Melancolia de Lars Von Trier

10

Melancolia me parece o desdobramento extremo das teses que sustentaram Dogville, outra obra de Lars Von Trier. Em ambos os filmes, existe uma espécie de reflexão sobre o mal-estar que subjaz a toda experiência comunitária. Ainda que o tema mereça uma reflexão mais cuidadosa, que pretendo realizar oportunamente, pode-se dizer provisoriamente que Dogville funcionava a partir do desvelo de um vínculo profundo que existe entre comunidade e violência, do qual a protagonista só consegue escapar através da radical dissolução da própria comunidade. Esta erradicação é ao mesmo tempo o limite último, mas também o ponto de chegada de uma violência originária de toda experiência comunitária. Se isto era tematizado diretamente em Dogville, o mesmo não acontece em Melancolia, no qual a questão perpassa o filme inteiro de forma muito mais indireta. Longe daquele clima ameaçador, o que vemos agora é uma situação inicial de desencaixe ou de inadequação. Esta inadequação é o tema central da primeira parte do filme, quando acompanhamos o lento e constrangedor casamento de Justine. Nesse casamento quem tem papel ativo é a irmã de Justine, Claire. Ela, junto com seu marido, aparece como a figura organizadora de todo um aparato litúrgico visando sustentar e administrar a celebração de continuidade da própria comunidade. Não é por acaso que tenha sido um casamento o evento escolhido para expressar esse conflito. Afinal, é a instituição matrimonial que possibilita a continuação e a ampliação dos vínculos de obrigação recíproca que se instauram no interior de uma comunidade. Aceitar o matrimônio é aceitar a imposição de regras implícitas e explicitas que serão doravante compartilhadas pelo casal. Se existe uma violência que perpassa esses vínculos, é por meio do matrimônio que esta violência é voluntariamente aceita e reafirmada. A vitalidade e disposição de Claire contrastam diretamente com o apagamento e a apatia de Justine. É como se os distintos temperamentos das duas irmãs manifestassem o contraste entre a ritualidade, o exagero e o formalismo de uma comunidade que pretende perseverar e uma potência irascível que se mostra totalmente indiferente àquela disposição bem ordenada que denominados de comunidade. Nesse sentido, a melancolia de Justine é a reação que nasce diante da aguda compreensão do que está efetivamente em jogo, afinal ela está prestes a aceitar sua própria sujeição mediante aquela celebração. Essa melancolia – uma espécie de resistência quase apática, mas irresistível, que não pode ser demovida ou superada – acaba se revelando uma potência verdadeiramente ameaçadora, capaz de provocar o desmoronamento de toda liturgia matrimonial. É essa possibilidade de esvaziar a própria ritualidade que sustenta a própria comunidade que promove a passagem para o segundo momento do filme. O que está em jogo, novamente, é um embate entre a manutenção e a desarticulação desses vínculos. Porém, este enfrentamento não é mais expresso na forma de um conflito privado e particular, mas num sentido muito mais radical, no qual a própria continuidade da comunidade humana se encontra ameaçada. Acontece, portanto, uma espécie de deslocamento do drama familiar para um discurso escatológico. A nova ameaçada se materializa no movimento de um enorme corpo celeste que se aproxima da Terra. Não por acaso, esse planeta é também chamado de Melancolia, e tal como aquela potência incontrolável que caracterizou o comportamento de Justine, ele segue seu percurso inabalável e indiferente. É por isso que esta ameaça se mostre tão desconcertante para Claire, afinal ele representa a possibilidade de supressão mais radical daquilo que lhe é caro, a continuidade da comunidade. Diante dessa ameaça iminente, resta-lhe apenas um ponto de sustentação como forma de evitar o pânico absoluto, o discurso litúrgico da ciência. Ainda que com bastante desconfiança, ela acaba cedendo e se conformando com as palavras tranqüilizantes que a ciência, na boca de seu marido, lhe traz: o planeta simplesmente seguirá seu curso, sem abalar a vida humana. Este caráter litúrgico e performativo da ciência causa apenas o desprezo de Justine. Ela é aquela que olha e sabe das coisas, enxergando o vazio que tenta manter unido uma existência condenada. Por isso, ela não lamenta o fim que antevê, afinal ela enxerga na humanidade aquilo que é seu mais profundo substrato, uma espécie de maldade que preexiste e acompanha todo vínculo, toda experiência comunitária. O tema da maldade pode ser visto como uma espécie de retomada dos temas já presentes em Dogville. A única maneira de desarticular a violência que estrutura a própria comunidade é levá-la ao seu limite mais extremo, anulando a própria condição de vínculo humano. A ultrapassagem dessa violência acontecerá apenas no fim dos tempos, quando a própria existência humana se anula.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

10 Comments to “Melancolia de Lars Von Trier”

  1. Gabriela disse:

    Leandro,

    Gostei bastante do seu texto. É uma boa análise. Me resta pensar que ‘Melancolia’, assim como o anterior “O Anticristo’ vêm na linha dos filmes que Von Trier cria a partir de seus permeios com a depressão. Sabe-se que quando profunda e passível de ser tratada por via medicamentosa, a depressão gera a apatia social – justamente esta que quebra com a ‘regra’ comunitária e inclusive de concordância moral – tornando o depressivo persona non grata nos círculos sociais ‘normalizados’. Ele não se espanta, como Justine, com os dissabores das situações mais envergonhantes para o defensor último de uma comunidade socialmente funcional. Fato é que Justine e o prórpio enredo do filme parece muito bem caminhar pelos estados latentes que o depressivo caminha, desde o seu inconsciente, até as suas interações sociais, inevitavelmente desagradáveis.

