Gênio Indomável de Gus Van Sant

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Gênio Indomável, do diretor americano Gus Van Sant, é essencialmente um filme que fala sobre a dificuldade de adaptação de um jovem que não se enquadra num determinado padrão de normalidade. O protagonista, Will Hunting é um jovem com incríveis talentos acadêmicos, mas que apresenta imensas dificuldades para se relacionar com o mundo que o cerca. Suas habilidades funcionam como um instrumento para afastá-lo de quase todo compromisso social mais prolongado.

Sua filmografia, em grande medida, esta centrada nesse problema da inadequação, especialmente do ponto de vista da juventude. Isso assume os mais diversos tons, como por exemplo, em Inquietos, no qual o protagonista vive atormentado pela morte e pela perda, fato que o isola de tudo ou todos. Ou ainda em Elefante, filme que trata de um massacre realizado por dois estudantes numa escola secundarista americana. No interior dessa experiência de inadequação, ressoa uma questão crucial, como o jovem pode encontrar um lugar no mundo? Transitando entre os mais diversos pólos, da catástrofe até um reencontro consigo próprio, os jovens de Gus Van Sant sentem todo o peso que a pressão pela adaptação e pela normalidade lhes impõe.

Nesse sentido, Will Hunting não é muito diferente. Inicialmente sabemos pouco sobre o rapaz. Parece um jovem sem muita formação e sem grandes expectativas profissionais. Por isso, trabalha como faxineiro numa das mais prestigiadas universidades americanas. Sabemos também que ele possui um grupo de amigos, da mesma faixa etária e com as mesmas perspectivas limitadas de ascensão acadêmica ou profissional. A diversão do grupo é passar as noites em bares, bebendo e arrumando encrencas ocasionais. O protagonista, em especial, é especialista em brigas e problemas judiciais por conta de seu temperamento explosivo.

Essa primeira imagem, porém, se torna mais complexa com o andamento da trama. Rapidamente, descobrimos que Will possui alguns talentos impressionantes. O que mais lhe destaca é sua capacidade para resolução de problemas matemáticos. Ele consegue resolver com naturalidade os mais complexos teoremas e demonstrações matemáticas. Coisas que tomaram anos de trabalho árduo para outros pesquisadores são resolvidas de maneira intuitiva e direta por Will.

Seus talentos, entretanto, não são limitados aos conhecimentos matemáticos. Na verdade, o mais correto seria dizer que o personagem consegue transitar facilmente entre as mais diversas áreas do conhecimento acadêmico, indo da matemática para a história e depois para a química orgânica. Tudo sempre com a mesma facilidade e naturalidade. E o mais significativo, toda sua relação com o conhecimento nasce de uma experiência autodidata. Não há nenhum aprendizado institucionalizado. O mundo universitário não interessa ao protagonista.

Esse desenvolvimento extraordinário das capacidades intelectuais de Will é contraposto pela sua dificuldade de interação social. Além do seu círculo restrito de amigos, o rapaz não consegue estabelecer nenhum tipo de vínculo social mais prolongado, como empregos ou relações amorosas mais sérias. Sua existência é flutuante, como se estivesse sempre se esforçando ao máximo para recusar qualquer tipo de compromisso ou engajamento.

Desse modo, estamos diante de um indivíduo com imensas potencialidades, capaz de resolver e lidar com os mais impressionantes dos problemas acadêmicos. Essa potencialidade, porém, são tão intensas quanto dispersas. Nada parece motivá-lo o bastante. É como se Will recusasse intencionalmente a obrigação de exercer seu talento, de se comprometer com algo. Ele não deseja ser um gênio. Mais do que isso. Ele parece não desejar ser nada além de um encrenqueiro que poderia passar sua vida sem realizar qualquer coisa.

Essa situação, todavia, se modifica quando seu incrível potencial é descoberto por um dos principais professores, Gerald Lambeau, da universidade em que Will trabalha. Deslumbrado com a genialidade do rapaz, Lambeau deseja transformá-lo num grande cientista e pesquisador. O motor dramático do filme gira em torno dessa tentativa do professor universitário em disciplinar a potência ilimitada do jovem gênio. O problema é que ele sozinho não consegue realizar tal proeza e precisa da ajuda de outro personagem, o excêntrico psicólogo Sean Maguire.

