Não me abandone jamais de Kazuo Ishiguro

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Não me abandone jamais, do escritor Kazuo Ishiguro, cria uma rara e intensa distopia  literária. É difícil não ficar assustado e tocado pela história narrada por Kathy, uma cuidadora de 31 anos que está prestes a abandonar sua função e tornar-se, finalmente, uma doadora. Nessa posição terminal, a narradora-protagonista começa um longo e saudoso processo de rememoração dos seus anos de juventude. Num tom nostálgico, Kathy relata suas lembranças de infância no colégio interno de Hailsham, onde estabeleceu uma íntima amizade com Ruth e um amor meio platônico por Tommy. Em seguida, tenta entender como esse relacionamento foi arruinado após a partida dos três para o Casario, uma espécie de grande república estudantil que precede os treinamentos para a função de cuidador. Seu relato termina com um acerto de contas, a partir do reencontro dos três, com Kathy já na condição de cuidadora dos dois.

Estas lembranças são marcadas por uma mistura de esgotamento e resignação, como se o futuro já estive ausente do horizonte de Kathy. E pouco a pouco, fica claro que esse vazio está diretamente relacionado com a condição mesma de existência dos personagens. Isto porque Kathy, Ruth, Tommy, bem como todos os demais alunos de Hailsham e do Casario, são clones criados com um único propósito: servir de material para a ciência médica tratar e curar as pessoas normais. Por isso, todos se tornarão, eventualmente, doadores, ou seja, deverão doar seus órgãos para tratar as doenças dos humanos.

O papel dos cuidadores é garantir os cuidados mínimos – numa posição meio de babá, confidente e enfermeiro – para a sobrevida dos doadores. Com isso, alguns agüentam até quatro doações, uma espécie de condição quase heróica pela dificuldade e pelo sofrimento, mas grande parte não passa da segunda ou terceira doação. O cuidador acompanha seus doadores pelos hospitais do país (a história se passa no interior da Inglaterra em meados dos anos noventa. No universo da obra, a clonagem se tornou uma realidade no imediato pós-guerra, por isso não se trata propriamente de uma realidade futura, como numa ficção científica tradicional) num trabalho intenso e desgastante, no qual poucos agüentam muito tempo.

Por sinal, Kathy é uma cuidadora especialmente boa e eficaz, por isso cumpre um tempo recorde: mais de onze anos auxiliando inúmeros doadores. Ela sabe que seu tempo está perto do fim e fala disso com certo alívio, afinal todos que lhe são próximos invariavelmente acabaramconcluídos (é esse o termo que usam para tratar da morte provocada pelas doações).

Por esta razão, Kathy está cada vez mais próxima de uma condição terminal, agora num novo sentido, não apenas de encerramento de uma atividade longamente desenvolvida, mas sim o iminente fim da própria existência. Esta impossibilidade de seguir adiante marca profundamente a narrativa de Kathy. É como se ela só pudesse lançar seu olhar para trás, no passado idealizado e perfeito. Este ponto é fundamental para compreender a condição mesma desses seres, quase-humanos, sub-humanos. A eles não está reservado nenhum espaço de ação, são vidas absolutamente moduladas, controladas e desprovidas de opções. Como disse uma das professoras de Hailsham: suas vidas já foram mapeadas. Vocês se tornarão adultos e, antes de ficarem velhos, antes mesmo de entrarem na meia-idade, começarão a doar órgãos vitais. Foi para isso que todos vocês foram criados. Vocês não são como os atores que vêem nos vídeos, não são nem mesmo como eu. Vocês foram trazidos a este mundo com um fim, e o futuro de vocês, de todos vocês, já está decidido.

Essa existência exígua e limitada, obviamente, se torna um forte motivo de angústia e preocupação. Muitos ficam tentados a imaginar como seria se fossem normais, se não fossem apenas clones. O desejo de uma existência não-determinada aparece através da figura dospossíveis. Como Kathy explica lá pelas tantas, como todos nós havíamos sido copiados de uma pessoa normal, então tinha de existir, para cada um de nós, um modelo original tocando a sua vida. O que significava, ao menos em tese, que seria possível encontrar essa pessoa de quem fôramos modelados. E com isso, poderíamos ter uma leve noção de quem éramos lá no fundo e, também, quem sabe, que enxergaríamos parte do que a vida nos reservaria.

