Não existe melhor definição para o personagem Zeca, protagonista do filme Histórias de Amor duram apenas 90 minutos, do que o termo ababelado. Conheci o termo por acaso: um amigo de faculdade, certa vez, encontrou um dicionário de xingamentos e ofensas e lá estava esse curioso vocábulo. Segundo o que ele me explicou, a palavra faz referência ao mito da torre de Babel, aquele projeto tão ambicioso que conseguiu despertar a ira de Deus, por isso nunca foi concluído. Dessa maneira, um individuo ababelado é aquele que está sempre cheio de ideias, de projetos magníficos, porém não consegue levá-los adiante, sempre largando as coisas pela metade. A confusão, a incompletude, a falta de energia e de determinação são as marcas doababelado. É justamente isso que caracteriza o protagonista do filme. Próximo dos 30 anos, Zeca é um aspirante a escritor cheio de ideias, especialmente a de escrever um livro ambicioso e profundo, com um enredo mirabolante e de inspirações filosóficas. O problema é que lhe falta determinação para concluir seu projeto, por isso do livro só escreveu umas 50 páginas. Sem vontade de criar, Zeca acaba preenchendo seu tempo ocioso com devaneios enquanto flana pelas ruas do Rio de Janeiro. O contraponto de Zeca é Julia, sua namorada. Enquanto ele nada realiza, ela vive uma intensa vida produtiva: é professora universitária e também trabalha em seu doutorado, aguardando uma bolsa para estudar na França. Apesar das diferenças, os dois viviam em grande harmonia, até que a fértil imaginação de Zeca conseguiu acabar com o sossego do casal. Tudo começou com a suspeita de que Julia o estivesse traindo, e para seu maior inconformismo não era com outro homem, mas com uma de suas alunas (Carol). Esta desconfiança acabou se convertendo primeiro numa obsessão ciumenta, depois numa paixão mal-resolvida, até resultar num caso entre Zeca e Carol. O triângulo amoroso e suas desconfianças amalucadas – vale mencionar que o filme é narrado em primeira pessoa, por isso não há nenhuma evidência a respeito da traição inicial – acabam servindo apenas como novos pretextos para justificar a protelação indefinida da escritura. É como se Zeca fosse incapaz de assumir um compromisso, de se fixar numa determinada direção e seguir adiante. Essa dificuldade de engajamento, em qualquer tipo de projeto, é o resultado de uma espécie de infantilização. Pode-se dizer que o tema central do filme é este, qual seja, o risco de manter-se indefinidamente numa situação infantil. A passagem da infância para a idade adulta é retratada, sobretudo, como a passagem de uma potência menor para uma potência maior, passagem que é expressa pela possibilidade do gesto poético (a escritura). O problema é que esse movimento não se realiza necessariamente, na realidade há sempre a possibilidade de recusa, que implica numa existência cada vez mais despotencializada (e mais triste). É isto que acontece com Zeca ao longo da segunda metade do filme: o crescente desmoronamento de sua vida, rumo a uma existência cada vez mais triste e esvaziada, e por assim dizer, cada vez mais infantil. Nesse processo, ele acaba se afastando tanto de Julia quanto de Carol, aproximando-se cada vez mais de uma existência puramente amargurada. Contra essa existência soturna e entristecida – e lá pelas tantas, Zeca expressa com perfeição a sua própria situação quando diz pra si próprio que agora é apenas um homem entristecido e ressentido – a única possibilidade é reintroduzir na existência aquele ato poético recusado. A redenção de Zeca, ou melhor, a possibilidade de redenção de Zeca está justamente na luta contra sua condição ababelada. Afinal, há uma íntima relação entre esta existência ababelada e a ameaça do ressentimento.

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