Monsieur Verdoux

2

Monsieur Verdoux é um dos últimos filmes de Charles Chaplin, finalizado em 1947. O filme conta a história de Henri Verdoux, um bancário que, após a crise de 1929, perde seu emprego e toda possibilidade de sobrevivência digna. Na impossibilidade de conseguir um novo trabalho, Verdoux encontra uma forma de sustentar sua família: torna-se um verdadeiro barba-azul, desposando e assassinando diversas mulheres. Verdoux é um personagem cínico e um pouco cruel, porém é também dono de uma sensibilidade aguçada, capaz de cultivar belas rosas ou demonstrar grande compaixão pelos menos afortunados. Seu cinismo é uma resposta aos tempos sombrios no qual vivia. Para ele, matar nada mais é do que uma resposta legítima, uma maneira de resolver seus problemas financeiros, de garantir novamente alguma dignidade para sua família. Matar não implica, assim, em nenhum comprometimento moral. É a quintessência da banalização do mal, do ato violento desconectado de qualquer implicação profunda, um ato puramente mecânico, como cumprir uma ordem ou realizar um trabalho.

O que é curioso, entretanto, é que Verdoux não é retratado de maneira negativa ou especialmente maligna. Na realidade, o personagem é muito simpático, é uma boa figura e conquista o espectador. Esse é o grande lance do filme. Verdoux não é apenas um assassino, um cruel exterminador de mulheres, mas é um símbolo de sua época. Os morticínios da Primeira Guerra Mundial; o esgarçamento social provocado pela crise; a formação de regimes autoritários e totalitários; os preparativos da Segunda Guerra, tudo isso anunciava um mundo sem redenção, um mundo que, como fala o próprio Verdoux, é marcado pelo signo da quantidade: aquele que mata dezenas é um monstro, aquele que mata milhares é um herói. Seus atos evidenciam poderosamente esta lógica de violência.

Seu julgamento se torna, assim, um julgamento da própria sociedade. A impossibilidade de redenção desse universo é muito bem retratada pelo seu relacionamento com a jovem moça. Verdoux a encontrou pela primeira vez durante uma noite chuvosa, quando procurava uma cobaia para testar um veneno capaz de matar sem deixar nenhum rastro. Ela parecia perfeita, sozinha e desprotegida. No entanto, ele rapidamente se encanta com sua personalidade, cheia de esperança e de vida, motivada por um amor entusiasmado com o mundo. Esta expectativa aparece como uma luz capaz de afastar as sombras de Verdoux. O problema é que, ao final do filme, quando toda uma reviravolta derruba novamente o pobre personagem, o reencontro com a jovem moça dissipa todas as ilusões de redenção. Aquele entusiasmo anterior cedeu lugar ao conformismo: cansada de sobreviver nas fímbrias da sociedade, a moça decidiu se relacionar com um industrial do ramo de armas, que aguarda ansiosamente pelo início de um novo conflito global para movimentar seus negócios. Aquela paixão pela vida, que encheu Verdoux de esperanças, já não existe mais. Sobra apenas a completa resignação e o cinismo. Na impossibilidade de agüentar o fardo dessa situação, Verdoux decide se entregar a justiça.

É por isso que ele não pode ser retratado como um vilão, ele é muito mais uma figura trágica, um símbolo da nova ordem que se anunciava. O filme consegue captar com força a descrença no futuro, a impossibilidade de qualquer otimismo com um mundo cínico e resignado. Não deixa de estar relacionado com o contexto americano do pós-guerra, marcado pelo início da perseguição anticomunista, pela diminuição dos direitos individuais e pelo crescimento do autoritarismo. Chaplin, como se sabe, foi também uma vítima dessa situação. Monsieur Verdoux sofreu cortes, foi questionado e mal recebido pelo público americano. Apenas alguns anos depois, no início da década de 1950, Chaplin é obrigado a abandonar os EUA em busca de um refúgio menos opressivo. O filme fala de um tempo sombrio, fala do cinismo como uma ferramenta assaz necessária para a banalização do mal, do massacre como uma ferramenta legítima da política. Verdoux é, ao mesmo tempo, a trágica figura de seu tempo, mas também uma grande crítica desta ordem. A força do filme reside nesse aspecto, nessa tensão. O final, muito pessimista, é fruto dessa impossibilidade em encontrar uma escapatória desse universo. Nosso universo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Monsieur Verdoux”

  1. Joseanne Guedes disse:

    Parabéns pelo blog.
    Esse filme repensa a poética chapliniana de forma brilhante. Sua inquietude diante das crueldades do mundo. Seu discurso final é semelhante ao discurso de "O Grande Ditador". É o próprio Chaplin. E o que vemos é o bom e velho Carlitos caminhando de costas.
    Abraço,

    Joseanne Guedes

  2. Leandro disse:

    Olá, obrigado pelo elogio. Este filme é certamente um dos melhores do Chaplin, o discurso final é genial.

    Até mais

    Abraço

    Leandro

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.