José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes

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O documentário sobre a relação de José Saramago com sua esposa, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, é bastante emocionante e singelo. As câmeras desvelam as minúcias de um relacionamento intenso e afetivo, que revela inúmeros momentos alegres e cômicos da intimidade do casal, mas também os problemas de saúde e a presença sempre forte da morte, especialmente nas falas e nas reflexões do próprio Saramago. É impossível não se emocionar com o carinho que o escritor português – através de palavras e gestos – trata Pilar; sua preocupação com seu ofício de escritor, o temor de não conseguir concretizar seu último livro (A Viagem do Elefante. O leitor atento, porém, sabe que este não foi seu último livro, pois ele ainda escreveu Caim, ambos publicados pela Companhia das Letras); mas também sua paixão pela vida. Enfim, o filme atinge em cheio seu objetivo central, qual seja, registrar a intensidade afetiva do encontro de Saramago e Pilar e com isso afetar energeticamente o espectador. Existe, porém, um ponto secundário no discurso do filme que abre caminho para outro tipo de reflexão. As câmeras do documentário registram essencialmente dois tipos de situação, ainda que estas acabem se misturando: os momentos íntimos e os eventos públicos. Os primeiros, em teoria, seriam os mais freqüentes, já que registram o espaço do casal, as conversas e os gestos mais reservados. Apesar de o filme estar focado na intimidade do casal, o espectador é bombardeado por uma enorme sequência de eventos públicos, nos quais tanto Saramago quanto Pilar participam. São palestras, entrevistas, lançamentos, noites de autógrafos, homenagens, manifestações políticas, etc. Ainda que a presença mais forte e fulgurante nesses eventos públicos seja do escritor, Pilar também ocupa um espaço relevante, por exemplo quando se manifesta contra a guerra do Iraque. Há também um espaço de transição quando Pilar, e quase sempre é ela que assume esse papel, fala sobre a rotina de trabalho do casal, o tratamento da correspondência, etc. O que fica evidente é uma espécie de exaustão da figura pública do escritor. Ele precisa realizar um trabalho constante de visibilidade, no qual sua presença garanta uma espécie de suplemento de intensidade ao seu próprio ofício. É como se na contemporaneidade não bastasse a escrita, mas esta precise ser constantemente alimentada por um elemento excessivo, algo externo ao próprio texto, que percorre um circuito midiático intenso e constante. Saramago precisa autografar, falar, se fazer presente e visível. A sua vida é progressivamente convertida numa figura ficcional, ele se torna um personagem de si próprio. Esse processo é desgastante e exaustivo. A necessidade de viajar constantemente, por exemplo, deixam o escritor profundamente abalado e debilitado. Mas nada evidencia com mais clareza esse desgaste do que as exigências da fala. Saramago reclama inúmeras vezes de que talvez não tenha coisas novas a dizer, mas é instado a continuar sempre repetindo o que já disse. Essa repetição cria um espaço vazio no seu discurso, fato que é muito lucidamente diagnosticado pelo próprio escritor, no qual nada realmente é dito e a fala se torna um gesto puramente performático. Ele fala simplesmente porque precisa alimentar aquelas engrenagens midiáticas. Isso revela um decisivo deslocamento na representação clássica do intelectual engajado. Como se sabe, ao longo do século XX, sempre houve um espaço para a figura do intelectual que fala no espaço público, se posicionando diante dos dilemas políticos do seu tempo. Essa figura, entretanto, perdeu grande parte do seu sentido na contemporaneidade. Esse processo de esvaziamento do intelectual engajado afeta Saramago diretamente. São bastante conhecidas suas posições políticas (comunista, ateu, a favor dos direitos sociais e contra a opressão, etc.), porém o documentário evidencia como essa sua opção é progressivamente esvaziada pela insistente repetição de sua imagem. Chega um ponto no qual ele não consegue mais ser o intelectual que aborda os temas relevantes pelo simples motivo de que precisa falar o tempo inteiro a respeito de qualquer coisa. E o que fica em segundo plano é sua própria obra. O autor, convertido em ator, torna-se o grande motivo de preocupação do público. As pessoas ficam ávidas por uma dedicatória, ou em casos extremos de constrangimento, desejam que o pobre escritor desenhe um hipopótamo em seus livros!!. Curiosamente, o próprio documentário reforça essa transformação. O que vemos na tela do cinema, acima de tudo, é a construção de um personagem poderoso, o casal Saramago/Pilar. É por isso que, apesar dos momentos íntimos serem até menos freqüentes que os eventos públicos, o que acontece é uma intimização da figura do escritor. Ele deixa de ser relevante pelo seu ofício (a escritura) e se torna uma figura midiática. Não é a toa que os inúmeros compromissos públicos acabam dificultando a própria temporalidade da escrita, atrasando o projeto do livro que Saramago escrevia. Essa vampirização da vida, convertida num produto imaterial, cobra um preço alto, quando o escritor entra em colapso. E quando isso ocorre, um dos grandes temores de Saramago, como já mencionado, é não conseguir finalizar o seu próprio livro. A sua constante exposição provoca uma espécie de esvaziamento de sua própria potência, cada vez mais capturada pelos dispositivos midiáticos. A partir disso, é possível refletir um pouco sobre o papel do próprio documentário, que não faz senão repetir essa mesma lógica. A câmera, uma intrusa sempre presente, não se afasta nem nos momentos mais tensos, quando Saramago está enfermo e internado num hospital. Não há nenhum imperativo maior do que satisfazer a curiosidade do público diante daquele personagem tão intrigante. Felizmente a intensidade afetiva do escritor consegue abrir um espaço de dobra, ainda que provisório, nesse processo de captura, e acho que é isso, sobretudo, que me emocionou ao longo do filmes. É quando a obra se finaliza, e o escritor pode transformar sua potência em ato: a escritura. Enfim, o documentário acabou criando uma forte sensação, quase de urgência, de que não há homenagem maior do que esquecer um pouco o personagem Saramago e retornar ao escritor Saramago, e recomeçar a ler seus livros.

