Janela Indiscreta e o panóptico

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Janela Indiscreta é um dos grandes clássicos de Alfred Hitchcock. O filme, como é bastante conhecido, gira em torno do fotógrafo L. B. Jefferies, que, após sofrer um acidente, não pode sair do seu quarto. Para ocupar seu tempo, limita-se a observar os vizinhos pela sua janela. Porém, a aparentemente tranqüilidade desse voyeurismo acaba revelando que um dos vizinhos cometeu um grande crime: o assassinato de sua esposa. A história, aparentemente simples, é construída com grande engenhosidade e com uma técnica extremamente refinada. Para além desse aspecto, o que me parece digno de menção é a maneira como o filme permite uma reflexão em torno da noção de visibilidade panóptica em nossa sociedade.

Foi o filósofo francês Michel Foucault quem desenvolveu a idéia do Panóptico, um projeto de instituição reformatória idealizado pelo utilitarista Jeremy Bentham no final do século XVIII, como o dispositivo mais geral para o funcionamento da sociedade disciplinar. Segundo ele, o Panóptico tinha uma disposição interna que possibilitaria o encerramento do condenado (ou de qualquer tipo de sujeito: louco, operário, paciente, estudante, etc.) de maneira individualizada, o qual estaria sempre sujeito a um ponto de vigilância completa. Porém, este ponto não poderia estar ao alcance da visão daquele que está encerrado no interior do dispositivo. Foucault fala que o Panóptico é “uma máquina que dissocia o par ver/ser-visto: dentro dos anéis periféricos [posição daquele que está encarcerado], se torna totalmente visível, sem jamais ver; na torre central [posição do vigia], se vê tudo, sem se tornar jamais visível”

Com isso, aquele que está encerrado neste dispositivo nunca teria possibilidade de saber quando está sendo efetivamente vigiado. Por conseguinte, o temor da vigilância imaginária acabaria por interiorizar em cada indivíduo as normas disciplinares. O panóptico possibilitaria, assim, o dispêndio de uma energia cada vez menor, com resultados cada vez mais poderosos, na vigilância individual. Além disso, o dispositivo tinha um relevante efeito lateral: a individualização do corpo social. A lógica da operação só funciona a partir da observação individual, do acompanhamento de cada um. A disposição das celas, no modelo benthamiano, impossibilitaria a comunicação dos indivíduos encarcerados, enfraquecendo a possibilidade de qualquer resistência à vigilância.

Para Foucault, o dispositivo panóptico seria a forma mais eficiente de sujeição dos corpos individuais, pois nele o poder se tornaria “visível e inverificável”[1], exigindo um esforço mínimo, mas com efeitos permanentes. Seria a forma mais capilar, mais próxima das singularidades somáticas, dos corpos, que possibilitaria a moldagem das ações, condutas, gestos, da própria alma. A operação panóptica é, por excelência, a gestão do sujeito contemporâneo.

Voltando ao Janela Indiscreta. A história toda se desenrola em um único cenário: a vizinhança do apartamento de Jefferies. A rua aparece apenas de relance, quase não é possível enxergar nada além daquele universo. O que chama a atenção é a disposição de todos os apartamentos a frente do quarto do protagonista. Estando no centro do cenário, Jefferies pode observar absolutamente tudo de sua janela. Os hábitos de seus vizinhos, os pequenos conflitos, as angústias, as ações mais comezinhas de todos, tudo pode ser visto de sua janela. Seus vizinhos, porém, são incapazes de lhe devolverem seu olhar: Jefferies pode ver, mas nunca é visto.

Isso não significa que seu quarto detém um controle exclusivo da visibilidade da vizinhança. Na realidade, a arquitetura do filme demonstra que todos podem observar a todos, bastando que resguarde seu olhar da visão alheia. É a raiz da sociabilidade panóptica. Quando se cria um regime de visibilidade que permite a constante observação de todos aqueles que te cercam. Num momento aquele que observa detém a prerrogativa do olhar, mas não há possibilidade de manter esta posição indefinidamente, em algum momento se perderá a posição do observador, passando a condição de observado. Com isso, torna-se necessário um constante cuidado com o próprio comportamento.

