Mutum

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O tema do olhar infantil é um motivo recorrente em filmes recentes. Não é difícil encontrar exemplos: Kamchatka, O ano que meus pais saíram de férias, Machuca, Io non ho paura, Ninguém pode saber, etc. São filmes no qual a infância, o olhar da criança, precisa tentar decifrar um mundo dolorido, de perda e dificuldades. No entanto, apesar do sofrimento, esses filmes conseguem criar um certo ar lúdico e poético, um ar próprio do mundo infantil, algo em desuso em nossos dias. Acho que Mutum pode ser situado nessa mesma temática. O filme de Sandra Kogut é uma adaptação do conto Miguilim de Guimarães Rosa, contando a história de uma família no sertão de Minas Gerais. No entanto, essa adaptação não se preocupa em seguir fielmente a narrativa do conto. Na verdade, o filme é bastante despojado de uma narrativa muito elaborada. Vemos uma sucessão de pequenos episódios, as vezes amarrados de forma bastante tênue, nos quais o menino Thiago vai aprendendo a lidar com a dor da perda, da separação, da mudança, da partida. Essa é a grande beleza do filme. A dor enxergada pelo espírito infantil de Thiago. Assim, quando seu irmão está convalescendo na cama, o garoto tenta ensinar um papagaio a falar o nome do seu irmão. Ou a felicidade do menino em lavar a cachorrinha Rebeca. Essas pequenas sensações vão sendo ofuscadas pela perda: do irmão, do cão, do tio, do pai. Esse contraste vai criando uma história simples e sensível. Simples porque é quase crua, sem atores profissionais, sem trilha sonora, sem narrativa em off, sem efeitos. Apenas a beleza das cenas e da atuação comovente dos meninos. É o olhar infantil que está em foco. Nesse sentido, o final do filme é especialmente belo, quando o menino redescobre o mundo ao colocar um par de óculos antes de partir do Mutum. É o momento de começar a abandonar a infância e enxergar o mundo com novos olhos, olhos cada vez mais tristes…
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2 Comments to “Mutum”

  1. ptvmj disse:

    Belas palavras sobre um belo filme no qual as imagens dizem mais do que as palavras…
    bas
    Danilo

  2. Leandro disse:

    Danilo, valeu pelo elogio.

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