Um trailer, especialmente bonito, do documentário:


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One Comment to “José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes”

  1. admin disse:

    (Comentários importados manualmente)

    renatocinema disse…

    Estou lendo de Saramago e gostaria muito de assistir esse documentário. Adorei Ensaio sobre a Cegueira.
    2 de novembro de 2010 12:28

    Leandro disse…

    Qual livro você está lendo? Eu gosto muito dos livros dele, li quase todos. Depois de ver o documentário, decidi reler O ano da morte de Ricardo Reis. Foi um dos primeiros que li, na época era bem mais novo, e acho que não aproveitei o livro como poderia ter feito. Bem, o documentário entrará em cartaz em breve, ai você poderá vê-lo.
    2 de novembro de 2010 12:34

    dsoares08 disse…

    Bacana o documentário. Vou ver se baixo. Uma curisidade: Aquela frase ali “Pilar, nos encontramos em outro sitio” é algo que esta fora de contexto ali, quer dizer alguma coisa poética que nao da para compreender pelo recorte ou é uma declaração clara de “crença” em reencontros além da vida, vinda de um ateu? :-) fiquei curiosa.
    2 de novembro de 2010 13:12

    Leandro disse…

    Olá Diângeli,

    O documentário ainda entrará em circuito comercial, não sei quando, mas deve ser em breve. Olha, por conta de todas as declarações do Saramago, tanto no documentário quanto fora dele, não vejo a menor possibilidade dele ter abandonado seu materialismo e acreditar realmente numa vida depois desta. Creio que seja algo poético, as imagens dessa cena são gravadas numa técnica diferente do resto do filme, que começa e termina com esta cena. Só que há outras declarações que formam a sequência dessa cena. A edição quebrada pode deixar essa ambiguidade, mas só isso mesmo.
    2 de novembro de 2010 13:20

    Selma Bellini disse…

    Oi, Leandro. Concordo contigo, mas me pergunto se não foi intenção do próprio diretor mostrar isso como forma de crítica. Será que há aí alguma crítica do diretor ao tratamento da mídia? Não sei se o diretor estava na sua sessão, mas essa teria sido uma boa pergunta a ser feita pra ele. Bom, de qualquer forma, te digo que você conseguiu explicar com seu texto o desconforto que não havia conseguido elaborar quando vi aquela imagem dele dentro do quarto do hospital. Na hora, fiquei desconfortável, mas não parei para pensar muito e agora encontrei no seu texto um pouco da explicação. Bom, de forma geral, isso que descreve é um reflexo da nossa sociedade consumista. Quando o que interessa é a leitura e o gosto pela construção das frases, a escrita em si é mais importante e o escritor é admirado no sentido de que é ele o responsável por concretizar com tanto talento o que admiramos. Mas, quando se “consome” um escritor sem amor pela escrita e apenas por ele ter sido nobel, o que mais importa é ele mesmo como personagem e talvez o documentário tenha aí uma crítica embutida.
    Bom, de qualquer forma, eu gostei muito do documentário, achei de uma grande sensibilidade quando mostra a rotina dos dois, o afeto, o cuidado dele com ela e vice versa. Tks pelo texto!
    2 de novembro de 2010 18:10

