Roberto Esposito é um filósofo italiano não muito divulgado por aqui. Sem traduções, sua obra ainda é pouco citada ou discutida, o que é uma grande pena. A reflexão de Esposito trabalha com o conceito de biopolítica de maneira bastante produtiva, dialogando com autores como Foucault, Agamben, Derrida, Negri e Hardt. Apesar de situar o surgimento da biopolítica no pensamento político ocidental a partir da modernidade, em especial na obra de Thomas Hobbes, o autor enxerga uma verdadeira ruptura, um ponto de descontinuidade fundamental, com a formação do regime nazista no início do século XX. Creio que um dos aspectos relevantes de seu trabalho é a tentativa de dimensionar com mais precisão a singularidade da biopolítica nazista. Para Esposito, o regime nazista “não nasceu de uma modernidade exasperada, mas da decomposição da modernidade”, através da substituição de uma espécie de “filosofia da história” por uma biologia capaz de substituir todas as transcendentalidades (história, partido, luta de classes, etc.) por categorias biológicas (raça, vida, degeneração, etc.). Ainda que a tradição biopolítica sempre utilizou metáforas vitalistas, é apenas no regime nazista que tais metáforas “se transformam em realidade, não no sentido de que todo o poder político passou diretamente para as mãos dos biólogos e médicos, mas que os políticos usaram os processos biológicos como critério para guiar as suas ações”. Como explica Esposito, é por isso que todas as principais ações de homicídio em massa foram orientadas por equipes médicas: “iniciando com a exclusão de bebês, seguida pelos adultos condenados a mortes “piedosas” no programa T4, estendida naquilo que foi chamada de “eutanásia” para os prisioneiros de guerra, chegando finalmente na monstruosa therapia magna auschwitzciense”. O papel da racionalidade médica, porém, não era apenas destrutivo. Na realidade, havia uma verdadeira obsessão pela cura do povo alemão, a cura da verdadeira Alemanha. O autor argumenta que, na mesma medida em que avançava o maquinário de destruição, a ciência médica também se desenvolvia a passos largos, “lançando uma poderosa campanha contra o câncer, restringindo o uso de amianto, tabaco, pesticidas e corantes, encorajando a difusão de alimentos orgânicos”. Esses dois movimentos, aparentemente tão contraditórios, encontravam seu ponto de contato na noção de degeneração. Esposito insiste bastante nisso, demonstrando o papel que esta noção ocupou em toda a reflexão teórica que sustentou o regime nazista. A ideia é bastante simples: o povo alemão estava sendo contaminado pela degeneração do outro (do não-humano, o decaído, o pestilento), por isso era necessária uma ação energética de cura. É assim que a biopolítica é levada ao seu limite, a biotanatopolítica. Ou seja, “é apenas matando o maior número possível de pessoas que seria possível recuperar [risanare] aqueles que representam a verdadeira Alemanha”. Nada expressa isso com mais eloqüência do que uma frase do próprio Hitler: “A descoberta do vírus do judaísmo é uma das grandes revoluções desta época. A batalha que lutamos diariamente é igual aquela que Pasteur e Koch lutaram no século passado”. O nazismo subsiste nessa cura pela morte, pelo extermínio de toda entidade que carrega em si o principio degenerativo que ameaçava a Alemanha. Um aspecto muito interessante destacado por Esposito é como os “circuitos semânticos” da noção de degeneração se fizeram sentir com mais força e precocidade em manifestações artísticas do que no campo teórico. É assim que ele assinala a presença da questão em diversos textos literários, em especial na obra de Bram Stoker (Drácula). Pode-se dizer o mesmo da linguagem cinematográfica, em especial no Nosferatu de Murnau. Como se sabe, o filme fora baseado na obra de Stoker, porém o roteirista tomou uma série de liberdades, modificando alguns aspectos centrais da narrativa original. Mais do que uma simples troca de nomes, Conde Orlok no lugar de Drácula, o filme de Murnau acrescenta um aspecto fundamental na trama: a vinculação entre o vampiro e o disseminar de uma peste. Não é necessário examinar em detalhes o enredo, afinal é bastante conhecido. Basta dizer que a viagem de Orlok rumo a cidade de Wisburg é acompanhada por uma trilha de mortes, enfermidades e loucuras. Por onde passa, Nosferatu deixa suas marcas de degeneração e morte. Ele encarna em seu corpo a marca da sua monstruosidade, algo bastante singular em relação a grande parte da tradição literária anterior e fílmica posterior, pois é um vampiro despido de todo erotismo, de toda vitalidade do sexo. Ele é apenas horrendo, encarnando no seu rosto todo o mal que carrega: acima de tudo, ele é o “princípio da contaminação”. Como disse Esposito, a respeito de Drácula, “ele carrega em si próprio todas as características do degenerado – ele não é mais o outro no homem, mas o outro do homem. É ao mesmo tempo lobo [no caso, rato], morcego, sugador de sangue”. Sua existência é possível apenas na medida em que consome a vitalidade dos demais, sangue é vida é dito numa das passagens do filme, e é apenas com a destruição dessa vida que sua existência decadente pode continuar. Esse degenerado espalha sua marca não apenas através da “transmissão do sangue infectado”, mas carregando as bactérias da peste, que se propagam com velocidade e destruição, tornando-se uma ameaça para toda raça humana. Ainda que o povoado de Wisburg tente se defender, através dos mecanismos tradicionais de luta contra a peste, estes mecanismos não funcionam, são incapazes de deter definitivamente a ameaça que paira. O risco da degeneração exige um maquinário de tipo novo: o “extermínio” absoluto, a eliminação do foco de contágio e degeneração. Numa das passagens mais reveladoras do filme, o professor Bulwer relata para seus alunos a descoberta do caráter parasitário e degenerativo da natureza, dos seres que se mantém apenas devorando a vitalidade dos demais. É como um prenúncio: é preciso anular a força negativa desses “que já estão mortos, meio mortos, mortos-vivos”. E mesmo que alguns sacrifícios se mostrem necessários, é preciso levar adiante o extermínio do decaído. E como se sabe, no final é Ellen, a moça que Nosferatu perseguia, que realiza o supremo sacrifício: a sua vida para destruir a ameaça degenerativa de Orlok. Seu gesto ajuda a entender a obra de Murnau como uma grande metáfora, ou como dito antes, como uma obra imersa nos circuitos semânticos da biopolítica nazista. Isto porque, como explica Esposito, a antinomia nazista, entre vida e morte, sanciona qualquer sacrifício para atingir o objetivo final: a salvação da integridade biológica da raça ameaçada. Não é difícil perceber como no discurso nazista os judeus assumem o papel de nosferatus do povo alemão. Como disse Himmler, “anti-semitismo é como desinfestação. Manter os piolhos a distância não é uma questão ideológica – é uma questão de higiene”. É importante deixar claro que o filme de Murnau não é nem de longe um elogio do pensamento nazista, na realidade é bem sabido que seu diretor fora um crítico do conservadorismo da República de Weimar e nunca chegou a conhecer os horrores do nazismo, morreu em 1931 num acidente de carro. O sacrifício de Ellen aparece em seu filme como uma espécie de alerta: quando o maquinário nazista é posto em funcionamento, é difícil deter suas engrenagens. Basta lembrar o telegrama número 71 de Hitler, emitido direto de seu bunker próximo do final da guerra, o qual ordenava “a destruição das condições de subsistência de todo o povo alemão que se mostrou fraco demais” para se sacrificar na luta contra a ameaça degenerativa. O maquinário nazista, enfim, sonhou na conversão da Alemanha numa Ellen capaz de manter suas engrenagens funcionando indefinidamente.