Este universo acaba dobrando-se sobre si mesmo, espiar o vizinho ganha ares obsessivos, abandonar seu posto por apenas um momento pode significar a perda de alguma informação decisiva, qualquer gesto pode revelar uma grande verdade sobre aquele que o pratica. É um estado de impotência absoluta. O olhar substitui a ação. O estado físico de Jefferies, imobilizado e incapaz de circular para além da sua janela, é revelador. O panóptico potencializa as ações do poder enquanto esvazia as possibilidades de ação dos corpos que assujeitados.

Além disso, a observação constante de todos não significa a criação de laços de solidariedade ou de comunicação. Um dos temas centrais do filme, na realidade, é a impossibilidade de comunicação que nasce desse mundo. Todos os vizinhos podem se espiar mutuamente, mas são incapazes de se comunicar, de compartilhar qualquer experiência. Há uma cena muito importante no filme, quando morre o cachorro da vizinha que dormia ao relento. Ela, completamente chocada com o ocorrido, grita com todos, contra a frieza de todos, o desinteresse absoluto pela vida alheia. O olhar esvazia a possibilidade da linguagem e da comunicação (não é gratuito que os vizinhos, excetuando o assassino, não recebam nomes, apenas apelidos que estão relacionados com seus comportamentos). Sobra apenas o controle, a disciplina, o cuidado com a aparência.

As personagens femininas que cercam Jefferies, como é de costume nos filmes de Hitchcock, aparecem ocasionalmente como as vozes lúcidas que enxergam os dilemas dessa sociabilidade panóptica. Stella, a enfermeira do fotógrafo, o recrimina diversas vezes contra sua mania de espiar. Sua namorada, Lisa, é ainda mais enfática. Em uma determinada cena, ela se questiona se há possibilidade de fundar uma ética da visibilidade, seria legitimo espiar os vizinhos ainda que fosse para provar a culpa deles? Porém, elas mesmas acabam dobradas pela curiosidade, pela inquietação de dominar com o olhar, abandonando seus questionamentos éticos. O grande dilema da sociedade panóptica é esse: ela engloba a todos, pondo em funcionamento todo uma aparelhagem de poder que se esparrama pelo tecido social. A microfísica do poder só funciona quando este pode ser exercido anonimamente, por todos, dobrando a todos.

A sociedade panóptica possibilitou a disciplinarização generalizada das singularidades somáticas, a conversão de todos em sujeitos normalizados. A visibilidade é essencial para garantir a manutenção da norma, do sujeito normal. Para tanto, como explica Foucault, o poder precisava se tornar uma relação absolutamente anônima, qualquer um pode exercer o poder de normalização. O panóptico só funciona quando não exige a criação de uma categoria especial de vigias, mas qualquer um pode se tornar o vigia da sociedade. Em Janela Indiscreta isso está muito claro, pois, na realidade, não é Jefferies quem observa constantemente sua vizinhança. A prova disso é o momento no qual o assassino desmonta o efeito de visibilidade, descobrindo o olhar vigilante. A falência do poder disciplinar resulta num confronto físico e violento. Por isso, quem está efetivamente postado no anel central do panóptico é o espectador. É ele quem pode capturar com seu olhar todos os aspectos daquelas pessoas, é ele quem descobre de antemão a grande verdade do enredo: o assassinato da senhora Thorwald. O espectador anônimo ocupa o posto por excelência do vigia do Panóptico.

[1] As citações são todas de Michel Foucault, Surveiller et punir, Paris: Gallimard, 2007. Livre tradução do autor.

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One Comment to “Janela Indiscreta e o panóptico”

  1. IcaroReverso disse:

    e também ocupa o posto de impotência… por outro lado, o olhar não esvazia a intimidade, até colabora para se crie novos tipos de intimidade. O vouyerismo é íntimo, cria uma potência de intimidade. mas a intimidade de quem olha é preenchida de solidão, da compleição física de quem olha, da limitação de quem olha. A solidão é o horizonte do homem. daí advém, do horizonte, o trágico, o epíco, o dramático, o cômico e assim vai. abraços internéticos.

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