Meia Noite em Paris de Woody Allen

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Meia Noite em Paris é uma espécie de fábula sobre a relação dos homens com o tempo e com o passado. Gil, protagonista do filme, é um roteirista de Hollywood que está tentando mudar de vida e de profissão. Cansado das bobagens que escreve, apesar do sucesso que alcança, ele está tentando escrever um romance e tornar-se um escritor profissional. Porém, não é apenas a mudança na profissão que assombra Gil, mas também a iminência de seu casamento com Inez, proveniente de uma rica e conservadora família americana. A ação acontece no meio da viagem que o casal fez para Paris, junto com os pais da moça. Gil encontra-se animadíssimo com a possibilidade de conhecer a cidade que tanto admira. Para ele, não há lugar mais perfeito que Paris. Entretanto, não é qualquer Paris que ele ama, mas aquela do passado, a cidade maravilhosa que existiu nos anos 20. Gil é um homem que possui uma relação quase obsessiva com o passado, tudo lá lhe encanta, as pessoas eram mais interessantes; a cidade era mais bonita; a vida era mais animada. Em contrapartida, o presente não lhe parece tão interessante. É um pouco tedioso, sem muito brilho, meio melancólico. Essa oposição entre um presente apagado e um passado luminoso aparece até no livro que escreve, mas que não consegue nunca acabar, já que o protagonista é um homem que trabalha numa loja de antiguidades. Esse ensimesmamento com o passado aparece contraposto com a postura de outro personagem, o (pseudo)intelectual Paul. Ele, que fora uma antiga paixão de Inez, se encontra em Paris para ministrar algumas palestras na Sorbonne, e encarna a típica figura do erudito: um profundo conhecedor da alta cultura, dos museus, das artes e dos artistas, capaz de discorrer sobre qualquer assunto. No entanto, como todo erudito, ele trata o conhecimento como um mero acúmulo de informações, sem vida, sem utilidade, sem sentido, pura pedantismo. É um homem que domina o passado e a tradição cultural, mas que transforma essa dominação numa coisa estéril e bastante entediante. Enquanto Gil carrega uma intensa paixão pela tradição cultural européia, Paul consegue transformar tudo num misto de apatia e frieza, como que operando uma museificação do mundo. No fundo, porém, os dois possuem algo em comum: o passado é uma forma de fuga ou anulação das virtualidades do presente. É a partir dessa oposição que o filme adquire seu tom fabulatório. Depois de beber excessivamente, e bastante irritado com o pedantismo de Paul, Gil anda sem rumo pela Paris e acaba descobrindo um mundo misterioso. Magicamente, Gil consegue retornar ao passado, para sua tão amada Paris dos anos 20. E lá, encontra todos seus grandes ídolos e heróis: o casal Fitzgerald, Hemingway, Cole Porter, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, entre muitos outros. É uma mágica perfeita, o passado reanimado que alcança o presente, ou melhor, o presente que pode se dobrar em direção ao passado. Por algum tempo, Gil finalmente acredita estar vivendo, sua existência finalmente escapa daquele tédio fulgurante do tempo morto de seu presente. Todos são interessantes, as festas são animadas, as ideias se proliferam de todos os lados. E finalmente, o mais importante, ele conhece a mulher perfeita (Adriana). E assim, Gil passa os dias aguardando o momento de retorno ao tempo perfeito. É a materialização do sonho de todo saudosista, escapar de seu tempo e viver na eternidade da era de ouro. Só que, aos poucos, Gil começa a se dar conta da nulidade de sua fuga, não há nada de afirmativo nesse retorno ao passado, mas trata-se apenas de uma negação de sua própria existência. O livro ainda resta por terminar, seu relacionamento com Inez continua tão tedioso quanto sempre. Sua vida está em suspensão. Aos poucos vai se desvelando o sentido da fábula allendiana, uma espécie de desconstrução desse ideal saudosista que é tão freqüente no senso comum, mas também no pensamento considerado crítico. É bem fácil de perceber a força dessa atração do passado, capturando e organizando o pensamento e as ações. E o pior, quase sempre essa postura ganha a respeitabilidade do pensamento crítico. O presente é uma catástrofe, tudo era muito melhor antes. Ou, as mudanças estão destruindo a essência do homem, da família, da sociedade, da moral, da escola, etc. Gil representa esse olhar que não se desvencilhava do que já passou e não voltará mais. Há uma espécie de mágica nesse raciocínio, já que o presente é decadente, não adianta tentar inventar nada novo, mas apenas repetir o que já passou. Como se a repetição pudesse criar coisas novas. No fundo, esse saudosismo é apenas uma intensa forma de captura das virtualidades, daquilo que as potências afirmativas da ação poderiam criar e inovar. No entanto, Gil consegue se desvencilhar dessa experiência mágica. O retorno ao passado opera um deslocamento, ele começa a se dar conta de que sempre existirá um passado do passado, uma época mais gloriosa do que a que se vive. E num círculo infinito, esse retorno ao passado não é nada mais do que uma forma de evitar o engajamento no presente. Bem ao final do filme, aparece uma outra forma de relação com o passado. Nada do saudosismo ensimesmado, nem mesmo da erudição vazia e apática, mas uma operação muito distinta. Existe uma potência do passado que não tenta se sobrepor ao presente, mas sim ajudar na produção de novas formas de vida, novas formas de enxergar o próprio do presente. E quem materializa isso é Gabrielle, a jovem que trabalha no mercado de pulgas no centro de Paris. Ela admira o passado, mas não deseja lá permanecer, e sim enxergar e criar novos presentes. É isso que a fábula de Woody Allen propõe, uma espécie de engajamento do presente, no qual o passado não é erigido nem em modelo, nem em museu, mas que pode ser constantemente reapropriado pelo presente na busca de uma existência sempre em deslocamento. Não é gratuito que o filme abra com uma série de imagens da Paris contemporânea. O que ele defende é que a única experiência legítima com o passado é aquela que ajuda a enxergar e ver melhor o presente mesmo.

