Gomorra

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Em determinado momento do novo filme de Matteo Garrone, um personagem avisa a outro que ele “siete più morto che vivo”, é mais morto que vivo. É nesse estado aterrador que vivem as figuras que surgem envolvidas pelas malhas da máfia italiana de Camorra situada na região de Nápoles. O filme é composto por narrativas fragmentadas de algumas pessoas que vivem e têm suas vidas envolvidas pelas ações da máfia, como um garoto que começa a prestar pequenos serviços ao tráfico, ou o estilista que coordena o trabalho numa oficina também ligada a organização. Essas narrativas, repletas de elipses, vão construindo um painel das ações criminosas da máfia italiana, mas também, e isso que é o mais relevante, dos efeitos dessas ações nas vidas das pessoas envolvidas. O centro das narrativas é uma espécie de condomínio popular, ao final do filme nos é informado que tal posto é a maior zona de tráfico de drogas a céu aberto no mundo, onde a violência é totalmente desmesurada. Nesse ambiente a vida é algo descartável e sem valor nenhum. É uma de zona de conflito que empurra a existência dos personagens para o limiar entre a vida e a morte. O interessante é como isso tudo se mostra plenamente articulado com o capitalismo globalizado e midiático, como na cena em que uma atriz famosa aparece vestindo um daqueles trajes feitos nas oficinas da Camorra; ou quando as grandes indústrias italianas usam a instituição para se desfazer de seu lixo tóxico. São essas vidas, portanto, que não valem nada, mais mortas do que vivas, que alimentam as tramas mais globais da sociedade desenvolvida. Essa conexão faz muito sentido quando pensamos naquilo que Giorgio Agamben fala: como o modelo do campo de concentração ocupou o espaço de paradigma da política ocidental. É no campo que os indivíduos “foram despojados de todo estatuto político e reduzidos integralmente a vida nua”, ou seja, vida plenamente destituída de garantias e seguranças, vidas que podem ser retiradas sem qualquer custo. O campo é a materialização de um “estado de exceção” constante e perene, como uma guerra que vai englobando a tudo e a todos. E são justamente esses indivíduos que estão situados nessa zona de exceção que alimentam aquilo que a ela é externo. Nas dependências da máfia, os indivíduos vivem como nesses campos, despojados de tudo, a mercê da violência que os circundam. E o sacrifício destas “vidas que não merecem ser vividas” que torna possível a existência das vidas que ainda possuem alguma dignidade. A opção narrativa do filme me parece perfeita para retratar essa condição de vidas indignas. Os pequenos fragmentos de história que surgem dos personagens não formam nunca um todo ordenado, não formam verdadeiras narrativas de vida. São apenas fragmentos, passagens… quase narrativas para quase vidas.

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One Comment to “Gomorra”

  1. alayoussef disse:

    Leandro,
    Adorei esse seu comentário. Fiquei com vontade de ver o filme e de ler o Agambem. Pena que agora tá difícil. :(
    Enquanto isso, vejo seu blog! hehehe
    Abraços,
    Alain

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