Joven y Alocada de Marialy Rivas

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O filme chileno Joven y Alocada é o trabalho de estréia da diretora Marialy Rivas e trata do universo adolescente de uma forma que não é tão comum. Não é raro vermos filmes que abordam a transição para a idade adulta ou de forma abestalhada, que não consegue pensar a juventude senão como uma etapa da vida boba e infantilizada. Outra abordagem comum é aquela absolutamente artificial do olhar adulto que não consegue compreender a juventude. Felizmente, o filme chileno consegue escapar dessas duas abordagens, refletindo com justeza sobre os dilemas de amadurecimento no mundo contemporâneo. O filme conta a história de Daniela, uma adolescente que no final da adolescência se depara com inúmeros problemas e precisa superá-los para ingressar na vida adulta. A garota cresceu numa família evangélica e sente grande dificuldade em se adaptar aos rígidos padrões morais que a sua mãe tenta lhe impor. Se não bastasse o fato de sua mãe ser bastante intolerante e desconfiada, que tenta de todos os modos controlar sua vida e seus hábitos, a jovem também precisa lidar com a expulsão da escola religiosa que freqüentava por conta de suas experiências sexuais. Daniela já não era virgem e encara a relação sexual com uma liberdade muito pouco aceitável para a moral evangélica na qual está inserida. A expulsão a impede de realizar o vestibular para ingresso numa universidade. Além disso, como castigo, sua mãe a obriga a trabalhar numa televisão evangélica, na esperança de que tal vivência aproxime a garota da religião e de sua família. Finalmente, para completar as agrurias da jovem, ela precisa lidar com a doença de sua tia favorita, que sofre de um câncer terminal. No meio disso tudo, a garota se dedica à escrita de um blog, no qual relata aspectos de sua intimidade: seus desejos sexuais, as relações com outras pessoas, as dúvidas religiosas e os dilemas da fé, as dificuldades de lidar com a mãe. Muito mais do que apenas um espaço de exposição e de publicização da intimidade, o blog aparece como o único espaço encontrado por Daniela para experimentar, com alguma liberdade, sua subjetividade. É por meio da escrita que ela constrói uma narrativa sobre si própria e tenta se encontrar no mundo, encontrando assim um espaço de formação e amadurecimento. Ao contrário do ambiente claustrofóbico em que vive – cheio de regras, no qual o sexo aparece como um pecado que merece as mais duras punições e na qual a interação com o outro só ocorre na base da desconfiança e do controle –, o ambiente virtual aparece para Daniela como um espaço de liberdade, ou melhor, de afirmação de um estar-no-mundo diverso. Seus textos lhe ajudam a questionar as verdades religiosas que lhe são impostas, como na cena em que ela rememora a destruição de uma imagem de santa na infância, mas também dos valores morais sobre o corpo. Nesse caso, a experiência pública da escrita inverte bastante o sentido, por exemplo, que a escrita íntima tinha como mecanismo de subjetivação. Se pensarmos, por exemplo, nos diários, no qual a escrita também ocupava um papel importante na construção da intimidade e dos sentimentos, a exploração e a experimentação tinham um sentido eminentemente individual. Eu exploro meus sentimentos para mim mesmo, sem compartilhar, dialogar ou discutir com o outro. Nesse caso, o alcance dessa experimentação era basicamente a operação de modificação de si próprio. No caso de Daniela e seu blog, como vemos no filme, a escrita íntima perde esse caráter individual e a interação com o outro se constitui no cerne da própria experiência subjetiva: os diálogos na caixa de comentários, o MSN e as redes sociais, tudo isso ajuda Daniela a se encontrar no mundo. E nessa busca pela transformação de si própria, ela pode também compartilhar experiências com o outro, produzindo uma experimentação acompanhada, não meramente individual. Isso ganha mais relevo na medida em que a escrita de Daniela ganha, em certa medida, uma dimensão corrosiva da moralidade sobre o corpo, a sexualidade e o relacionamento amoroso. Este aspecto fica claro a partir do envolvimento da garota com Tomás, um rapaz evangélico que pretendia casar virgem, e com Antonia, uma garota de espírito mais aberto. A escrita do blog se converte numa narrativa desse relacionamento particular, no qual a noção mesma de encontro a dois é questionada. Daniela conta e reconta suas experiências com a dupla para conseguir superar o dilema entre uma moral que proíbe e reprime e um desejo que pulsa e se afirma. Na impossibilidade de conciliar as duas dimensões (a moral e o desejo), seus textos servem como um auxílio para localizar o caminho próprio para o amadurecimento, reinventando a si própria no percurso. É por isso que o filme de Marialy Rivas consegue lançar um olhar sincero para a adolescência em tempos de internet. Sem fazer juízos de valor, a experiência de Daniela é retratada como uma busca pelo amadurecimento, num momento em que esse processo está cada vez mais relacionado com a interação na internet e as experiências que podem ser construídas nesse espaço. O frescor dessa visão supera em muito os possíveis defeitos que surgem numa primeira obra de uma jovem cineasta.

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