Não me Abandone Jamais de Mark Romanek

2

 

O filme Não me Abandone Jamais é baseado no excelente romance homônimo de Kazuo Ishiguro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras). A adaptação aparentemente retoma o tema do livro com bastante fidelidade, ainda que falte um bom tanto de sutileza ao filme. Uma das coisas surpreendentes no livro era a tensão estabelecida entre um passado idílico, o qual era rememorado pela narradora-protagonista (Kathy), e a realidade aterradora que vai pouco a pouco se desvelando no presente da narrativa. O filme, porém, abre mão dessa tensão e revela logo de partida a condição trágica dos personagens. A trama acontece numa espécie de realidade alternativa, ou mesmo num ambiente de ficção científica, na qual aconteceu um grande avanço médico em meados do século passado. Os cientistas conseguiram desenvolver uma tecnologia capaz de clonar seres humanos, o que tornou possível a criação de dispositivos terapêuticos capazes de prolongar imensamente a expectativa de vida dos seres humanos.

A trama gira em torno de três personagens, Kathy (que também é aquela que narra a história), Tommy e Ruth. O que torna esse universo trágico, por isso a obra também pode ser vista como uma espécie de distopia, é que os protagonistas são clones e encontram-se na iminência de suas conclusões(esse é o termo que os personagens usam para se referir à morte). Diante desse futuro interrompido, Kathy tenta realizar um acerto de contas com seu passado, relembrando os momentos importantes que passou ao lado de seus dois grandes amigos.

A discussão que perpassa o filme é justamente que tipo de existência é possível para estes seres que vivem uma existência tão determinada e controlada. Desde pequenos, as atividades em Hailsham (o colégio interno no qual os três passaram a infância) sempre foram direcionadas para um cuidado excessivo com a saúde e o corpo. A alimentação era controlada, todos eram proibidos de adotar hábitos pouco saudáveis (como fumar), as visitas aos médicos eram periódicas. A primeira memória que Kathy recupera desse período é a palestra da diretora, na qual ela explica que os alunos de Hailsham são especiais. Por isso, manter-se saudáveis, gozar de boa saúde interna é de suma importância. Essa preocupação com a saúde e com o corpo é acompanhada por um controle obsessivo do tempo e do espaço.

As crianças usam dispositivos de localização e controle quando entram e saem de todos os prédios da escola (e como veremos mais adiante, quando os três partem para uma nova etapa formativa no casarão, lá também há dispositivos que controlam a entrada e saída de todos). Esse controle obsessivo do corpo e das ações também reflete na formação do caráter. A instituição escolar dedica um enorme esforço para o desenvolvimento das capacidades intelectuais e artísticas dos pequenos seres, estimulando até uma espécie de exposição com as produções de cada um deles. A escola também ensina os princípios mínimos de sociabilidade, afinal chegará um momento no qual eles precisarão interagir com o mundo exterior. Então, eles precisam ensaiar o que farão quando estiverem em cafés ou restaurantes, ou em qualquer outra situação análoga. Tudo funciona através do mais estrito controle e da mais rígida disciplina.

Há, porém, um momento de insubordinação, quando uma das professoras decide revelar toda a verdade aos pequenos alunos. É nesse ponto que o filme opera uma contraposição entre duas modalidades de existência. A professora começa perguntando se é possível saber o que acontece com as crianças quando elas crescem e se tornam adultas. Ninguém responde. Então, ela diz que realmente não é possível saber o que será do futuro, alguns podem crescer para se tornar atores e se mudar para a América, ou podem trabalhar em supermercados ou podem se tornar professores. Ela segue enumerando vários exemplos, assinalando para a possibilidade de um futuro aberto, indefinido e imprevisível.

