Não é rara a utilização do cinema como ferramenta de crítica política ou social, especialmente em tempos de grande politização. Essa postura sempre resvala perigosamente na redução da obra numa exposição didática ou pedagógica de certas teses, visões, ou projetos, o que resulta num trabalho aberto a leituras limitadas e muito datadas pelo tempo de produção. Esse é o grande limite do engajamento colocado em primeiro plano, a datação da obra, que resta apenas com um documento histórico, ou seja, que não serve pra nada além de material para produção de teses e dissertações dos historiadores. Guerra Conjugal, em grande medida, é um filme engajado – produzido num contexto de radicalização e forte posicionamento político – que constrói uma leitura bastante crítica da situação do país sob o regime militar e autoritário. Como nos explica o crítico José Carlos Avellar, nos extras do DVD, o filme parte de uma escolha consciente, a partir de uma adaptação de contos de Dalton Trevisan: é um caminho para investigar as raízes cotidianas da violência autoritária que sustentam o regime militar brasileiro. Entretanto, o filme possui uma vitalidade muito maior do que a mera e simples exposição de uma tese sociológica a respeito da história brasileira. Na realidade, é uma obra que ainda guarda uma grande atualidade e interesse para o expectador contemporâneo. A trama está organizada a partir de três situações distintas: um casal idoso que se tortura cotidianamente; um ilustre advogado que seduz suas clientes no bom estilo do Don Juan; e um jovem e malandro galanteador que parece não encontrar satisfação com as jovens moças que corteja. O que conecta as três histórias é uma experiência amorosa comum. Ou melhor, é o caráter fracassado dessa experiência que organiza a narrativa do filme. O casal de idosos revela muito bem esse aspecto. A existência dos dois é totalmente esvaziada de qualquer desejo afirmativo: é uma relação desprovida de sexualidade, de afeição, de dignidade. No lugar disso, há apenas xingamentos, humilhações, agressões, enfim uma existência mesquinha e sádica sustentada apenas por um nojo recíproco. Se o que é próprio da experiência, escrevi sobre isso quando tratei da bela peça Festa de Separação, é o caráter de risco, a imprevisibilidade, a possibilidade sempre presente de um deslocamento, o que configura o relacionamento do casal é justamente a negação da idéia de experiência: não há nenhuma possibilidade de movimento, apenas o constante reafirmar das violências cotidianas, que ocupam o centro da vida dos dois. Nem mesmo uma violência maior, o assassinato do outro que tanto inferniza, o que abriria um espaço de deslocamento, é possível para eles. Eles vivem plenamente mergulhados nessa existência, e não há força para de lá retirá-los. Essa transformação da experiência amorosa na sua negação, o desejo esvaziado de sua positividade, também se repete nos demais personagens do filme. O advogado, interpretado por Lima Duarte, insiste na sua situação de “homem bem casado, pai de três filhos”, mas não encontra limites para uma obsessão: seduzir todas as mulheres que lhe rodeiam. No entanto, esses encontros vão se revelando apenas como situações fugidias, descartáveis, que precisam ser constantemente recicladas. Bem ao espírito de Don Juan, o advogado se mostra incapaz de ser afetado por estes relacionamentos, o que ele deseja não é experimentar junto com aquelas mulheres, mas apenas exercer uma ação quase violenta de consumo irrestrito. De maneira análoga ao velho casal, o advogado se encerra num círculo de repetições, vazio de significado e de desejo. Finalmente, o jovem garanhão é outro que não consegue experimentar a potência afetiva do ato amoroso. As jovens mulheres não lhe bastam, não lhe despertam o interesse, é apenas ao lado dos corpos destituídos de vitalidade que ele encontra algum desejo. Em todos os casos, há uma intima associação entre a falência de um desejo que afete o mundo – que possibilite a constituição de uma experiência amorosa entre os amantes – e a afirmação da violência nos relacionamentos dos personagens. Há sempre uma aproximação entre desejo e violência, afinal é isso que constitui o binômio de todo ato de poder, que perpassa todo tipo de relação social, porém quando se nega absolutamente a dimensão afirmativa do desejo, que passa pelo experimentar e arriscar junto, resta apenas um espaço de negatividade, de dominação e subjugação. É nisso que aparece a atualidade do filme, pois mais do que representar uma leitura sociológica do Brasil, há também a possibilidade de uma leitura muito diversa, que permite uma reflexão sobre a constituição mesma de nossas narrativas amorosas, as quais sempre resvalam no risco constante de imobilismo, de anulação de todo espaço de deslocamento, se convertendo em algo homogêneo e vazio, sustentado apenas pelo que há de violento no poder.

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