Holy Motors de Leos Carax

2

Holy Motors, do diretor francês Leos Carax, é bastante surpreendente. E este caráter surpreendente advém da forma como o filme questiona aquilo que nos é mais essencial, nossa subjetividade. A trama é bastante simples, acompanhamos um dia da vida do senhor Oscar. Num primeiro olhar, este personagem parece uma pessoa bastante ordinária, um bem sucedido homem de negócios, que vive numa rica e confortável mansão, com seus filhos pequenos, cercado de seguranças e que parte para uma longa jornada de reuniões de negócio numa impressionante limusine. Porém, essa impressão logo se desfaz. Oscar não é um homem simples, tampouco um simples homem. Ao longo do seu dia, descobrimos que não podemos saber nada sobre quem é o sujeito Oscar. Ou melhor, aprendemos apenas que ele não é um sujeito, mas vários, uma multidão de personagens diferentes. Ele assume o papel de uma velha mendiga; utiliza seu corpo como pontos de marcação para a criação de monstro digital; se transforma numa figura monstruosa que assola os bueiros de Paris; adota a figura de um pai que se desentende com a filha; se torna um assassino brutal, entre outros personagens. Em cada mudança, nos deparamos com um novo ser, um novo corpo, uma nova personalidade. Não há nada de fixo, não existe uma história ou um comportamento que perpasse as inúmeras subjetividades que advém dessa figura misteriosa que é Oscar. Nesse caso, é quase como se ele fosse um ponto zero ou um vazio de ser. Não sendo nada, ele pode se tornar tudo. Sua existência está diretamente atrelada à noção de representação. O que ele (não-)é se manifesta apenas naquilo que ele representa de si próprio. Pode-se dizer, assim, que ele realiza o movimento inverso de todo processo de subjetivação, de tornar-se alguém. Ora, subjetivar-se nada mais é do que limitar uma infinidade de potencialidades, de represá-las numa determinada direção. Aquilo que sou implica na negação daquilo que não sou (e que não pretendo tornar-me). E como se sabe, a modernidade é configurada por um poderoso processo de disciplinarização das subjetividades, num movimento de fixidez cada vez mais acentuado, produzindo sujeitos capazes de gestos obedientes e eficazes, determinados e precisos. A figura de Oscar é surpreendente na medida em que inverte essa subjetivação. Tudo que podemos dizer sobre ele é que ele é a pura potencialidade do vir-a-ser. Em cada situação, Oscar pode se tornar um novo ser, assumir uma vida distinta, representar uma nova possibilidade. Esta, evidentemente, não vai perdurar, lançando-o adiante, num movimento incessante de reinvenção, de criação de novas formas de vida. No interior desse processo autopoético não sobra espaço para determinação, para subjetivação. E o mais interessante sobre isso é que a única razão que o mantém nesse movimento incessante – que sempre carrega uma dimensão exaustiva, afinal reinventar-se continuamente não é uma tarefa das mais simples –, é a pura beleza do gesto. Nesse caso, Oscar pode ser visto como a manifestação mais clara daquilo que foi chamado de estética da existência. Na sua recusa da forma-sujeito, ele transforma sua existência num esforço constante de invenção poética, de manifestação de uma poesia do gesto singular, que não se repetirá. Pode-se pensar nisso também como uma espécie de metáfora da potência cinematográfica, exatamente na medida em que ela também pode funcionar como um motor de criação de formas de vida. Oscar seria, assim, a manifestação dessa potência cinematográfica, na medida em que converteu sua própria vida numa criação infinita de gêneros fílmicos (de representação, enfim). A radicalidade dessa proposta pode criar algum estranhamento no espectador, afinal como nós, sujeitos fixos, que acreditamos na estabilidade de nossa personalidade e na ordem de nossas vidas, podemos apreender uma desconstrução tão completa dessa noção mesma de sujeito? É esse o jogo proposto pelo belo filme de Leos Carax, a problematização dessa nossa vontade de ser alguma coisa.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Holy Motors de Leos Carax”

  1. Te juro, acho que gostei mais do seu texto sobre o o filme do que do filme propriamente dito. De inicio gostei muito da provocação, da ‘inversão’ do personagem ao se colocar por detrás da plateia do cinema. O primeiro terço do filme também é bacana quando vc vai se dando conta quem é aquele cara que é todo mundo e ao mesmo tempo ninguém. Depois comecei a me irritar… sou cinéfila velha de guerra, mas depois do incrível intervalo 3! 12! merde! (gostei mesmo) fiquei meio puta… e nunca vou perdoar Leos Carax por me obrigar a ouvir por quase 3 min a Kylie Minogue…

    • Leandro disse:

      hehe, você não é a primeira pessoa que me disse isso. Acho que esse filme é bem o caso daquele “ame ou odeie”. Eu gostei muito, mas não é difícil entender aqueles que não gostaram. O personagem Merde aparece, inclusive, em outro filme. Tokyo ou alguma coisa assim. Gostei bastante da parte final, especialmente a cena dos macacos :)

      Bem, volte sempre e agradeço pelos comentários. um abraços.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.