Michel Gondry (um esboço)

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Ano passado, quando estava montando minha programação da Mostra Internacional de Cinema, descobri que seria exibido o filme “novo” de Michel Gondry, diretor do belíssimo “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança” (2004). Novo não era propriamente o termo certo, afinal o filme, “La Science des Rêves”, era de 2006. De qualquer modo, não fora exibido por aqui, nem seque lançado em DVD. Fiquei bastante animado, mas infelizmente muita gente também ficou e acabei sem ingressos. Depois de muita procura, finalmente consegui encontrar o filme na Internet. E de quebra, consegui baixar também seu trabalho mais novo, “Be Kind Rewind” de 2007. Gostei bastante de ambos. O que mais me agradou foi perceber como esse jovem diretor está construindo uma linguagem bastante própria e interessante.

O que chama atenção nos seus filmes é a forma como a realidade vai sendo borrada pela inconstância das lembranças e dos sonhos, criando uma atmosfera meio surreal e um pouco nonsense. Em “La Science”, o protagonista Stephane, interpretado por Gael Garcia Bernal, vive embrenhado em um mundo no qual seus sonhos se interpenetram com sua vida real, servindo como um escape da realidade asfixiante de um emprego banal. Esse movimento acaba tornando meio difusa a linha que separa a realidade e os sonhos de Stephane. Suas pequenas epifanias oníricas vão ganhando uma materialidade, o que acaba por afastar o personagem daqueles que estão próximos, deixando-o cada vez mais preso em seu mundo.

Essa experiência, mediada pela subjetividade, pela interiorização do sonho, acaba redundando em uma dificuldade de comunicação, de um isolamento, de uma fratura na sociabilidade, nas possibilidades de interação entre os personagens. Em alguma medida, esse é o tema também do “Brilho Eterno”, expresso pela falência do relacionamento do casal protagonista. Da incapacidade de se comunicar o que resta é virar-se para dentro, e esforçar-se por obliterar qualquer vínculo mais duradouro.

O par lembrança/sonho acaba ganhando uma concretude violenta no universo de Gondry. Isso, no entanto, não elimina a dimensão lúdica dessa experiência. Na verdade, algumas das cenas mais belas de “La Science” são, justamente, os sonhos de Stephane, construídas com soluções simples, mas bastante surreais. Tudo muito colorido, muito expressivo. A força das imagens é tremenda, emulando o efeito de um vídeo-clipe. Não é gratuito que uma boa parte da produção de Michel Gondry, para além de seus filmes, seja desses clipes.

Esse esgarçamento do tecido social é um tema recorrente na produção do diretor francês, sendo retomado em “Be Kind”. No filme, Jack Black e Mos Def interpretam dois colegas que, após estragarem todas as fitas de uma locadora, começam a criar suas próprias versões dos filmes. O lado nonsense volta a tona com as filmagens toscas que a dupla vai realizando. A diferença é que aqui há um olhar um pouco mais leve sobre o tema do isolamento, a virada para o interior se dá de outra forma. A experiência de refilmar os filmes é compartilhada pela vizinhança, o que consegue restabelecer uma certa sociabilidade.

O filme acaba tratando novamente da lembrança e do sonho, mas em outra chave. Neste, a questão é tentar preencher de sentido uma experiência que, por natureza, é vazia. O ponto máximo desse processo é a construção coletiva de um documentário ficcional, baseado apenas na imaginação da vizinhança. O que era antes um movimento para dentro, uma introspecção onírica, acaba se tornando um ato coletivamente compartilhado.

Além disso, a idéia do documentário retoma uma questão que também aparece nos seus demais filmes: o caráter fluido e artificial das lembranças. Em “Brilho Eterno” isso se dá de maneira negativa com a possibilidade de apagar memórias dolorosas, remover aquilo que não pode mais ser vivenciado. Na impossibilidade de se curar dos traumas, de viver o luto da perda, há uma negação da experiência.

Já em “Be Kind” isso funciona num sentido inverso, numa perspectiva positiva, criadora. A comunidade em torno da locadora “inventa” um passado, um conjunto de fatos e acontecimentos, toda uma trama narrativa, para construir um documentário que dê sentido para suas experiências. A história a ser contada não precisa ser verdadeira, na acepção forte do termo, para ter um significado.

Em alguma medida, no mundo de Gondry há um nítido descolamento entre uma realidade do mundo, algo como os “fatos como eles são”, e as possibilidades de narrar essa realidade. Constatação banal, eu sei. Mas a pretensão positivista de narrar o mundo continua permeando o universo dos historiadores. Os filmes de Gondry, assim, servem como uma interessante possibilidade de reflexão sobre o frágil estatuto de nossa suposta realidade.

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One Comment to “Michel Gondry (um esboço)”

  1. Lonely Paul disse:

    Hello

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