Match Point

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Match Point (2005), um dos filmes mais recentes de Woody Allen, conta a história de Chris Wilton, um jovem tenista que abandonou as quadras em busca de oportunidades para construir uma vida estável e séria. Para tanto, se emprega em um clube aristocrático de Londres, onde trabalha como professor de tênis. A atividade, porém, não passa de um emprego transitório, enquanto aguarda uma chance mais promissora. A chave do filme reside nisso: a chance. Nesse sentido, é importante observar que a palavra, segundo o dicionário Houaiss, provém do termo francês chéance, cujo significado é a “maneira que os dados caem”, seja ela favorável ou desfavorável. A metáfora do filme não é bem os dados, mas a bola de tênis que raspa na fita da rede. Ela pode cair de qualquer lado da quadra, é um lance absolutamente imponderável, capaz de alterar os rumos de uma partida.

Wilton é muito cônscio desse caráter arbitrário da vida. Ele sabe que o jogo do mundo é um jogo de chances, e vive segundo este saber. Como ele diz: “O homem que disse: ‘prefiro ter sorte a ser bom’ entendeu profundamente o sentido da vida. As pessoas temem ver como grande parte da vida é dependente da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle. Há momentos no jogo, em que a bola bate no topo da rede e, por um segundo, ela pode ir para o outro lado, ou voltar. Com um pouco de sorte, ela cai do outro lado. E você ganha. Ou talvez não caia. E você perde.”

E parece que nosso protagonista é um sujeito de sorte. Os dados logo lhe sorriem: durante suas aulas, ele conhece, tornando-se rapidamente muito íntimo, Tom Hewett, um jovem aristocrata muito rico e influente. Com isso, começa a freqüentar sua família e se envolve com sua irmã, Chloe Hewett. O relacionamento lhe abre muitas portas nas empresas da família Hewett, o que lhe garante um ingresso promissor no mundo dos negócios. Todavia, o imponderável não tarda a mostrar sua outra face: Chris conhece Nola, uma atriz fracassada, instável e muito sedutora. E logo se apaixona incontrolavelmente.

Com isso, acaba se formando um triângulo amoroso. De um lado, está seu relacionamento com Chloe, que lhe assegura uma vida estável e tranqüila, cheia de confortos e luxos, mas sem nenhuma paixão. Do outro, está seu affair com Nola, cheio de tensão e energia, uma paixão desmedida. O sexo vazio e mecânico com a esposa é contraposto ao sexo desconcertante com a amante. A situação, porém, logo escapa do controle, pois Nola engravida.

A gravidez abala o frágil equilíbrio que Chris tentava garantir em sua vida. Sua amante se recusa a desistir do filho e começa a exigir o divórcio de seu amante. Frente ao inesperado dilema, ele vacila muito, pondera sua situação e tenta de toda maneira encontrar o caminho menos doloroso. Abandonar os luxos da riqueza e abraçar seu desejo inebriante, ou seguir numa vida fria e séria. A sedução do conforto acaba prevalecendo. Contudo, a impossibilidade de romper seu relacionamento, sem abalar seu próprio casamento, provoca uma atitude extrema: o assassinato de sua amante. O plano é meticulosamente orquestrado por Chris, tudo para evita o imponderável. Nada mais vão.

A polícia descobre uma pequena evidência e parece que toda a história vai desmoronar. Mas, novamente a sorte acena para nosso protagonista. Não vale explicar em detalhes, mas num lance absolutamente casual, toda a suspeita do policial cai por terra e Wilton escapa das investigações, tudo que lhe resta é prestar contas à sua própria consciência: “seria adequado se eu fosse preso e punido. Pelo menos seria um pequeno sinal de justiça. Alguma pequena medida de esperança na possibilidade de sentido”. É isso que Chris fala para os fantasmas dos mortos que voltam para lhe assombrar a consciência. Num mundo de chances, indeterminado, pura facticidade, não há espaço para uma justiça transcendental, algo que garanta uma ordem ao universo, um esquadro que traça a linha da moralidade.

