Noites Brancas de Luchino Visconti

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Noites Brancas de Luchino Visconti é um dos meus filmes preferidos. Baseado no livro homônimo de Dostoievski, conta a história de Mario (Marcello Mastroianni), um jovem funcionário que foi transferido para a pequena cidade de Livorno. Lá, o personagem vive uma existência bastante solitária, pois não conhece ninguém além da família de seu chefe e da senhoria de sua pensão. Essa rotina, no entanto, é quebrada quando Mario se encontra com Natalia (Maria Schell), uma moça bela e triste que aguarda ansiosamente pelo retorno de um misterioso homem. Mario, é claro, se apaixona pela moça e ambos passam a se encontrar, noite após noite, compartilhando as dores dessa espera agonizante.

O filme, além de contar uma bela história de amor, é importante pela sua inovação estética. Como se sabe, Luchino Visconti foi o cineasta que produziu algumas das mais importantes obras daquilo que convencionalmente foi chamado de “neo-realismo” italiano. Em linhas muito gerais, esses filmes eram marcados pelo esforço de representar com fidelidade a degradação da realidade social italiana em decorrência da guerra. Esse efeito era alcançado por meio de certos procedimentos: filmagens em espaços abertos, sem a construção de cenários; utilização de atores amadores; a temática preferencial era aquela que atentava para os modos de vida das classes operárias…

Com Noites Brancas, Visconti abandona esses procedimentos. A fotografia do filme, sobretudo, rompe com a forma usual, não utilizando nenhuma tomada em espaço aberto. Tudo é feito dentro de um estúdio, no qual foi construída uma Livorno fantasiosa e onírica. A cidade emana um ar decadente e melancólico. Tudo é muito triste. Os efeitos de luz deixam as ruas e as construções com um leve ar irreal. O mais interessante é que o aspecto da cidade vai se transformando de acordo com os sentimentos dos personagens. Aquele aspecto sombrio e triste vai dando lugar a uma cidade mais jovem e alegre. As luzes ganham vida e a neve, que começa a cair apenas no final do filme, criam uma nova Livorno. É nesse momento que a dolorosa espera é suspensa e a felicidade não parece algo tão distante. Por essa razão, alguém disse que a Livorno viscontiana é uma cidade metafísica, na qual a realidade está misturada com o sonho e com o desejo.

Esse aspecto onírico consegue materializar o espírito dos personagens: solitários que precisam se abraçar com força em seus próprios sonhos e desejos, aos quais a força da realidade é insuportável. É impossível não se comover com as lágrimas de Mastroianni. Lágrimas que trazem todo o peso da realidade, sempre mais forte que qualquer sonho ou desejo.

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7 Comments to “Noites Brancas de Luchino Visconti”

  1. aLePh DaViS disse:

    Evoé, Leandro!

    Também adoro Visconti e esse filme, não bastasse Dostoiévski…
    ele ainda me sai com Marcello, meu ator predileto, em esplêndido P&B.

    Abreijos textuais
    A.D.

  2. COLETIVO LITERÁRIO disse:

    E NÓS???

  3. Leandro disse:

    Olá Davis, pois é, o filme é ótimo. Descobri também que o Visconti adaptou O Estrangeiro para o cinema, também com o Marcello. Imagino que deva ser bastante interessante, espero encontrar qualquer dia.

  4. Leandro disse:

    Coletivo Literário, tenha calma… quando tiver algo para dizer, direi…

  5. josaphat disse:

    Assisti ao filme, maravilhoso. Vou citar a ambos em meu blog. Abraço.

  6. thesunsets disse:

    Não sei se tu chegaste a ver meu post sobre literatura russa?
    Pois então, estive durante alguns dias tentando lembrar do nome desse romance do Dostoievski! Muito obrigada :)

    Prometo passar aqui novamente assim que tiver lido e visto o filme!

    Abraços!

  7. Leandro disse:

    Olá Amanda,

    Eu li seu texto sim, mas nem me lembrei do Noites Brancas. Na ocasião, lembro de ter me lembrado dos textos curtos do Tolstói e foi só. Que bom que te ajudei a lembrar ;)

    Então, fico aguardando seu retorno, o filme é especialmente bonito, assista! Tenho certeza que vai adorar.

    Um abraço

    Leandro

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