Ninguém Pode Saber

0

O filme, do diretor japonês Hirokazu Koreeda, “Ninguém Pode Saber” permite uma reflexão sobre a relação entre adultos e crianças em nossa realidade contemporânea. A trama conta a história de uma família, a mãe e seus quatro filhos, que acabou de se mudar para um novo apartamento em alguma região de Tóquio. A mãe, porém, com medo de ser despejada, decide ocultar dos vizinhos a existência dos seus quatro filhos, apresentando apenas o mais velho, uma criança de cerca de 12 anos. Com o desenvolvimento da narrativa, o espectador descobre que a mãe das crianças teve seus filhos de pais diferentes, com os quais nunca estabeleceu um relacionamento duradouro. As crianças são tratadas como um fardo para uma mulher que procura desesperadamente um parceiro que lhe acolha. A solução que ela encontra é aterradora: abandona seus filhos por conta própria e desaparece. Com o sumiço da mãe, as quatro crianças precisam enfrentar as dificuldades do cotidiano por conta própria.

É nesse ponto que as coisas começam a caminhar para uma degradação crescente. Os problemas que enfrentam, de certo ponto banal para adultos, se mostram quase insolúveis. A falta de dinheiro é o problema recorrente. Conseguir comida, pagar as contas, manter a casa limpa, iluminada e aquecida, obrigam as crianças a realizar uma série de sacrifícios. Porém, como toda criança, responsabilidade não é exatamente o forte delas, e elas não conseguem manter a ordem por muito tempo. Além disso, o problema do dinheiro se torna insuperável, pois elas não podem trabalhar por causa da pouca idade. Com isso, a comida começa a escassear e as contas deixam de ser pagas, o que deixa a casa sem água e luz. Tudo isso torna suas vidas insuportáveis. Toda a narrativa do filme é centrada nos atos das quatro crianças, na forma singela como elas se relacionam, nos seus silêncios e seus gestos, na necessidade de estabelecer vínculos afetivos. A beleza destes atos serve como um contraponto à situação bárbara na qual estão inseridas.

A barbárie da situação nasce da inversão que é operada nos papéis sociais entre os adultos e as crianças retratados no filme. A mãe das crianças, o adulto, abre mão de sua responsabilidade sobre os infantes, abdica de sua autoridade e, por conseguinte, do cuidado com o novo, com o nascente, com a infância. Essa existência desresponsabilizada, porém, obriga que as crianças assumam todo o peso do mundo. Elas precisam abraçar a responsabilidade pela sua própria sobrevivência. O que sucede, por isso, é que o adulto decide se tornar uma criança, enquanto as crianças precisam viver como adultos. Como é bastante evidente, essa inversão de papéis não funciona, degradando a vida das crianças. A tragédia que encerra a película deixa isso bastante claro.

O filme, assim, acaba se revelando ao mesmo tempo uma narrativa bastante realista, vale inclusive dizer que a história foi inspirada em acontecimentos reais, mas também uma metáfora do nosso mundo. Como se sabe, a idéia da infância como uma etapa própria do desenvolvimento humano, uma etapa na qual era necessário dispensar cuidados particulares, proteger do mundo exterior, dedicada apenas aos estudos e à sociabilidade, é algo fundado na história. Em muitas sociedades, as crianças eram vistas apenas como adultos em miniaturas, e por isso não era necessário dispensar muitos cuidados especiais. O universo infantil nem sempre existiu. Como tudo aquilo que é fundado na história, a infância não é perene, e nada garante que essa figura não possa desaparecer.

O que o filme trata, portanto, é como, em nosso mundo, a figura da infância já não é algo verdadeiramente estável. Adultos-crianças e crianças-adultos surgem como novos papéis sociais válidos, o que provoca uma profunda inflexão no modo como o universo da infância se afirma. A grande novidade é que o relacionamento entre adultos e crianças, hoje, prescinda da noção de autoridade. Os adultos eram adultos justamente porque dispunham de um rol de experiências que deveriam ser partilhadas com as crianças, pois estas ainda não puderam viver o bastante para adquiri-las por conta própria. Estas experiências eram fundamentais para inserir o novo ao mundo, permitindo que as crianças saíssem do âmbito privado para o mundo público. Por sinal, havia uma instituição que era central nessa mediação: a escola (não é gratuito, portanto, que, no filme, as crianças não freqüentem a escola). Autoridade e responsabilidade eram os dois pares que estruturavam a relação dos adultos com as crianças.

Entretanto, como lembra Walter Benjamin, uma das marcas da modernidade é, justamente, a crescente incapacidade dos homens em narrar suas experiências, em compartilhar com o mundo aquilo que adquiriu. A incapacidade de narrar, de transmitir uma sabedoria de vida, arruína qualquer possibilidade de autoridade sobre o mundo. E com essa ruína, morre também a necessidade de se responsabilizar pelo próprio mundo. O ser adulto torna-se quase tão indistinto quanto o ser criança. O problema, porém, é que o próprio cuidado com o mundo (o mundo entendido como o mundo público, o universo social, e não como uma categoria natural, algo que possa ser confundido com um cuidado com a natureza) deixa de existir. Essa existência desresponsabilizada é um caminho ligeiro rumo à barbárie.

Na impossibilidade de refundar o valor da autoridade – vale lembrar que o próprio cerne do pensamento moderno, aquele caminho que começa no cogito cartesiano e segue por várias vias até nós, está todo articulado em torno da crítica do valor da autoridade e da experiência – o que o filme permite é uma reflexão ética sobre a responsabilidade pelo mundo e pelo novo. O cuidado com a infância deixa de ser algo inerente ao homem, e torna-se uma postura, uma escolha. Cabe a cada um decidir o quanto está interessado nessa tarefa. Abandonar o novo ao seu próprio cuidado ou se responsabilizar pela natalidade do mundo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.