    • Leandro disse:

      Olá Gabriela, que bom que gostou do texto. Seu comentário também é muito pertinente. É possível refletir dessa forma, mas também penso que a depressão aparece menos como uma forma de patologia do que como uma espécie de desdobramento lógico do próprio vínculo comunitário. Ainda preciso desenvolver melhor essa reflexão, acho que tentarei fazê-la através do Dogville, mas acho que o espírito depressivo de Justine é muito mais um levar ao limite a própria lógica da comunidade, na qual todo vínculo é mediado pela violência e pode, ao final, se tornar a própria anulação da comunidade. Enfim, uma ideia que ainda precisa de melhor aprofundamento. De qualquer modo, gostei muito do filme, achei muito bonito. Um abraço e volte sempre.

  2. Gabriela disse:

    Concordo em parte, Leandro! Mas vou acompanhar seu blog mais vezes! O que penso acontecer é que ‘Melancolia’ vem a ter um forte vínculo com ‘O Anticristo’ (pode parecer besteira, mas note que a forma que os dois títulos são escitos é exatamente a mesma – como quando escrevemos em cima de uma superfície empoeirada ou seuja com o dedo – repare!). Em ‘O Anticristo’ a coisa fica mais latente coma presença de um terapeuta comportamental que tenta, em vão, tratar sua esposa depressiva e pervesa (entre outros distúrbios que ela há de ter!). Fico com grande dificuldade em estabelecer familiaridade entre Dogville e estes dois filmes. Mas bacana, bom ler seu texto. É uma somatória reflexiva, sem dúvida. Abraços e até mais

    • Leandro disse:

      Eu que agradeço seus comentários. Suas colocações deixam a coisa bem mais complexa e me obrigarão a refletir com mais calma sobre o tema e os filmes do Von Trier. Logo que tiver calma, começarei a rever seus filmes e pensar no assunto. Muito obrigado pelos comentários. Um abraço.

  3. Nessa discussão não pode ficar de fora o seminal “Os Idiotas”, em que Von Trier ensaia a ruptura radical com o espírito de comunidade através da performance desestabilizadora. Justine, com seu comportamento anti-litúrgico, é uma “idiota” a confrontar a violência da ordem social.

    • Leandro disse:

      Nossa, as sugestões que vocês propuseram tornam as coisas ainda mais interessante. Preciso rever com cuidado esses filmes e pensar nisso. De imediato só tinha atentado para a relação com o Dogville, mas me parece que a questão pode ser bem mais ampla. Agora fiquei bem intrigado com o tema e quero voltar a ele. Muito boa sua sugestão.

  4. Muito interessante essa proximidade que você fez desse filme com Dogville, embora eu ainda ache que os filmes versam sobre coisas diferentes. Mas não deixam de ser histórias que se concluem muito bem, trazidas à tela por mãos habilidosas (as mesmas mãos que ultimamente pareceia ter se perdido entre as excentricidade de seu dono, como mostram os péssimos filmes anteriores, Anticristo e O Grande Chefe).

    É uma história que caminha para o caos e faz sua protagonista encontrar a paz de espírito. Não acho que seja excelente (odeio as cenas iniciais do filme, me soam pretensiosas e forçadas), mas mostra o quanto o Von Trier ainda é capaz de alcançar a boa forma de antes, sabendo muito bem o que quer dizer com o filme.

    • Leandro disse:

      Puxa, Rafael, eu gostei das cenas iniciais. E também gostei do Grande Chefe. Esse talvez não seja o mais incrível filme, mas achei bacana. Agora sobre o Dogville, é uma situação que está me surpreendendo um pouco. Quando sai do cinema, fiquei com a impressão de que os dois filmes eram muito parecidos. Essa sensação foi tão forte que até pensei que era quase um lugar-comum e que talvez nem valesse escrever sobre o tema. Agora que escrevi é que percebo que muita gente não concorda com essa aproximação. Pode até ser que no fundo, ambos nem tenham tanto em comum e fui mais eu mesmo que forcei a aproximação. Porém, ainda acho que vale tentar experimentar essa aproximação e investigá-la a partir de uma releitura do Dogville. Espero fazer isso num futuro breve. Obrigado pelo comentário e volte sempre. Um abraço.

  5. Soa uma grande pena que o filme tinha sido vetado aqui na Argentina por causa das problemáticas das declarações do diretor em Cannes que causou um extremo mal estar com o pessoal daqui que fez a Distrubition Company Argentina, distribuidora dos outros filmes do diretor, o veto do filme por aqui. O filme agora não tem distribuidor e que infelizmente, quem sofre sem duvida são os fãs do diretor que infelizmente não terão oportunidade de vislumbrar a temática da Melancolia e principalmente os temas embutidos e implicitos de uma nova experiencia sensorial do diretor …

    PS: cago e ando para Lars Von Trier, mas infelizmente, quem perde são os seus admiradores locais.

    Abraços champs.

    • Leandro disse:

      Nossa, eu já tinha lido seu comentário no blog do Pedro e não acreditei nisso. Como que proíbem a exibição do filme na Argentina por conta daquelas declarações. Uma coisa é o personagem Von Trier, que sempre se esforça para ser desagradável. Outra, totalmente diferente, é seu filme. Uma pena que tenha acontecido isso. E nesse caso, resta contar com a internet para ajudar na distribuição do filme.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.