No de Pablo Larraín

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Na produção cinematográfica recente, encontramos uma grande preocupação em refletir sobre os fenômenos políticos. Existem muitos exemplos, como o americano Tudo pelo poder, ou o francês O exercício do poder. Esses dois filmes são exemplares de uma determinada maneira de representar a ação política: como uma espécie de jogo pragmático, no qual a única regra é utilizar todos os recursos disponíveis para a vitória política: a eleição ou o fortalecimento do poder de certos indivíduos. Nessa perspectiva, todos os políticos são retratados como figuras desprovidas de motivações ou ideais inabaláveis, sempre prontos para mudar seus objetivos em busca de maior poder ou vantagem sobre os demais. É a síntese de um ideal maquiavélico (num entendimento bastante mecânico e simples do significado desse conceito) do político como um ser amoral, corrupto e obcecado com a acumulação de poder. Não existe nada que se pareça com uma agenda, ou plano de modificação da sociedade, de suas injustiças e problemas sociais. O político não pensa nisso, mas apenas em vencer as eleições ou controlar a máquina pública. Essa perspectiva é muito disseminada, aparecendo não apenas nos dois filmes mencionados acima, mas também em inúmeros outros discursos e artefatos culturais. Nesse caso, o filme de Pablo Larraín, No, é um interessante exercício de questionamento dessa representação da política. A obra trata do plebiscito chileno de 1988, no qual os chilenos precisavam decidir se o líder da ditadura militar, Augusto Pinochet, deveria seguir no poder. As opções eram votar pela continuidade do regime, o , ou optar pelo fim do governo e a convocação de uma eleição democrática para a escolha do executivo e do legislativo no ano seguinte, o no. O protagonista da trama é René Saavedra, um jovem e bem sucedido publicitário que é contratado pela coalizão de oposição ao regime Pinochet para realizar a campanha do No. Saavedra teve, no passado, ligações com a militância de esquerda, mas se afastou dessa luta. Assim, quando é chamado para trabalhar na campanha, ele adota uma postura bem incomum entre aqueles que se opõem ao regime: ele decide criar a propaganda política segundo as regras do discurso publicitário, ou seja, preocupado com a elaboração de um produto de fácil assimilação e que desperte a atenção dos votantes chilenos. Apesar do seu aparente pragmatismo, como se ele só estivesse preocupado com a vitória e o controle do poder, existe um forte valor moral nas suas ações, afinal ele pretende ajudar na recuperação da própria liberdade democrática. Saavedra não está interessado simplesmente em chegar ao poder, mas sim em garantir que um determinado projeto político encontre meios de se realizar. Sua diferença, em relação aos demais militantes de esquerda, é que está disposto a utilizar as ferramentas do próprio poder, o discurso midiático, com suas imagens alegres, canções bobas e simples, textos simples e facilmente assimiláveis, enfim o avesso da “tomada de consciência” que deveria sustentar uma luta política de oposição ao regime. Sua opção pragmática não é isenta de resistências. Muitos dos militantes que formam a coalizão do No criticam duramente a proposta da campanha. Em especial o tom alegre que acompanha os jingles e a propaganda televisiva. Na visão destes, não era possível construir uma imagem alegre de um assunto tão sombrio quanto a falta de democracia, os presos políticos, a tortura e as mortes provocadas pelo regime militar. A contraproposta, feita por esses militantes, é realizar uma campanha pautada pela conscientização e pela discussão política. Usar a propaganda televisiva para denunciar o regime militar e organizar a militância, mesmo que essa postura implique na derrota eleitoral. É na contraposição dessas duas posturas que o filme estrutura seu principal núcleo dramático (existe outra tensão importante, aquela provocada pela oposição do regime autoritário contra a campanha de Saavedra). A percepção da vitória como um instrumento de transformação social atribui um significado totalmente distinto à postura pragmática de Saavedra, afinal não se trata aqui daquele político profissional que deseja apenas permanecer no poder, mas sim um gesto de desconstrução de um regime autoritário e violento. Porém, uma parcela significativa da esquerda resiste e recusa essa postura pragmática, mais do que vencer, o que eles desejam é alimentar a prática discursiva da boa política. No fundo, o que eles defendem é que destruir o regime de Pinochet não era o suficiente, mas que essa destruição precisava ser realizada por um único caminho válido, o caminho da verdade, da revelação. E a proposta