Nesse sentido, o que vai se configurando é uma situação na qual está em jogo a própria possibilidade de subjetividade. O que somos? Essa questão percorre todos os personagens ao longo da obra, talvez seja por isso que Kathy decide tão obstinadamente recuperar o seu tempo vivido: afirmar suas lembranças não deixa de ser uma afirmação limitada de si própria, de sua interioridade e sentimentos, da possibilidade mesma de um clone ter alma. De maneira análoga, Hailsham foi criada com o objetivo de demonstrar ao mundo humano que estes seres não são apenas um apanhado de órgãos, mas singularidades passíveis de subjetivação.

O grande objetivo da escola era demonstrar para o mundo que, quando criados num ambiente humano e culto, os alunos podiam se tornar tão sensíveis e inteligentes quanto qualquer ser humano normal. Para isso, os alunos viviam num ambiente agradável e voltado exclusivamente ao aprendizado e desenvolvimento das potencialidades individuais. Nada era mais importante do que a produção artística. Todo aluno era incentivado a produzir diferentes obras, que eram expostas e trocadas entre a comunidade. Além disso, havia uma espécie de grande prêmio para as melhores obras: eram selecionadas para a Galeria.

Ainda que os alunos não tivessem inteira consciência do que significava a Galeria, todos sabiam que era importante se esforçar e mostrar um interesse especial por estas atividades. A proposta dos idealizadores de Hailsham era mostrar ao mundo exterior, através dessas expressões artísticas, aquilo que aproximava os clones de uma humanidade normal: as emoções. O que estava em jogo era todo um esforço de humanização e melhoria das condições gerais dos clones, muito diferente do modo tradicional de criação destes seres. Em todas as demais instituições voltadas para esse fim (o livro dá a entender que existem inúmeras espalhadas por toda parte), reina a miséria e indigência absoluta: os clones eram tratados exatamente como eram vistos, como seres de segunda categoria.

Porém, apesar de todos esses esforços, novamente, continua existindo um limite que não pode ser transposto: a linha que demarca a separação entre a normalidade do homem e a condição sub-humana dos clones. Nem mesmo os idealizadores de Hailsham dispunham dos instrumentos necessários para a abertura de novas possibilidades de devires. Apesar de tudo, Kathy e seus semelhantes continuarão presos ao maquinário biopolítico que os gestou, serão sempre vidas que não merecem ser vividas, bem ao feitio da formulação de Giorgio Agamben. Afinal, é a matabilidade desses seres que possibilita a afirmação mesma de uma humanidade sadia e feliz, na qual o futuro se manifesta como um espaço de múltiplas potencialidades.

É dessa condição que nasce todo o horror da obra. Longe de ser apenas um texto de ficção científica, Não me abandone jamais é muito mais uma reflexão sobre a condição mesma de existência no mundo contemporâneo, no qual o estado de exceção se converteu em norma da política. Nesse sentido, os clones metaforizam uma cisão decisiva: aquela estabelecida de um lado entre os viventes subjetivados, com suas existências “livre” (atente que este livre precisa ser entendido com muito cuidado), indeterminadas e por isso lançadas num tempo irrestrito e aberto; de outro, os viventes mais e mais dessubjetivados, postos sob os desígnios do puro maquinário governamental, sem tempo, sem futuro.

É nesta cisão que se torna compreensível a ideia de vida nua, ou seja, despojadas de todo estatuto políticodestituída de garantias e seguranças, vidas que podem ser retiradas sem qualquer custo. Não é difícil imaginar quem são os clones na sociedade contemporânea: todos aqueles que de tão excluídos e desprovidos de qualquer coisa se tornam uma ameaça à vida política “normal”. Nunca é demais lembrar como o estado de exceção funciona a partir da constante fabricação de “inimigos”, de “terroristas”, de “cobaias”, etc. A grande questão é que esta cisão não funciona de maneira estanque e a humanidade de hoje, em função dos desígnios do poder, pode rapidamente se converter nos clones de amanhã. A grande inovação da biopolítica é justamente essa possibilidade de borrar estas divisões, abrindo a possibilidade cada vez maior de uma lógica totalizante sobre a vida e a morte, todos e cada um podem se tornar tais vidas nuas.

PS: A obra foi lançada no Brasil em 2005 pela Companhia das Letras. Também está sendo lançada uma adaptação fílmica da obra, que estreou no mercado internacional nesta semana e deve ser lançada aqui no início de 2011. No trailer parece que a adaptação é bastante fiel e interessante. Enquanto o filme não é lançado, recomendo vivamente a leitura da obra. Um livro genial e que já foi escolhido como uma das melhores obras literárias da década.

O Trailer do Filme:

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