Um documentário que trata da atuação de dois dos mais conhecidos diretores da Nouvelle Vague sempre corre o risco de acabar como uma obra didática, que nada mais faz do que ilustrar e narrar um pouco das suas biografias e da história do movimento. Quase como um livro de história em imagens. O filme de Laurent trata dessa história, mas não faz apenas isso. Os melhores momentos de seu documentário, e são inúmeros, são aqueles que escapam da mera reconstituição factual, traçando uma singela reflexão sobre a amizade. O que está no centro da narrativa é o papel da amizade na constituição de uma experiência estética inovadora e intensa, isso a partir da forte relação estabelecida entre Jean-Luc Godard e François Truffaut. Como nos explica o filme, este sentimento – apesar das origens, formações e temperamentos distintos – nasceu de uma paixão recíproca: o cinema. E mais do que apenas uní-los, é na tessitura desta amizade que se fortaleceu todo o esforço de renovação e criação artística que marcou as obras dos dois. Por isso, a força da Nouvelle Vague, pelo menos como retratada na obra de Laurent, é a força desse vínculo, das potencialidades que surgiram do trabalho coletivo e próximo que ambos mantiveram no início de suas carreiras. Sendo assim, não seria exagero dizer que Laurent coloca esta relação como disparadora de uma energia estética excepcional. Ela não é pensada apenas como uma relação privada, entre dois sujeitos que guardam afinidades e por isso estabelecem uma relação de afeição recíproca, mas como a maneira privilegiada de constituição de uma poética (no sentido de criação e fabricação), uma potência que transita para além das individualidades (como diz Agamben, a amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si). É por isso que não existe melhor palavra para explicar essa relação do que uma autêntica cinefilia. Ao contrário do uso comum, qual seja, de entusiasmo ou paixão pelo cinema, o esforço colaborativo dos dois recupera o sentido etimológico do termo: amizade (philía) pelo/no cinema. Godard e Truffaut foram grandes cinéfilos, não apenas porque amavam os filmes como poucos, e sim porque souberam viver o cinema como um espaço de experimentação de uma amizade, de um esforço de estar junto, de criar junto. Porém, como é de conhecimento geral, no final esta amizade acabou se dissolvendo, de maneira violenta e irremediável. Como nos relata Laurent, é o afastamento político dos dois, e consequentemente estético, que prepara a grande ruptura, ocorrida após a exibição de A Noite Americana de Truffaut. Este movimento é acompanhado também pela dissolução da Nouvelle Vague enquanto um movimento coletivo de produção cinematográfica. É como se toda potência da amizade repousasse sobre uma tênue sustentação, quase numa impossibilidade de permanência e duração. O que não deixa de ser uma bela imagem, da amizade como o manifestar de pequenos e potentes lampejos poéticos. A beleza do filme de Emmanuel Laurent está, acima de tudo, nessa preocupação de não contar somente um pouco da história Nouvelle Vague, mas nesse elogio da amizade, através das aproximações e afastamentos de duas das mais singulares personalidades do cinema francês.

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3 Comments to “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague de Emmanuel Laurent”

  1. Daniela Gomes disse:

    Leandro,
    estou ansiosa para ver o filme, justamente pelas características citadas por você nesta postagem. Mas, além destas, li que Laurente expõe esta relação de amizade de forma parcial, em favor de Truffaut; depreciando ainda mais o caráter explosivo do Godard. Você também percebeu isto?

  2. Leandro disse:

    Bem, isso até acontece, mas muito sutilmente. Na realidade, grande parte do filme retrata o início da amizade e da Nouvelle Vague. É apenas uma pequena parte final que aborda o rompimento. Mas não vejo uma atitude deliberada de retratar Godard de forma negativa. Bem, quando você conseguir assistir, me diga o que achou dessa questão. Um abraço e volte sempre.

  3. Rubia disse:

    Quero muito ver esse filme.
    Adoro Godard e "descobri" Truffaut há pouco… ainda me faltam seus últimos filmes.

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