Maradona by Kusturica

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O documentário de Emir Kusturica não faz uma narrativa objetiva e detalhista da vida do grande jogador argentino, mas um relato impressionista e emotivo, que enxerga uma forma de existência muito particular em Maradona. Para o diretor, a figura do argentino pode ser dividida em duas: de um lado, o extraordinário jogador, capaz dos lances mais geniais, o que lhe permitia um domínio completo do mundo criado entre as quatro linhas do campo; do outro lado, o sujeito normal, que tropeçou muito na vida e acabou dominado pelo vício e pela dependência química. A genialidade de Maradona, segundo Kusturica, está na possibilidade de anulação dessa normalidade, limitada e empobrecida, mesmo que por um breve intervalo de tempo, o tempo do jogo. É nesse tempo que Maradona se afirma, excede sua própria vida, consegue reinar absoluto, sem limites para sua potência: quando passava a linha do cal, Aí…, Aí mandava eu!. É um gesto de pura afirmação contra todas as soberanias, controles e poderes, contra tudo que produz a vida nua de todos os dias. O drama do jogador, porém, é que esta potência excessiva, uma potência dionisíaca, acabava sendo recapturada na normalidade da vida. É o drama do fim da partida, o fim da potência. Maradona fala bastante sobre isso, sobre o desejo de se exceder sempre, do gozo irrestrito desta força criadora, da poética da bola. É a vida que não cansa de demonstrar a impossibilidade desse desejo: sabe que jogador teria sido eu, se não tivesse tomado cocaína? Que jogador perdemos… fico amargurado, queria ter sido muito mais que sou… Queria… sim. Essa maneira de existir, contrapondo a pequenez da vida com a grandeza do jogo, do querer-ser sempre mais, é o que alimenta tanta devoção e admiração em torno da figura de Maradona. Ele, como nenhum outro, transformou o jogo numa estética, numa espécie de estética da existência, repleta de entusiasmo e energia, muito distante da fria e mesquinha normalidade. Isso que é raro e que o transforma numa figura particular e única. São poucos que conseguem inspirar essa potência preciosa com tanta intensidade como Maradona. Afinal, como ele mesmo diz, a bola nunca se suja.

Por falar em entusiasmo, uma das cenas mais bonitas do filme é quando Maradona canta a música La mano de Dios do argentino El Potro Rodrigo. Vale assistir: http://www.youtube.com/watch?v=skqSasWQc5c

 

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