Porém, existe outra forma de existência, aquela que é compartilhada por todos os alunos de Hailsham. Ela diz que no caso deles nós sabemos o que será dos seus futuros, nenhum de vocês irá para a América ou trabalhará em mercados. Nenhum de vocês fará nada além de viver uma vida pré-estabelecida, vocês se tornarão adultos, mas apenas brevemente, antes que envelheçam, antes mesmo da meia idade, irão começar a doar órgãos. Ao contrário daquela existência livre e imprevisível, existe uma que não é livre, nem aberta.

É essa a tragédia da condição clônica, viver uma existência incompleta e determinada. Noutra ocasião, esbocei algumas reflexões sobre essa forma de existência, uma forma de subjetivação incompleta e parcial, por isso não me alongarei aqui. Parece, no entanto, existir uma possibilidade de redenção, de reingresso na ordem das subjetividades plenas, na ordem do humano propriamente. Essa possibilidade reside na existência de um amor sincero e verdadeiro. É nesse momento que o filme resvala com mais intensidade no melodramático, chegando próximo do constrangimento em algumas cenas. Tommy e Kathy, além de amigos íntimos, desenvolveram uma relação amorosa irrealizada e é apenas bem próximo do presente da narrativa que os dois ficam juntos, quando decidem buscar alguma maneira de prorrogar a existência de ambos.

Entretanto, mesmo essa chance de redenção através do amor acaba não funcionando de fato. Kathy e Tommy encontram-se irremediavelmente lançados nessa existência vacilante e fechada. Parece existir uma impossibilidade fundamental de superar a demarcação que marca o humano do inumano, a normalidade do homem contra a existência subumana dos clones. Nesse sentido, a figura clônica poderia muito bem funcionar como uma espécie de metáfora da contemporaneidade, na qual há uma constante produção de vidas que não merecem ser vividas, nos dizeres de Giorgio Agamben. É como se o humano só pudesse existir à custa daquilo que é colocado pra fora da órbita da humanidade.

O problema é que o filme acaba esvaziando essa possibilidade na sua cena final. Depois da conclusão de Tommy e o aviso de que iniciará suas doações, Kathy parte para uma última viagem pelo campo, refletindo sobre o sentido de sua existência. Durante esses devaneios, ela percebe que não sabe ao certo se sua vida foi tão diferente das vidas das pessoas que salvará. Todos concluiremos e talvez nenhum de nós realmente entenda o que passamos ou sinta que tivemos tempo o bastante. Nessa reflexão final, Kathy acaba reconciliando sua condição clônica com aquela da humanidade. Isso enfraquece bastante o sentido político que perpassava o discurso do filme, recolocando a trama em termos existenciais. Nesse momento, o grande problema do filme acaba se reduzindo a uma preocupação com a finitude da existência, colocada da maneira mais banal e plana.

Esse esvaziamento do sentido político, ou melhor, da possibilidade de uma leitura política do filme, acaba diminuindo bastante o interessa do filme. No final das contas, a trama não passa de um melodrama com tintas de ficção científica. É nesse ponto que a adaptação se afasta com mais radicalidade do livro que lhe originou. Além de suas qualidades propriamente literárias, o romance tinha uma força política muito grande. No final das contas, o filme serve apenas como um bom motivo para o retorno ao livro e aos problemas lá tratados.

(Texto publicado originalmente em Cinefilia: cinema para ver e discutir)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Não me Abandone Jamais de Mark Romanek”

  1. Mariana Thibes disse:

    Muito bom o texto. Esse filme me incomodou pelo excesso de melodrama, mas o tema não deixa de ser “da pesada” e interessante. Fiquei curiosa para saber como o livro termina, porque, pelo que você disse, é bem melhor do que o filme, não?
    Abs,
    Mariana

    • Leandro disse:

      Mariana, o excesso de melodrama acaba tornando a história bem menos impactante. O livro é realmente muito forte, muito triste. Não dá pra ficar marcado pela leitura. Recomendo de verdade a leitura. E o livro acaba mais ou menos da mesma forma, mas sem aquela fala final que mencionei no texto. E isso pra mim dá um sentido bem diferente pro livro. Um abraço. Leandro

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.