Inquietos de Gus Van Sant

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Inquietos é uma narrativa de aprendizagem. O protagonista é Enoch, um adolescente atormentado pela morte dos pais num acidente de carro. A perda dos familiares fez com que a morte se transformasse numa grande obsessão. Tudo o que faz é viver em função dos mortos. Para isso, ocupa seu tempo cultivando um estranho hábito, o de visitar funerais de desconhecidos. A irrestrita celebração da morte o afastou de qualquer convívio ou gesto afirmativo. No isolamente, Enoch não possui nenhum tipo de relacionamento ou amizade com os vivos. Na verdade, ele tem uma companhia, uma espécie de amigo, um fantasma de um soldado japonês que lutou e morreu na Segunda Guerra Mundial. Enoch se torna, portanto, um símbolo da morte que impera e sujeita a vida. Sua existência se tornou paralisada e vazia, incapaz de seguir adiante. Esta vida paralisada, porém, é abalada por um fato singular. Durante um dos inúmeros velórios que acompanha, ele conhece Annabel. A garota tem um câncer terminal e não terá muitos meses de vida. Inicialmente é a presença da morte que desperta o interesse de Enoch na garota. Esse convívio possibilita um prolongamento daquela experiência de não viver que ele tanto procura, como se fosse possível se ensimesmar tão intensamente da morte a ponto de não ter que lidar com o fato de estar vivo. Porém, ao contrário dele, Annabel não abraça essa recusa de viver. A garota enxerga a morte de um modo totalmente diferente: como um motivo para continuar vivendo, para bem viver o tempo que lhe resta. Essa diferença de perspectiva obriga Enoch a questionar sua própria opção. A presença de Annabel inicia um lento aprendizado, no qual Enoch encara a própria recusa de seguir vivendo. Nesse caso, o filme evoca, de maneira muito singela, uma famosa elaboração de Montaigne, que meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade, aprender a morrer é desaprender a sujeição. O que o jovem aprende com Annabel é que a presença da morte não significa um não-viver, mas sim uma chance de libertação, no qual é possível abandonar uma vida paralisada e assujeitada, buscando novos modos de existir, mais alegres e prazerosos. Os breves momentos compartilhados ao lado dela são a materialização de uma existência em liberdade. Ao fim, encontramos em Enoch uma espécie de transvalorização da morte: se no início era marcada pelo signo do medo e da tristeza, agora ela é assumida na sua naturalidade, como um fato mesmo da existência, como uma abertura para a recordação da potência mesma da vida. Essa descoberta torna possível até mesmo sorrir da morte, já que agora ela perdeu seu poder de sujeitar os vivos. É por isso que o filme é bem bonito, especialmente a cena final, já que assume irrestritamente essa celebração da vida sobre a morte.

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3 Comments to “Inquietos de Gus Van Sant”

  1. Então meu caro, o que me incomoda nesse filme é uma certa ingenuidade dos personagens que é assumida pelo próprio filme. Nada contra os dois serem assim tão ingênuos, é um traço da personaliadde deles, mas o que me incomoda é que o filme parece aprovar essa ingenuidade quando, por exemplo, Enoch se irrita com o médico ou a atitude passiva da tia dele diante da fúria do garoto. Nesses momentos o filme poderia ser mais duro, mas escolhe o caminho da facilidade infantil de encarar as coisas. De qualquer forma, gosto muito da maneira sutil como o Van Sant trabalha a questão da morte e gosto mais ainda das intervenções do Hiroshi, muito misteriosas mas sempre pertinentes. Não é um péssimo trabalho, mas Van Sant já foi muito melhor.

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