de Saavedra era vista como mistificação, enganação, ideologia. Apesar disso, é o grupo que apóia Saavedra, apesar de todas as suas tensões, que acaba prevalecendo e a campanha publicitária marca o tom da propaganda do No. A eficácia das estratégias de marketing surpreende o próprio governo, o qual se mostra incapaz de criar um contradiscurso eficaz na legitimação do . Com isso, a vitória eleitoral possibilita o encerramento de um regime que aparentemente ainda tinha forte apoio popular, possibilitando a reintrodução da democracia na sociedade chilena. No fim das contas, o filme lança dois questionamentos que me parecem relevantes. Em primeiro lugar, é sobre a íntima relação entre a ação política e a produção de imagens. Um dos elementos que é mais importante para a estruturação daquela representação do político como uma figura maquiavélica é a diferença entre o ser e o aparecer. O político é aquele que constrói uma imagem (portanto, uma ilusão) de si próprio, visando a manipulação do eleitor para alcançar suas vitórias políticas. Isso aparece claramente no discurso dos militantes da esquerda, os quais questionam a todo o momento a campanha publicitária pela (falsa)imagem que ela cria do país, das relações sociais, do regime militar. Porém, o que anima a ação de Saavedra é clara percepção da inadequação dessa distinção entre política e imagem. Mais do que uma oposição entre verdade e falsidade, o campo do político é essencialmente uma luta de imagens, incessantemente construídas e desconstruídas. E a eficiência política advém justamente da poética dessas imagens. Mais do que uma oposição entre ser e aparecer, a política é a pura expressão de uma ontologia da imagem (é muito interessante como a própria tecnologia utilizada no filme está estruturada a partir dessa condição ontológica da imagem. O filme utiliza uma câmera que produz uma imagem granulada e envelhecida, o que permite a indistinção entre as imagens de arquivo e as filmagens contemporâneas, portanto entre o ficcional e o documental). O segundo questionamento é a dissociação entre meios e fins que é articulada em toda crítica do pragmatismo político. Ou se reflete sobre os fins que se pretende atingir, por exemplo a consciência política, ou se preocupa exclusivamente com os meios, seja qual for. Parece não existir possibilidade de articulação dessas duas instâncias. As denúncias que Saavedra recebe são exatamente dessa natureza, ele só quer vencer, não se importa como fará para vencer. Ao contrário, suas ações expressam exatamente o contrário. A vitória política é fundamental contra o regime autoritário, por isso é necessário encontrar um caminho que a torne possível. Seu cálculo pragmático expressa muito bem a possibilidade dessa articulação entre meios e fins. A luta em torno do plebiscito, assim, é representada para além de um purismo político, que resultaria muito mais num imobilismo do que num instrumento de transformação social. Dessa maneira, a forma como o filme opera esses dois questionamentos permite um afastamento e uma crítica dessa representação tão disseminada dos fenômenos políticos. O maior problema dessa representação comum é uma espécie de desconfiança generalizada da política, como se esta não fosse mais um instrumento válido de ação social, sendo tão-somente um instrumento de hegemonia de um pequeno grupo sobre o restante da sociedade. Por essa razão, uma questão fundamental para a reflexão política é justamente se desfazer dessa representação, elaborando um novo registro de imagens e ideias a partir do tema. Nesse caso, o filme do diretor chileno é uma bela contribuição para essa desconstrução, o que o coloca numa posição muito destacada na farta produção recente de filmes políticos.

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2 Comments to “No de Pablo Larraín”

  1. Marcia Dias da Silva disse:

    Oi Leandro,

    Gostei muito do texto, mas acho importante tocar na questão do medo. A campanha do No foi para a direção da “alegria” como alternativa do “medo”… Medo que o plebiscito fosse manipulado, das consequências de se comparecer a votação… Vendo o filme, foi inevitável lembrar a campanha do PT de 2002 que finalizou com o slogan da “A esperança venceu o medo” O que vc acha? Abraços!

    • Leandro disse:

      Olá Marcia, é verdade, você tem razão. Eu até pensei em abordar isso, mas acabei deixando de lado. O par alegria/medo são fundamentais para pensar a política moderna. Lembro sempre do Espinosa quando penso nesse assunto. A engenhosidade da campanha do No foi exatamente perceber a importância dessa política dos afetos. O que valoriza ainda mais o filme. Abraços e volte sempre.

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