Moonrise Kingdom de Wes Anderson

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O novo filme do diretor americano Wes Anderson, Moonrise Kingdom, é uma preciosa reflexão sobre a pureza de um amor infantil, capaz de desarticular toda a rigidez normatizada do mundo adulto. Para isso, a trama se passa numa pequena e isolada ilhada da Nova Inglaterra dos anos 1960. Os protagonistas do filme são duas crianças, Sam e Suzy. Ambos vivem marginalizados no pequeno mundo dos adultos, configurando aquilo que é comumente chamado de criança-probema. Ele é um escoteiro órfão e não se adapta bem ao ambiente familiar do seu lar adotivo, alem de ser discriminado e ignorado pelos demais escoteiros. Ela é a garota introspectiva e isolada, igualmente inapta para se relacionar com a família e taxada como a filha “com dificuldades de comportamento”. A sensação compartilhada por ambos de estranhamento com a norma social parece que funciona como uma poderosa conexão recíproca. Após um breve e fugaz encontro, cada um enxerga no outro a possibilidade de vivenciar uma experiência de descoberta do mundo a dois, como se pudessem compartilhar o fardo do estranhamento, desligando-se de um mundo que não lhes pertence. E essa possibilidade de abandonar o mundo das normas e das inadequações se materializa na fuga. Após um planejamento minucioso, Sam elabora uma espécie de viagem de descoberta, a qual seria realizada ao lado de Suzy. Essa experiência, porém, não é aceita pelos adultos da ilha, provocando uma longa perseguição contra aquelas crianças que simplesmente se recusam a viver dentro das normas. É assim que aquela aparente inadequação se revela muito mais como uma expressão de um olhar infantil ainda aberto para a inocência mágica do mundo, para a pureza de um mundo sem tantas normas. Encontramos, portanto, uma contraposição radical entre as ações das crianças e dos adultos. No fundo, são esses que se mostram incapazes de vivenciar qualquer tipo de relação diante do outro, de compartilhar uma experiência ou de existência a dois. O casamento falido dos pais de Suzy, a vida solitária do policial, ou mesmo a frieza do líder dos escoteiros, tudo revela uma espécie de vazio ou de ausência na maneira como os adultos encaram o mundo. Não existe possibilidade nenhuma de encontro, de descoberta do outro. Já a fuga do casal de crianças é repleta de momentos de verdadeiro encontro, da descoberta alegre e recíproca do outro que está diante de si. Como sinceros enamorados, o casal consegue enxergar toda a potência de uma estar-junto, como na linda cena da música na beira do rio. Existe uma espécie de mágica nesse momento, a mágica que advém da excepcionalidade, daquilo que consegue dobrar a anomia de uma existência cheia de regras e normas. Contra a apática existência dos adultos que os rodeiam, Sam e Suzy parecem dispostos a levar ao limite a possibilidade de estar-juntos, produzindo a mais radical recusa da norma: a deserção do mundo ordenado. Esse projeto, entretanto, acaba sendo abortado e é ai que o filme opera um movimento final, bastante sensível e belo. Ainda que incapazes de realizar a completa negação daquele mundo, as duas crianças se mostram capazes de realizar uma dobra sobre a própria norma. O estar-junto se revela uma potência poética capaz de criar e recriar novas maneiras de existência, como na incrível cena do casamento. Afinal, este é talvez o ritual mais exemplar dessa existência normatizada, mas que é completamente subvertido pelos dois. Por isso, essa relação infantil se mostra o mais intenso caminho para a (re)descoberta da alteridade do próprio mundo.

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One Comment to “Moonrise Kingdom de Wes Anderson”

  1. Renata disse:

    Lindo texto, também, o filme inspira! Muito agitado, cheio de reviravoltas, o pequeno casal em busca de um lugar no mundo, construído a partir do relacionamento deles.
    Seu texto compõem bem o mundo adulto e infantil, a troca de valores entre eles que o filme prospecta, belíssimo!

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