 

PS: Todas as citações do texto são de Roberto Esposito, Bíos: biopolitics and Philosophy. Traduções minhas. Recomendo vivamente a leitura das obras de Esposito.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Nosferatu de F. W. Murnau (1922): uma metáfora da biopolítica nazista”

  1. Marcelo disse:

    Leandro, gostei muito da sua leitura do filme a partir das reflexões de Esposito. Estou começando a me aproximar da obra dele, com base em algumas traduções para o inglês que encontrei na internet. Sua interrogação do conceito de comunidade me interessa e ficou ecoando à medida que lia seu texto. Acha interessante prolongar as inquietações por aí?

  2. Leandro disse:

    Olá Marcelo,

    Fico feliz que tenha gostado do meu texto. Eu também estou apenas conhecendo a obra de Esposito, consegui ler o Bíos a muito custo, foi necessário encomendar e aguardar um tempo para a chegada. Seria ótimo se suas obras ganhassem traduções. A questão da comunidade é muito importante para o Esposito, ele desenvolve uma longa argumentação sobre isso e sobre sua relação com a biopolítica (a questão da imunização). Você está bastante certo ao apontar para o problema da comunidade, bem como sua anulação pelos dispositivos biopolíticos, como um caminho interessante de reflexão. Se puder, futuramente volto ao tema e tento explorar um pouco mais esse aspecto do trabalho de Esposito.

    Bem, agradeço a leitura e o comentário. Volte sempre.

    Um abraço

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.