Lost in Paradise Tokyo de Kazuya Shiraishi

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Lost in Paradise Tokyo é o filme de estréia (e o único por enquanto) do diretor japonês Kazuya Shiraishi. Seu trabalho me surpreendeu bastante, certamente permanecerá entre os meus favoritos da Mostra de Cinema deste ano. Apesar de não propor nenhuma linguagem especialmente inovadora ou ousada, o filme narra uma história bastante interessante e atual. Mikio, um típico salarymen japonês, precisa cuidar de seu irmão mais velho (Saneo) após a morte de seu pai. O problema é que Saneo é autista e seu irmão não sabe muito bem como lidar com sua condição. Ele enxerga seu irmão apenas como um desvairado, que precisa ser controlado de perto para evitar transtornos. E a única forma que Mikio encontrou para evitar qualquer transtorno é manter seu irmão isolado do mundo exterior, trancado dentro do apartamento. Essa privação do mundo é uma maneira de reduzir a singularidade toda particular de Saneo a um universo seguro e controlado. Porém, existe uma potência difícil de ser domada, mesmo com as correntes que o trancam dentro da casa, a potência do desejo. Para remediar isto, ele decide contratar prostitutas que satisfaçam as necessidades de Saneo. Numa dessas ocasiões, aparece Marin, uma jovem aspirante a estrela pop que se prostitui para realizar um pequeno sonho particular: viver numa ilha isolada do mundo, como num paraíso particular. Os três, após vários conflitos, criam uma espécie de vínculo familiar, bastante particular e afetuoso. Ela conquista a confiança de Saneo e encontra uma maneira de se comunicar com ele. O mesmo ocorre com Mikio, que enxerga nela alguém para dividir os cuidados com o irmão. Nesse processo, o que sustenta a relação dos três é o partilhar de um desejo comum, qual seja, a busca de um refúgio, da ilha desabitada. O paraíso é visto, cada vez mais, como a melhor forma para trazer alguma felicidade a Saneo. O problema, porém, é conseguir o dinheiro necessário para comprar o lugar. É nesse ponto que acontecesse uma reviravolta decisiva na trama. Marin fora contratada por uma dupla para realizar um documentário sobre seu caminho rumo ao estrelato. A dupla, especializada na produção de filmes que se parecem com reality shows, acompanha as desventuras de anônimos para depois distribuir o material pela internet. A grande obra, por eles realizada, foi o registro de um homem que surtou, abandonou seu emprego e se trancou num quarto. O filme acompanhou todo o processo de isolamento do homem, até o momento em que ele se suicidou, pulando da janela diante da câmera que impassivelmente acompanhou a queda. Agora eles enxergam em Marin a possibilidade de uma produção ainda mais interessante. A proposta deles era simples: documentar a vida e os sonhos da prostituta e aspirante a estrela que topou transar com um pobre autista. Em troca do registro minucioso de tudo, a dupla prometeu uma imensa soma de dinheiro, o bastante para completar a poupança necessária para comprar a tão sonhada ilha. No fundo, eles operam apenas uma radicalização da proposta de um documentário tradicional, qual seja, enquadrar toda a potencialidade da vida dentro de grades conceituais fixas, e com isso apagar as diferenças e as singularidades, eliminar todaestranheza, tenta tornar compreensível e, portanto, domar a rebeldia. Nesse movimento, a vida se converte numa mercadoria imagética, uma produção imaterial que terá um valor tão maior quanto mais próximo as imagens estão de uma suposta realidade. Por isso, eles não se satisfazem apenas em entrevistar os três, mas registrar, com as câmeras, o ato sexual mesmo. Isto revela muito bem como o jogo da verdade é sempre resultado de um exercício de poder, de uma soberania sobre a vida. Enfrentar a câmera significa, em última instância, converter a vida em arquivo, esvaziando toda a potência do vivido em prol de um olhar curioso e disciplinador. Mikio e Marin, especialmente o primeiro, também partilham desse gesto soberano, na medida em que atribuem a si a possibilidade de escolher o que é melhor para Saneo, para a sua felicidade e liberdade. Por isso, eles acabam aceitando a proposta do documentário. E claro, as coisas terminam escapando dos controles. Não há fronteiras ao desejo de saber, e a dupla não se limita apenas a filmar o ato sexual, mas começa a escavar toda a intimidade e o passado dos irmãos. É apenas Saneo que resiste a esse espírito inquiridor e confessional. Depois de filmado, quando tudo está resolvido, ele resolve simplesmente não permanecer mais a disposição da soberania de outrem, e por isso parte num pequeno barco sozinho pelo oceano. Seu ato sinaliza para a possibilidade, sempre presente, de resistência contra essa redução da vida à pura manifestação do poder. Na intempestividade de sua fuga, é a potência dos seus afetos que consegue dobrar os dispositivos biopolíticos que organizavam sua existência.

O Trailer do FIlme

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One Comment to “Lost in Paradise Tokyo de Kazuya Shiraishi”

  1. admin disse:

    (comentários importados manualmente)

    renatocinema disse…

    Gosto muito da animação oriental. Filmes gosto de Kurosawa. Vou tentar assistir esse. abs
    28 de outubro de 2010 07:56

    Leandro disse…
    Renato,

    Também gosto de animações orientais, mas gosto ainda mais dos filmes tradicionais, especialmente os japoneses e chineses. Sempre me encantam. Tomara que o Lost in Paradise entre em cartaz futuramente.

    Um abraço

    Leandro

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