Histórias que só existem quando lembradas, da diretora brasileira Júlia Murat, é uma reflexão sobre um território, ou melhor, sobre a territorialização da vida. Tudo se passa no minúsculo vilarejo de Jotuomba, em algum lugar no interior do Vale do Paraíba. Outrora uma região próspera, que nascera em torno da linha do trem, a comunidade vive num presente desprovido de qualquer movimento. Seus poucos habitantes vivem imersos numa rotina estática e circular. Dia após dia, todos repetem os mesmos gestos, cada qual desempenhando as funções necessárias para a manutenção da harmonia local. Uma prepara os pães, outro o café, um terceiro cuida da missa e assim por diante. Nesse mundo estático não existe nenhum espaço para perturbação ou desequilibrio, configurando-se numa espécie de realidade fantástica protegida contra quaquer forma de acontecimento disruptivo. Nem mesmo a morte é uma possibilidade de transformação. O cemitério da comunidade foi fechado e ninguém mais pode morrer. Esse ambiente estático, porém, é abalado por um fato inesperado, a chegada de uma forasteira. Rita, uma jovem fotógrafa, chega à Jotuomba enquanto explorava os caminhos da antiga linha de trem. A moça traz consigo uma imensa curiosidade em explorar aquele mundo tão particular. Após conseguir abrigo na casa de umas das moradoras, Rita inicia sua exploração, tentando registrar a vida dos moradores da comunidade através de suas fotografias. Essa curiosidade etnológica, porém, esbarra na desconfiança e no receio. Ela é o outro que ameaça a integridade daquele mundo bem harmonizado. O que ela pode querer num mundo tão avesso à mudança, o que pode ser tão interessante que mereça um registro fotográfico? Esta resistência vai se desfazendo na medida em que a própria Rita começa a compreender o sentido daquela ordem. Seu olhar estrangeiro, estranho, vai se aproximando. A garota, que chegara lá como uma desterrada, sem lugar no mundo dinâmico da tecnologia e da circulação irrestrita, consegue adentrar aos poucos no território de Jotuomba. Ela aprende a fazer parte da rotina dos moradores, conquistando um lugar no interior da comunidade. A garota parece encerrar em si própria uma espécie de contradição bem moderna, uma tensão entre o fluxo constante da tecnologia (com seus aparelhos fotográficos modernos, ou mesmo no hábito de escutar músicas num tocador digital) e a vontade de pertencimento, de fazer parte de um território (com suas tecnologias arcaicas para a condução da vida, simbolizado muito bem pela sua fascinação pelas técnicas de registro fotográfico a partir de uma lata com um furo). Nessa ambivalência entre o movimento e o território, Rita se encontra dividida. Ela deseja partir daquele mundo estático, mas também sente uma vontade de permanecer e ocupar um lugar. Porém, nesse mundo de lugares fixos, o ingresso de um novo elemento exige a partida de outro. O novo precisa ocupar o espaço do antigo, sem com isso provocar uma ruptura na harmonia do conjunto. A anciã que permitiu o ingresso da moça naquela ordem aparece como o elemento dessa transição entre o velho e o novo. É no encontro com Rita que ela pode superar seu temor diante da morte, diante do movimento final de uma vida, por consequência, de um gesto de desterritorialização. A morte aparece no filme como uma espécie de movimento, de quebra da harmonia. E isso aterroriza a comunidade, por isso sua recusa. A presença de Rita é a possibilidade da morte se fazer presente, sem abalar a funcionalidade estática do povoado. Como um conjunto de fotografias, que representa o mundo sem imbuí-lo de uma noção de movimento, Rita se torna a possibilidade mesma de manutenção da ordem. Na sua vontade de pertencimento, é a própria potência da juventude, do movimento e do abalo das estruturas do mundo, que se converte no seu contrário: a envelhecida vontade de conservação. O filme de Júlia Murat parece, assim, uma espécie de elogio dessa vida territorializada, na qual tudo tem seu lugar marcado, determinado, previsto. É como se o olhar moderno se deparasse com seu inverso, o mundo bem estabilizado da sociedade tradicional, e tentasse desesperadamente registrá-lo como uma fotografia, preservando com esse gesto a própria integridade desse território. Essa admiração pelo tradicional, porém, traz algo de inautêntico, de um olhar que não consegue escapar de sua própria lógica, como se a única possibilidade para a existência de outros modso de vida fosse a rigidez de uma ordem que não se altera jamais. O problema desse olhar é que ele constrói uma representação de um mundo que já não carrega nenhuma potência, preso apenas numa rotina eterna, num território que não pode ir além de si mesmo.

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