Kes de Ken Loach (1969)

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O tema da infância é um dos mais abundantes na história do cinema. Muito em voga em anos recentes – basta lembrar a grande quantidade de filmes que elegeram os infantes como protagonistas-narradores (Machuca, Ninguém Pode Saber, O ano que meus pais saíram de férias, Stella, Mutum, Kamchatka, A culpa é de Fidel, entre muitos outros) –, é também um gênero com seus grandes clássicos, entre eles o maior de todos Os incompreendidos. É nessa tradição que está inserido Kes, do diretor inglês Ken Loach. O filme é muito próximo do clássico de Truffaut, com uma história muito tocante e poderosa. O protagonista da história é Billy, um pequeno garoto que está terminando seus estudos primários numa escola de região mineira na Inglaterra dos anos 60. O garoto vive com uma mãe ausente e desinteressada e com um irmão, que trabalha nas minas de carvão, e aproveita toda oportunidade para maltratar o menino. Desse ambiente familiar agressivo e pouco acolhedor, Billy não encontra muito alento na escola: estudando numa instituição autoritária e cheia de regras, com professores praticantes da palmatória e sem o menor interesse em ensinar qualquer coisa, o menino acaba se tornando mais um desajustado. Este desajuste, porém, se desfaz no seu tempo livre. É quando Billy cultiva sua grande paixão, o cuidado de um pequeno gavião, a Kes que dá nome ao filme. Um cuidado que demanda grande dedicação e aprendizado, num exercício constante de atenção e afeto, que não lhe proporciona nada além da possibilidade de contemplar os vôos do animal. Nesse sentido, há uma espécie de contraposição no filme: de um lado, o mundo adulto (o mundo das instituições) que só consegue produzir desajustados, esvaziando as potencialidades do novo; do outro lado, o cuidado de Billy, desprovido do rígido e violento formalismo das instituições, capaz dos efeitos mais potentes, muito bem expressos na metáfora do vôo da ave. Há, portanto, uma dura crítica no filme à vida institucionalizada, seja a família, a escola e mesmo o trabalho (a entrevista para colocação profissional de Billy é medonha). Pode-se dizer que o filme capta muito bem o funcionamento do dispositivo de disciplinarização individual, que parte da família em direção à escola e ao trabalho (Aqui vale lembrar o paralelo com Os Incompreendidos, que realiza a mesma operação, levando o dispositivo ao seu limite, qual seja, o encarceramento dos delinqüentes). Nesse esquema, o garoto representa aquelas personalidades intempestivas, que resistem com toda sua força ao processo de disciplinarização (outro ponto de contato com o Antoine Doinel da obra de Truffaut). No seu oposto, está aquele esforço de criação, propriamente educativo, que não se limita a domesticar e a controlar. Vale lembrar o diálogo luminoso entre Billy e um dos poucos professores um pouco menos indiferentes aos alunos. O garoto explica que seu interesse em cuidar da ave não tem nada a ver como um desejo de poder, de domesticar o animal, mas sim de observar seu crescimento, a intensificação da sua potência de existir. Ele termina explicando que Kes não é e nunca será um bicho de estimação, ela pode voar em liberdade, e permanece apenas enquanto desejar. Esta relação assume, assim, o papel de metáfora de um projeto educacional diverso daquele que estava sendo criticado. A educação como direção do ser, numa espécie de acordo mútuo entre aquele que educa e aquele que é educado, numa relação que não visa ao controle, mas a interiorização de procedimentos necessários para a liberdade. Dessa forma, o discurso do filme expressa vivamente a grande metáfora do projeto educacional moderno, qual seja, aquela ideia comum e forte de que disciplina é liberdade. Enquanto as instituições se limitavam ao lado autoritário da disciplina, Billy consegue realizar plenamente este projeto. No entanto, o filme de Ken Loach consegue dar um passo adiante na simples expressão desse projeto, sem o que resultaria numa mensagem muito próxima da inocência. Para compreender corretamente este passo seria necessário cometer um crime gravíssimo contra o filme, revelar seu final. Como não farei isso, talvez o comentário não fique suficientemente claro. O filme de Loach acaba sinalizando para o risco de violência que sempre acompanha esse desejo de direção tão íntimo de nós. No final das contas, não há como separar o projeto educacional moderno, calcado nessa relação entre alguém que conduz e alguém que é conduzido, do risco de absoluta captura ao poder soberano, capaz de inverter o sentido da intensificação rumo ao esvaziamento da potência de existir.

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3 Comments to “Kes de Ken Loach (1969)”

  1. malvamauvais disse:

    Oi, Leandro. Coloquei um link para o seu blog lá entre os meus "Bons de Cinema" da coluna da direita. Espero que não se importe. Abs!

  2. Leandro disse:

    Olá Malva, claro que não me importo. Na verdade, fico bastante feliz de saber que você indicou meu blog nos seus links. Um grande abraço.

    Leandro

  3. Ederson disse:

    Parabéns pela análise desse antológico filme; Também gostei muito do diálogo dele com o professor.

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