O Abraço Corporativo de Ricardo Kauffman

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O documentário O Abraço Corporativo realiza uma interessante experiência de reflexão sobre o papel do discurso jornalístico no funcionamento dos dispositivos biopolíticos. O filme começa acompanhando a trajetória de um desconhecido consultor de RH (Ary Itnem) que trouxe para o Brasil um método revolucionário de gestão de recursos humanos, a teoria do abraço corporativo. Esta defende a existência de uma doença cada vez mais comum no mundo contemporâneo – o afrouxamento dos laços sociais e afetivos causados por conta do uso abusivo das tecnologias – mas que pode ser combatida com medidas simples, em especial o hábito de abraçar carinhosamente os colegas de trabalho. Sua proposta, assim, é introduzir esta prática no ambiente corporativo brasileiro, o que traria ganhos significativos de produtividade nas empresas. As câmeras acompanham a bem-sucedida divulgação do trabalho de Itnem na imprensa brasileira. Apesar de toda sua obscuridade inicial, afinal era um consultor sem nenhum cliente, antecedente ou prova do valor de suas ideias, ele conquista um espaço crescente em diferentes canais da mídia. Itnem aparece em jornais, rádios, programas televisivos, internet. Enfim, começa a se transformar numa quase-celebridade. O problema é que toda sua história não passa de uma grande fraude. Na realidade, a equipe do documentário criou toda essa história. Não existe um consultor chamado Ary Itnem, este era interpretado por um ator. Tampouco a teoria do abraço corporativo é verídica, tudo foi inventado para o documentário. Uma invenção cheia de falhas propositais (como o registro de um documento em cartório, divulgado no site que Itnem apresentava a todos os jornalistas, no qual todo o experimento era descrito em detalhes), que seriam facilmente desmascaradas com uma investigação simples e elementar. Sendo assim, o que possibilitou a conversão dessa ficção numa verdade jornalística? Em primeiro lugar, a verossimilhança. O discurso de Itnem mobiliza uma série de lugares-comuns, palavras de ordem, teses de auto-ajuda, enfim aqueles procedimentos que bombardeiam nosso cotidiano o tempo inteiro, seja no discurso publicitário, seja nos discursos psi, médico, pedagógico, etc. Enfim, ele nada mais faz do que mobilizar todos aqueles dispositivos de gestão da vida que produzem isto que chamamos de subjetividades contemporâneas. Sua narrativa podia não ser verdadeira, mas era pelo menos (muito) provável. Afinal, quem nunca viu uma pesquisa “cientifica” que prova as maneiras mais inusitadas para transformar nossas tristes existências em vidas fulgurantes e produtivas? Porém, não é só isso que torna possível o sucesso da experiência. Há também uma espécie de descaso investigativo. Os jornalistas nem sempre se importam em verificar suas fontes, em garantir a fidelidade dos fatos apurados. E não se importam por uma razão muito simples: o campo jornalístico se converteu numa grande máquina de produção de discursos, verdades e fatos. Não há tempo para verificar, analisar, refletir e criticar. Como os depoimentos do documentário insistem eloquentemente, há uma crescente aproximação entre o espetáculo e o jornalístico, ou melhor, a notícia se converteu num grande espetáculo, que não pode parar de ser produzido e atualizado. Essa espetacularização potencializa e alimenta a fabricação daqueles discursos de gestão da vida. Como não há tempo para a reflexão, sobra apenas palavras de ordem, regras e práticas do bem-viver e de auto-ajuda. É no cruzamento desses dois movimentos que todo tipo de ficção pode se converter em narrativas verídicas e convincentes. O que é interessante e grave é perceber que esta experiência banal se reproduz com freqüência no discurso jornalístico. Basta lembrar, por exemplo, a recente cobertura da epidemia de gripe e as importantes contribuições da imprensa na consolidação de uma visão catastrófica da situação. Além disso, basta olhar a infinidade de publicações voltadas para a qualidade de vida, sem falar dos inúmeros programas que buscam educar nossos hábitos, para verificar a imensa quantidade de “verdades” que são cotidianamente divulgadas e produzidas. Logo, a situação que é desvelada não se constitui numa falha pontual, e por isso passível de correção, provocada pelo descuido desse ou daquele jornalista. É muito mais do que isso. O documentário ajuda a compreender o papel estrutural da imprensa na criação desses discursos sobre a vida, sobre a condução e a gestão da vida, enfim, a materialização cotidiana de dispositivos biopolíticos.

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