Neblina e Sombras

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Woody Allen realiza, constantemente, um diálogo com o cinema em sua produção. Sua obra está recheada de filmes que falam de outros filmes, de filmes que homenageiam outros filmes, de filmes que se inspiram em outros filmes. Neblinas e Sombras (1992) é um excelente exemplo desse esforço respeitoso, criativo e inventivo do diretor em trabalhar com o cinema como matéria-prima de seus filmes. No caso, o cinema não é exatamente o tema central da narrativa, como em A Rosa Púrpura do Cairo ou em Dirigindo no Escuro. Mas, o filme todo é construído como uma grande homenagem ao expressionismo alemão. A história, uma adaptação de sua peça Morte, é simples: Kleinman (interpretado pelo próprio Woody Allen), um burocrata com uma vida bastante ordinária, é acordado no meio da noite por uma organização de vigilantes que estão perseguindo um misterioso assassino; meio sem saber o que deve fazer, ele recebe ordens de circular pela noite cheia de neblina atrás do sanguinário vilão. No meio dessa confusão, ele encontra uma artista do circo que visita a cidade, fato que provoca uma reviravolta na sua vida. A simplicidade do enredo é contraposta à fotografia muito bela, toda rodada em preto e branco, cheia de efeitos de sombra, num cenário – que foi inteiramente construído em estúdio – meio asfixiante e opressivo, buscando recuperar o clima dos clássicos expressionistas. Este diálogo, no entanto, não serve apenas como um jogo de citações. O que torna tudo muito interessante é a forma como Woody Allen se apropria desta ambientação para construir seu próprio universo cinematográfico.

Este universo, como se sabe, é bastante pessimista. A vida de Kleinman é totalmente opressiva, cheia de humilhações e privações. O personagem rasteja atrás do seu chefe, esperando uma promoção; rasteja atrás de sua noiva; rasteja atrás dos demais membros da organização secreta. Não há espaço para viver. É uma vida nas sombras. Não é por acaso que o assassino simbolize a própria morte, o último laço das sombras que pairam em torno do personagem. Porém, é no campo da ilusão e da mágica, ou seja, no campo próprio do cinema, que aparece uma brecha para a fuga dessa existência. A cena final é bastante exemplar, uma cena que fala da necessidade da mágica e da ilusão para viver uma vida fora das sombras, para inflar com o ato criativo a existência ordinária. É como se na impossibilidade de viver verdadeiramente na realidade, fosse necessário misturá-la com a irrealidade do cinema. Para retratar esta opção nada melhor do que uma homenagem ao cinema clássico.

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