste relacionamento, bem como do processo de separação, um amalgama de memórias e reminiscências de uma experiência amorosa. Na medida em que a peça vai deslocando o espaço tradicional do discurso sobre o verdadeiro e sobre o ficcional, ela também vai construindo uma reflexão muito rica sobre a construção de nossa subjetividade. É isso que quero explorar aqui.

Se há uma noção que tomamos como certa e garantida, a mais real e verdadeira, é a nossa própria individualidade. Sempre assumimos para nós mesmos que somos sujeitos mais ou menos estáveis, coerentes, concretos. Podemos mudar, mas há sempre um pilar, uma essência, que garante a nossa identidade. Pode-se dizer que esta noção é nossa verdade mais íntima e segura.

Assumindo, assim, que somos seres fixos, podemos construir uma narrativa de nossas vidas, uma narrativa de um tipo muito particular, ancorada num lastro de verdade sui generis. Por conta disso, acreditamos na possibilidade de construir um registro documental dessa nossa subjetividade, destacando os principais fatos, experiências, relacionamentos, acontecimentos de nossas vidas. Podemos agrupar as memórias e lembranças como um todo coerente e orgânico, que explica e dota de sentido tudo que vivenciamos.

O caráter particular dessa história de vida, quando comparada, por exemplo, com um personagem de uma narrativa dramática, é que o valor de verdade daquela é dotado de uma consistência inexistente nesta. A narrativa de nossas vidas é um registro verdadeiro, enquanto a de um personagem de uma peça é um registro ficcional. Não há possibilidade de confusão, há uma verdadeira fissura na natureza destes relatos.

A proposta de um documentário cênico opera uma espécie de costura nessa fissura. Janaína e Felipe, os personagens da peça, contam aos espectadores um pouco de suas narrativas de vida. Contam uma porção de coisas sobre a vida a dois, sobre o processo de separação, lembram de coisas em comum, recuperam músicas, filmes, textos, de momentos e ocasiões importantes. É uma narrativa teatral, operando a partir de um registro ficcional, mas é também uma narrativa que recupera aquela consistência própria do real, pois fala da experiência “concreta” de Janaína e Felipe, os artistas. A narrativa teatral, dessa maneira, é transformada numa narrativa documental. E a narrativa documental é convertida numa narrativa teatral.

Esta transformação, porém, não se realiza sem nenhum tipo de abalo. Na verdade, é difícil distinguir bem onde começa a narrativa do verdadeiro e onde começa a ficção do personagem teatral. A experiência teatral, em geral, é dotada de uma segurança, pois sabemos bem que aquilo tudo não passa de uma invenção, uma encenação. Há uma separação clara entre o sujeito (ator) que encena e o personagem encenado. Esta segurança não existe da mesma maneira neste experimento, pois aquela separação inexiste.

Com isso, vai se desvelando o processo de construção dessa narrativa. O material bruto da vida real é transmutado num texto dramático, a personalidade é vertida no personagem. A escolha de imagens, de registros, de lembranças, de músicas, de textos, é toda ordenada de uma maneira criativa, inventiva, é ficcionalizada. O que se revela no palco é o processo de construção de duas subjetividades, de Janaina e de Felipe. Construção, no caso, é a palavra perfeita. A subjetividade que vai brotando não é uma essência prévia, que podia ser conhecida através de uma narrativa, mas é a narrativa mesma que vai construindo esta subjetividade.

O lastro de verdade que ordena a história de vida é desfeito nessa indistinção entre o real e o ficcional. Assim, ao invés de buscarmos uma essência fixa de nossa subjetividade, parte-se da invenção de subjetividades cambiantes, instáveis e desprovidas de consistência. O problema é que essa invenção não é feita no vazio, já que há uma espécie de gramática que ordena os limites destas narrativas. É nesse ponto que a peça permite um segundo movimento reflexivo.

O tema central da narrativa de Janaina e Felipe é a experiência amorosa. Eles tratam não apenas da experiência que vivenciaram, mas da maneira como essa vivência corre um risco constante de apropriação, de homogeneização, de captura. Há uma contraposição entre a experiência e a inflação de um discurso que a anula.