Nesse sentido, é muito interessante traçar um paralelo com o livro de Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo. O livro já serviu como ponto de partida para uma infinidade de filmes, só para lembrar dois exemplos bastante diversos: Nina de Heitor Dhalia e Pickpocket de Robert Bresson. O filme de Woody Allen também dialoga com o clássico da literatura russa. Esse diálogo é realizado de maneira muito livre, como se buscasse apenas em trazer ecos da obra para o filme. Esta intenção está anunciada desde o início do filme, quando uma tomada mostra Chris em seu quarto lendo demoradamente a obra de Dostoievsky. Daí em diante, Chris aparece um pouco como um Raskolnikov contemporâneo, um homem desmedido e por isso capaz de realizar qualquer ato.

No livro, porém, há ainda um espaço para redenção e para justiça. O ato selvagem de Raskolnikov não resta impune, sua consciência não lhe permite. Tocado pela paixão de Sônia, o personagem acaba se entregando à justiça para receber sua punição. A justiça se torna possível na medida em que um campo transcendental (a paixão) ainda pode organizar o campo de ação dos agentes. Raskolnikov não deixa de representar a metáfora cristão por excelência: paixão-expiação-redenção.

O diálogo do filme retoma esse dilema, mas invertendo seu sentido. Pode-se dizer que Match Point radicaliza ao extremo a tensão proposta por Dostoiévski. A possibilidade de redenção, que acaba acenando para um horizonte minimamente positivo, é totalmente esvaziada no filme. Isso porque nem mesmo a paixão ocupa um espaço relevante na vida do personagem. O vazio de sua situação domina seu próprio desejo. É disso que nasce a tragédia do filme. A incapacidade de viver seu desejo lhe aprisiona na roda da fortuna, no constante enfrentamento com o imponderável, pura ausência de sentido. A monstruosidade dessa situação é tamanha que não há nenhuma possibilidade de escapatória. Ao final do filme, tudo que vemos é um sujeito destroçado pela suas ações, incapaz de se engajar para adiante.

A idéia do filme, porém, não é recuperar um espaço de moralidade que se perdeu nessa ausência de sentido. Na realidade, há uma espécie de ética que se evidencia a contrapelo do filme. O que vai se revelando é que num mundo carente de sentido, de qualquer tipo de garantia transcendental, é necessário se apegar ao próprio mundo, ao próprio corpo, ao próprio desejo. É como se fosse necessário desembaralhar a paixão da expiação, pois se pode viver apostando na redenção. A facticidade da vida não garante nenhuma justiça, por isso o melhor é escolher um caminho que tente não se aprisionar na pura chance. Nesse sentido, é muito interessante uma observação de Woody Allen a respeito de algumas leituras de seu filme: “as pessoas já vão concluindo que estou dizendo que qualquer coisa serve, mas na verdade estou fazendo a pergunta: dado o pior, como podemos continuar, ou até mesmo por que deveríamos escolher continuar? Claro, nós não escolhemos – a escolha está impregnada em nós. O sangue escolhe viver”[1].

O sangue que escolhe viver, por sinal é a fala de um personagem no filme Neblina e Sombras, é aquilo que impulsiona nossa existência, é o campo dos afetos e desejos, da maneira como afetamos e somos afetados pelos outros. Esse me parece ser o tema central do filme, na falência de todo nosso sistema de moralidade, aquilo que está tão intimamente atrelado ao par punição/justiça, é necessário orientar a existência em direção de um caminho ético, na qual não se nega a dimensão desejante da existência. Uma ética do desejo implica num cuidado com si e com o outro, implica em escolher como seremos afetados e como afetaremos os outros. Nessa relação puramente imanente não existe nenhuma contradição entre a possibilidade de alguma ética e a facticidade da vida, pois não se busca num plano superior a realização de uma justiça do mundo.


[1] Conversas com Woody Allen, p. 172.

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2 Comments to “Match Point”

  1. NR disse:

    Não tinha parado p/ pensar em Dostoievski.. mas realmente faz todo o sentido! Achei esse filme sensacional, e a analogia das decisões da vida c/ a bola de tênis batendo na rede é maravilhosa!
    vou te add la na listinah de blogs no meu ok? bjs

  2. Leandro disse:

    Olá, é muito bacana como o Woody Allen faz uma releitura da obra de Dostoievsky, é um grande filme, um dos meus favoritos. Também vou acrescentar seu blog nos meus favoritos.

    Um abraço

    Leandro

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