 

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3 Comments to “Meia Noite em Paris de Woody Allen”

  1. Maravilha de texto, Leandro, e reflete exatamente o que eu penso do filme. O mais interessante no filme é que, por mais que todo esse clima de nostalgia seja trazido pelo diretor na forma de uma viagem fantasiosa deliciosíssima, me parece que existe uma bela defesa do tempo presente ali. Gil vai perceber lá no final do filme que o tempo a que ele pertence é o presente, onde ele nasceu, se criou e se formou enquanto pessoa, mesmo que tivesse inspiração no passado. Não dá para fugir disso, negar o passado, mas mesmo assim é possível encontrar inspiração nele para continuar criando no presente. O filme é gracioso do início ao fim. Allen em sua boa forma.

    • Leandro disse:

      Olá Rafael, fico feliz que tenha gostado do texto. Realmente, o filme é muito bom, um dos melhores da produção recente de Woody Allen. E acho que você sintetizou muito bem a questão central do filme, essa relação entre passado e presente. Uma relação que não funciona como uma obsessão, mas de modo a tornar o presente mais interessante e intenso. Acho que é isso que torna o filme tão bacana. Tomara que os próximos filmes de Allen continuem nessa linha. Parece que no próximo, ele atuará novamente. Um abraço e volte sempre, é sempre bom ter os seus comentários por aqui.

  2. Renata Cirilo disse:

    Um momento revelador no filme e para a personagem Gil, foi quando em uma nova viagem ao tempo dessa vez para o ideal de mundo de Adriana, moça do anos 20 que sonha com a Paris da Belle Époque. Acho que foi abservando essa moça que o encantou justamente por ser dos anos 20 e que despreza seu tempo que Gil reflete sobre o valor do presente e que todos os tempos têm.
    E a relação de tempo está sempre ligada as mulheres: o desencanto com o presente vem de um noivado frustrado, o encanto com o passado é encontro com uma nova amante e no retorno para o presente há um novo amor.
    só compartilhando! Gosto tanto desse filme!

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