Um momento chave da peça é quando Janaina lê a definição vernacular da palavra experiência. Vou recorrer ao Houaiss: ato ou efeito de experimentar(-se); do latim experientìa,ae ‘prova, ensaio, tentativa’; ver perig-. O antepositivo perig-, que originou o termo latino, tem muitos sentidos, entre eles o de ‘fazer uma tentativa; arriscar, pôr em risco, pôr em perigo’. Dessa maneira, fica claro que há um parentesco muito intimo entre o ato de experimentar e o de arriscar-se, de vivenciar o risco desta experiência.

A recusa desse risco ameaça a própria possibilidade de vivenciar qualquer experiência amorosa. A anulação do risco funciona a partir do enquadramento do instável em modelos fixos, em fórmulas vazias e empobrecidas. É a inflação de um discurso sobre o amor, uma necessidade constante de falar sobre o amor, de falar do amor, de viver uma forma única de amor. É o modelo platônico de amor, das metades divididas, em falta, que precisam encontrar sua metade, sua parte faltante. Este discurso onipresente cria uma verdade sobre um amor, um campo a partir do qual podemos dimensionar o certo e o errado e modelar nossas ações e afetos.

A figura por excelência desse discurso amoroso é a obsessão com o princípio, o início idealizado de todo relacionamento. Este início ideal é o ponto de equilíbrio de toda a narrativa que construímos em torno do amor. Não faltam imagens que alimentam esse modelo. A constante rememoração da idílica origem é uma maneira excelente de anular o risco da experimentação, da constante reinvenção de uma narrativa amorosa.

É contra o risco desta anulação que surge a festa de separação de Felipe e Janaina. A festa é o campo privilegiado do singular, daquilo que escapa da ordem, o campo da experiência mesma. A festa é aquela experiência que pode reintroduzir na narrativa o sentido do arriscar-se, criando uma abertura que permite a construção de novas narrativas, de novas subjetividades. Esta festa, despida de qualquer tristeza, celebra aquilo tudo que foi experimentado, aquilo tudo que ainda pode ser experimentado. Não deixa de ser, assim, uma celebração do amor.

Dessa maneira, a peça retorna ao seu problema inicial, qual seja, o da construção das subjetividades contemporâneas. O par antagônico, experiência e discurso, está no centro desse problema. Se nossas narrativas são estruturadas em torno de uma multiplicidade de registros e lembranças, de pontos de instabilidades, de inseguranças e riscos, há sempre um desejo de estabilidade, de centrar a narrativa, de encontrar um lastro de segurança. Porém, este centro cobra um preço, a anulação da singularidade destas narrativas, que agora são convertidas em meras “subjetividades de manadas”.

A peça, ao revelar uma narrativa particular, da separação de Janaina e Felipe, provoca no espectador um estranhamento crítico, um momento de reflexão sobre o quanto nossas subjetividades são absolutamente anuladas, a partir de um discurso amoroso cada vez mais vazio e solitário. O espetáculo é, assim, uma espécie de exercício de reinvenção, de escritura de novas narrativas, de novas subjetividades. Talvez seja esse o sentido mais profundo de um documentário: nada de um registro de uma verdade, mas o de um espaço de experimentação e reintrodução do singular, de narração de histórias singulares.

 

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2 Comments to “Festa de Separação”

  1. janaina disse:

    Oi, Leandro! Fiquei muito feliz de ler seu texto, já que ele discute exatamente o que nos interessa nessa história toda e o que nos motivou a levar adiante esse projeto. Tomamos a liberdade de postá-lo no nosso blog. Se vc tiver alguma objeção, é só dizer. Parabéns pelo texto. Um abraço. Janaina

  2. Leandro disse:

    Oi Janaina, fico muito feliz que vocês gostaram do texto. Pode utilizar livremente o texto, é sempre bom divulgar o que escrevemos. Aproveito para elogiar mais uma vez o trabalho de vocês, a proposta do projeto é muito bacana, gostei muito. Boa sorte com o resto da temporada. Um abraço.

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