Pra qualquer um com um mínimo de bom senso e discernimento não é difícil enxergar o movimento de transformação da experiência histórica da ditadura militar brasileira num grande monumento que organiza, captura e atribui sentido aos processos políticos contemporâneos. A luta contra o regime de exceção, instaurado no Brasil em meados do século passado, se converteu na grande luta da sociedade civil brasileira, uma luta vencida e superada. São aqueles que nela combateram – os intelectuais, os estudantes, os grupos armados – que agora assumem os postos mais preeminentes da sociedade, prontos para a condução do governo democrático que nasceu de seus árduos esforços. Com a superação do autoritarismo, da tortura e da violência política, basta deixar o livre jogo das forças políticas funcionar e todas as mazelas sociais serão, eventualmente, superadas. Essa é a grande narrativa de nosso presente, disseminada em registros absolutamente diversos (discursos historiográficos, midiáticos, manuais didáticos, etc.), que explica e torna compreensível nossa história e conforma as possibilidades do olhar para nosso futuro. Tudo que escapa das travas mestras dessa narrativa assume uma conotação negativa, desviante, equivocada. E com isso, são as possibilidades mesmas de ação que se tornam cada vez mais vazias e enfraquecidas pela força da narrativa que nos domina. O espetáculo Nekropolis, da turma 10 do curso de Formação de Atores da Escola Livre de Santo André, pode ser visto como um esforço de desconstrução dessa narrativa. Basicamente, a trama trata do julgamento de um grupo terrorista, denominado de a estirpe. Seus membros são os excluídos da cidade e da ação política institucional, do tão precioso “estado de direito”. Na condição de excluídos, eles também são excluídos da linguagem da cidade: eles falam num dialeto próprio, distante e incompreensível, por isso mesmo perigoso, já que guarda uma força capaz de desarticular a lógica da vida política. Por conta disso, estão em julgamento: pela ameaça que representam para a democracia da cidade. Uma ameaça materializada em atos ditos terroristas: são acusados, entre outras coisas, de profanar, desenterrar e exibir em locais públicos, como parques e shopping centers, corpos putrefatos dos mortos da cidade. Não são os corpos de qualquer um, mas daqueles que morrem em vida, que vivem vidas esvaziadas de possibilidades, das condições materiais mais básicas, aquelas vidas destituída de garantias e seguranças, desprovidas de garantias e proteções políticas, transformadas em vidas sem valor e sem custo, em vidas nuas. Estes mortos-vivos, mantidos nas margens e periferias da cidade, estão sempre sujeitos ao “estado de exceção”, submetidas apenas aos desígnios do poder soberano. Na impossibilidade de falar a linguagem da cidade, o que se limitaria apenas a reafirmar a sua lógica, a estirpe nada mais faz do que trazer esses mortos-vivos para o espaço do político, para o olhar do cidadão. O que há de subversivo é justamente que suas ações lançam luz naquilo que não cabe na narrativa do político: longe estamos da superação de um “estado de exceção”. Exatamente o contrário. A política funciona, mais do que nunca, como uma grande máquina de fabricação desses mortos-vivos, os excluídos que alimentam as engrenagens da cidade. O desvelo dessa lógica, portanto, abre a possibilidade para uma radical desconstrução da narrativa histórica do Brasil contemporâneo, acenando para novas possibilidades de ação política.

 

 

 

A peça está circulando pelo estado de São Paulo. O blog do grupo traz mais informações sobre as próximas apresentações. Para mais informações sobre futuras apresentações, o melhor é ficar de olho no blog deles: http://nekropolis-teatro.blogspot.com/

 

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2 Comments to “Nekropolis (Grupo Formação 10 da Escola Livre de Teatro de Santo André)”

  1. Maria disse:

    Adorei sua tradução da peça! Faço uma das personagens de Nekropolis e é muito bom compartilhar as impressões com quem está de fora, especialmente quando são comentários assim, atenciosos, detalhados e cuidadosos.
    Agradecida por compartilhar! Abraço.
    Maria Cordélia

  2. Leandro disse:

    Fico feliz que tenha gostado. Fiquei muito impressionado com a peça de vocês. Estou de olho no site para saber de novas apresentações aqui em São Paulo, fiquei de divulgar para meus amigos. Ficarei de olho. Um abraço.

    Leandro

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