A relação estabelecida entre o psicólogo e o jovem é bastante peculiar. É distinta de uma simples relação terapêutica. Ainda que inicialmente a proposta fora essa, aos poucos a coisa se transfigura profundamente, tornando-se muito mais uma espécie de relação iniciática. O mais velho se apresenta como aquele indivíduo que tenta orientar e conduzir o mais novo nos caminhos do mundo, como um guia na formação e no encontro consigo mesmo do jovem e desorientado gênio. Isso, porém, não significa que Maguire se apresenta como um detentor de verdades, mas sim que ele ajuda o rapaz a problematizar suas próprias ações e a lidar de forma menos destrutiva com suas habilidades.

Como mencionado anteriormente, o universo fílmico de Gus Van Sant é fortemente marcado por esta preocupação, qual seja, a do jovem que tenta encontrar seu caminho no mundo. Esse problema pode se encerrar numa dimensão bastante destrutiva, como é o caso do filme Elefante, mas pode também se constituir como uma experiência de formação. É este o caso de Gênio Indomável. O descaminho na vida de Will é duplo. De um lado, ele se encontra perdido diante da infinidade de potencialidades que suas altas habilidades lhe proporcionam. Do outro, ele encontra uma imensa dificuldade em se relacionar com o outro e assumir os riscos inerentes a qualquer relacionamento. Sua condição flutuante é uma resposta a esse duplo descaminho, ele se recusa a ser qualquer coisa para evitar o risco desse engajamento.

O relacionamento com o psicólogo vai ser mediado em torno desse problema. A questão é encontrar um meio de conciliar as altas habilidades com um projeto de vida e, principalmente, a relação com o outro. Nesse sentido, esse ponto é bem expresso na relação de Will com Skylar, uma moça por quem ele se apaixona. Suas práticas destrutivas, de recusa de qualquer compromisso amoroso, impedem inicialmente o desenvolvimento desse relacionamento. Como de costume, o rapaz prefere não se envolver a arriscar constituir algo nesse encontro.

É por essa razão que o aprendizado, conduzido na troca de experiências com Maguire, se constitui em torno da aceitação de um projeto de vida. Will é confrontado com a necessidade de escolher algo. Há uma metáfora bastante interessante a partir dessa premissa. Suas grandes habilidades lhe permitem qualquer escolha, como uma potencialidade irrestrita, não normatizada ou disciplinada. E ele sente o peso dessa liberdade. A consciência da sua própria genialidade torna qualquer escolha muito dolorosa. Por isso, na multiplicidade de caminhos, ele parece não seguir caminho algum. E a pressão para se tornar um gênio, imposta pelo professor Lambeau, apenas intensifica esse processo doloroso.

O papel do psicólogo, ao contrário, é tentar demonstrar que a escolha implica numa responsabilidade. Porém, o peso dessa escolha não é negativo, mas é aquilo que possibilita uma afirmação sobre o mundo e a constituição de um modo de vida. A forma de escapar do sentimento de inadequação, de estranhamento e de recusa com qualquer tipo de compromisso, passa por uma espécie de encontro consigo próprio. Diante da multiplicidade irrestrita de escolhas, Will começa a tomar decisões.

Curiosamente, a parte final do filme aparece como uma recusa do mundo institucionalizado do saber e da pesquisa acadêmica. Apesar das insistências do professor, o jovem gênio parece saber que seu lugar no mundo não está diretamente relacionado com a pesquisa científica. Diante da possibilidade de seguir uma carreira gloriosa e muito lucrativa, trabalhando numa grande empresa que precisa da consultoria de um matemático habilidoso, Will prefere seguir aquilo que parece ser a verdade de si próprio. O reencontro com a moça por quem está apaixonado.

Esta opção é curiosa, mas bastante coerente com o andamento da trama e mesmo com o universo mais amplo do cineasta. A natureza mesma da relação de aprendizado já fora marcada por essa opção. Entre Will e seu psicólogo, abre-se uma cisão entre a natureza institucionalizada da relação terapêutica e a aproximação entre o mais sábio e o mais jovem. Essa cisão tende cada vez mais para a segunda relação, na qual Maguire se torna muito mais o mestre que orienta e guia Will na direção do autoconhecimento, do que o psicólogo que aplica um conhecimento científico para auxiliar na superação das suas dificuldades emocionais.

A recusa final em seguir a carreira acadêmica é também da mesma natureza. É como se a genialidade de Will lhe revelasse o que existe de inautêntico naquele caminho. Ele não deseja se tornar um gênio, mas apenas seguir fiel a si próprio. Esse elogio da autenticidade do sujeito é o cerne da proposta ética elaborada no filme. Pode-se dizer que Gênio Indomável é basicamente um filme que defende a importância desse gesto, dessa aceitação de seguir aquilo que emerge da interioridade de si próprio. E o aprendizado nada mais é do que encontrar um meio para ser fiel a este projeto.

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