    jumpcut disse…

    No Brasil o filme estreia comercialmente esta sexta-feira.
    O diretor estará presente na sessão do Belas Artes. E após a sessão festa de lançamento de “José e Pilar” com show de Berlam e a Banda Larga autor de um dos temas da trilha do filme!!!
    Estúdio Emme – Av. Pedroso de Moraes, 1036 – Pinheiros – São Paulo.
    http://www.joseepilar.com
    3 de novembro de 2010 00:23

    Leandro disse…

    Olá Selma,

    Eu também achei o documentário muito bonito, com várias cenas tocantes. Em relação a crítica, o documentário de fato não retrata de maneira positiva aquele tanto de compromisso e eventos que envolvem a vida do Saramago. Só que o documentarista acaba, de alguma maneira, repetindo o mesmo mecanismo (o de transformar o escritor num personagem midiático). Tem uma cena exemplar, que não mencionei no texto. Quando o Saramago e a Pilar estão no carro, andando pelo Rio de Janeiro. Na cena, o cinegrafista sugere ao Saramago que troque de lugar no carro, para que possa ser filmado numa posição melhor. A cena resume bem a intrusão da câmera na vida dele e da Pilar. O diretor não estava na sessão, mas teria sido ótimo se estivesse. Uma pena.

    Enfim, o filme é muito bonito e apesar das minhas críticas, vale muito a pena assistir. Sai do cinema bastante emocionado.

    Agradeço seu comentário,

    Um abraço

    Leandro
    3 de novembro de 2010 09:12

    Leandro disse…

    Jumpcut,

    Agradeço a informação, pensei que o documentário fosse demorar um pouco mais para entrar em cartaz. Gostaria muito de estar presente na exibição com o diretor, farei o possível para estar lá.

    Leandro
    3 de novembro de 2010 09:14

    Beauvoiriana disse…

    Acho incrível como você conseguiu falar do filme sem deixar nenhum aspecto escapar. A intensidade afetiva de Saramago, principalmente. Eu achei curioso porque a separação que você observou no filme, entre momentos íntimos e públicos, agora me parece óbvia (depois de ler seu texto), mas quando eu vi o filme eu percebi diferente: momentos a dois e momentos separados. Li quase todos os livros de Saramago, guardo ainda uns quatro não lidos, porque ele, para mim, é uma espécie de refúgio emocional em cujas palavras posso me socorrer quando já nada mais ajudaria. No filme vi o coração de Saramago, a fonte dessas palavras. :-)
    10 de novembro de 2010 06:01

    Leandro disse…

    Literariamente,

    A figura do Saramago é muito intensa e bonita, o que torna o filme tão emocionante. E o relacionamento dele com a Pilar, muito bem retratado no filme, é muito tocante. Também sou um grande fã dos livros dele, li quase todos da fase madura e agora estou relendo alguns que li faz muito tempo. Que bom que gostou do texto.

    Um abraço

    Leandro
    14 de novembro de 2010 13:09

    Luiz Carlos Garrocho disse…

    Parabéns pelo belo texto!

    Concordo com você: assistimos, antes de tudo, a um desgaste do homem e escritor Saramago.

    Acho que Pilar, ao montar essa estratégia midiática, levou Saramago a essa situação. De todo jeito, ele parece, mesmo a contragosto, encantado com o que está acontecendo.

    Você pode ver, passo a passo, como um ser humano vai se desgastado através de compromissos que o vampirizam completamente. Muito curiosamente, Pilar, no meio do filme, diz que “existem os farmacos…” Ora, ela ainda era nova, jornalista, militante (me parece) e queria aquela exposição toda.

    Saramago só queria escever. Foi retirado brutalmente de seu mundo para se expor midiaticamente, atendendo a uma solicitação de Pilar. Morreu para satisfazer o desejo do outro.

    As pessoas acreditam que o enfraquecimento de Saramago é da ordem natural das coisas. Não é. Um corpo envelhece e caminha para a morte. Mas isso tem ritmos e sentidos…

    Triste ver Saramago exaurido, contemplando os ossos das patas do Elefante. Como o animal, ele também encontrava-se na situação de ter caminhado tanto para nada!

    Bom, como você disse, voltemos ao escritor, ao que ele gostava de fazer.

    Abraços
    14 de dezembro de 2010 12:40

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