História, verdade e a miséria acadêmica

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Pensava em escrever sobre o tema há algum tempo, porém nunca encontrei uma motivação que animasse esta idéia. Na última semana, aconteceu um evento que trouxe essa animação. Estas idéias estão apenas levemente esboçadas aqui, nada mais do que um ensaio prematuro. Mas, sintetizam muito bem as minhas inquietações em relação ao ofício do historiador, que não deixa de ser o meu próprio ofício. Houve um tempo no qual os historiadores acreditaram poder restituir a verdade positiva dos fatos históricos, por meio da mais rigorosa submissão do pesquisador ao documento: o historiador deveria apenas permitir que o documento relatasse, quase por si só, o que verdadeiramente ocorreu. Para tanto, foi desenvolvido um método rigoroso. Método aqui deve ser entendido puramente como o conjunto de técnicas que garantiriam a seleção mais fidedigna da documento, permitindo a exclusão de todos os registros falsos e duvidosos. Tudo que restava, quando trabalhado pelo pesquisador com imparcialidade e rigor, possibilitaria o acesso ao passado distante. O historiador era apenas um mediador entre seu tempo e o tempo que se fora. Essa visão foi duramente contestada pela história acadêmica do século XX. Esta visão historiográfica, denominada de positivista ou metódica, foi denunciada por sua perspectiva inocente e idealista. A crença na recuperação do passado tal como ele foi tornou-se extremamente questionável. No lugar dessa história que deixava os documentos falarem, surgiu a história problema. A posição exterior do pesquisador, como uma entidade que deveria apenas empregar o método científico, evitando seu próprio posicionamento, foi substituída. Assumia-se, então, que o historiador era responsável pela organização do seu discurso, ele partia de um problema determinado, que nascia do seu próprio tempo, e avançava em direção ao indômito arquivo em busca de um conjunto de materiais que pudessem atender ao seu objetivo. A seleção das fontes não se limitava apenas em separar o falso do verdadeiro, pois até mesmo o falso poderia ter sua utilidade. Ainda assim, continuou existindo uma espécie de princípio ético no trabalho do historiador: era seu compromisso com a verdade. O documento continuava sendo uma espécie de lastro, que assegurava certa autoridade ao discurso do historiador. Ele não inventava nada, apenas problematizava seu material. Este lastro é especialmente claro na história quantitativa, que fez tanto sucesso a partir da década de 1950. O historiador não falseava sua série de dados, ele a construía, analisava e a interpretava. Muita coisa mudou no reino da Clio, mas seus seguidores sempre abraçaram entusiasticamente a celebração do seu principal ídolo: o documento. Hoje em dia, a pesquisa histórica acadêmica hegemônica (não há muito mais espaço para o historiador diletante, o erudito que gasta seu tempo no estudo do passado) abraça com um vigor incrível a fé neste ídolo. Uma pesquisa que se preze nunca descuida do seu levantamento documental. Mais do que isso. Escolher um corpo documental torna-se o principal esforço de qualquer jovem historiador. Até mesmo o problema deixa de ser importante, desde que haja documentos. Afinal, ao longo da pesquisa o historiador vai ser capaz de identificar novos problemas a partir de seu trabalho. A fonte é o ponto de partida e o ponto de chegada numa curiosa lógica tautológica. A verdade, ainda que seja sempre relativizada, parcial e precário, sujeita a contínuas revisões, ainda está atrelada ao lastro documental. Esta situação provoca uma série de conseqüências práticas. Em primeiro lugar, ela permite a institucionalização de um modelo de pesquisa. Isto porque a pesquisa, quando se enquadra em uma série de técnicas precisas, pode ser repetida por qualquer um, basta o domínio adequado destas técnicas, coisa que não exige muita perspicácia. Em segundo lugar, permite a criação de trabalhos-modelos, os quais são repetidos inúmeras vezes em contextos diferentes. Em terceiro lugar, há uma super valorização dos acervos documentais, o que demanda cuidados e levantamentos minuciosos, não há nada mais precioso e inovador, do ponto de vista dos historiadores, do que a descoberta e a análise de um fundo documental desconhecido ou pouco explorado. O quarto ponto é uma decorrência do anterior. Os avanços no campo historiográfico só ganham relevância quando estão acompanhados por um acréscimo de informações documentais. Por isso, pode-se dizer que o conhecimento histórico é visto e tratado como um saber cumulativo, é com o acréscimo de pesquisas empíricas que a historiografia avança. Tudo isso cria uma situação muito curiosa, na qual não é necessário nenhum exercício de pensamento, mas apenas o trabalho sistemático sobre as fontes, para alcançar uma verdade histórica. A riqueza de uma pesquisa não é medida por aquilo que ela cria, inova, subverte, mas por aquilo que ela acrescenta, novos fatos, novos dados, novos materiais. Cada pesquisa segue o modelo anterior, de maneira a garantir uma tranqüila coerência do discurso historiográfico. Não há espaço para criar, há apenas repetições, clausuras do pensamento. Nesse sentido, uma idéia que me parece rica de possibilidades foi enunciada por Michel Foucault. Vale a citação: Eu nunca escrevi nada além de ficções, e tenho perfeita consciência disso. Apesar de tudo, eu não gostaria de dizer que estas ficções estão fora da verdade. Acredito que seja possível fazer funcionar a ficção no interior da verdade, de introduzir os efeitos de verdade com um discurso de ficção e, assim, fabricar, no discurso da verdade, alguma coisa que ainda não existe, o ficcionalizando. Podemos ficcionalizar a história a partir de uma realidade política que a torna verdadeira, e ficcionalizamos uma política que ainda não existe a partir de uma verdade histórica. A potência da ficção pode servir como um contraponto à miséria do pensamento acadêmico. Fazer ficção não significa escrever literatura (mesmo porque seria esperar demais dos historiadores!), mas utilizar o pensamento como exercício, como invenção, criação e recriação. Significa forçar as fontes, deturpá-las, subvertê-las, ignorá-las. É lembrar que a verdade sempre está ligada ao poder, que o poder cria regimes de verdade, por isso criar novas verdades significa também criar novos poderes, novas relações. Para tanto, é necessário abrir mão de métodos rigorosos, ousar um pouco mais em terrenos menos seguros do que o terreno dos modelos. Esta perspectiva, é claro, abre um campo difícil de definir e capturar, implica em problemas complexos e pode proporcionar resultados insatisfatórios. Afinal, atacar a sacralidade dos documentos é também mirar no centro que sempre estruturou o discurso historiográfico. Mas, no quadro de nossa miséria intelectual não deixa de ser uma perspectiva que me parece inspiradora.

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