Fragmentos de um Discurso Amoroso II

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“Poderíamos, recusando a avaliação, imaginar uma visão trágica do sofrimento de amor, uma afirmação trágica do sofrimento de amor, uma afirmação trágica do eu-te-amo? E se o amor (amante) fosse colocado (recolocado) sob o signo do Ativo?

Donde nova visão do eu-te-amo. Não é um sintoma, é uma ação. Pronuncio para que você responda, e a forma escrupulosa (a letra) da resposta revestirá um valor efetivo, ao modo de uma fórmula. Não é pois suficiente que o outro me responda com um simples significado, mesmo que positivo (“eu também”): é preciso que o sujeito interpelado assuma formular, proferir o eu-te-amo que lhe estou estendendo. Esta exigência imperiosa (…) parte da necessidade, para o sujeito amoroso, não apenas de ser igualmente amado, de sabê-lo, e de ter absoluta certeza disso, etc. (…), mas também de ouvi-lo dizer, de uma forma tão afirmativa, tão completa, tão articulada quanto a sua própria; o que eu quero é receber de cara, inteiramente, literalmente, sem rodeios, a fórmula, o arquétipo da palavra de amor: sem delongas sintáticas, sem variação: que as duas palavras se respondam em bloco, coincidindo significante por significante (…). O que eu quero, desesperadamente, é obter a palavra. Mágico, mítico?

Aquele que não disser eu-te-amo (entre cujos lábios eu-te-amo não quiser passar) ficará condenado a emitir os sinais múltiplos, incertos, duvidosos, avaros do amor, seus índices, suas ‘provas’: gestos, olhares, suspiros, alusões, elipses: deve deixar-se interpretar; é dominado pela instância reativa dos sinais do amor, alienado no mundo servil da linguagem na medida em que não diz tudo (o escravo é aquele que tem a língua cortada, que não pode falar senão por trejeitos, expressões, caras).

Como proferição, eu-te-amo está do lado do dispêndio. Os que querem a proferição da palavra (líricos, mentirosos, errantes) são sujeitos do Dispêndio: dispendem a palavra, como se fosse impertinente (vil) que esta fosse recuperada em algum lugar; estão no limite extremo da linguagem, ali onde a própria linguagem reconhece que não tem nenhuma garantia, que trabalha sem rede.”

Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso, p. 180-184
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