O Agente Triplo de Eric Rohmer

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O Agente Triplo é uma espécie de desdobramento temático daquilo realizado em A Inglesa e o Duque. Em ambos os filmes, Eric Rohmer elabora uma reflexão sobre a política, ainda que a partir de dois momentos diferentes da história da França. A trama de A Inglesa se passa durante a Revolução Francesa, reconstituindo a narrativa do diário de uma aristocrata inglesa que via com horror os desdobramentos da luta política na Paris revolucionária. Como escrevi antes, o filme não esconde sua tomada de partido, o que vemos é uma leitura aristocrática do acontecimento, que compreende a Revolução como uma caminhada acelerada em direção ao caos e a destruição. Os políticos aparecem como homens bárbaros e pouco confiáveis, capazes dos atos mais violentos e desumanos. Para Grace Elliot, a protagonista do filme, a política é o espaço de jogos sujos, no qual todos estão dispostos a abandonar qualquer tipo de valor moral em busca de mais poder ou influência. O mundo polido, civilizado e cortês, que Grace Elliot acreditava existir antes da Revolução, é subvertido pelo interesse político. A queda do Duque de Orléans (uma queda tanto moral quanto política) é a expressão mais clara desse processo. Não há maneira de se envolver com a política sem se sujar. Esse tema reaparece em O Agente Triplo. A trama começa em 1936, logo após a vitória da Frente Popular francesa. A protagonista, novamente, é uma mulher, agora Arsinoé, uma artista grega que emigrou para França junto com seu marido, Fiodor. Ele era um aristocrata russo e participou da Guerra Civil ao lado das tropas contra-revolucionárias (o exército branco), por isso teve que se abrigar na França. Mesmo refugiado, ele manteve uma posição política influente, participando ativamente de uma organização internacional de resistência à Revolução (Russa). Os tempos conturbados, marcados pelo inicio da Guerra Civil Espanhola, mas também pelas agitações socialistas na França e o fortalecimento dos partidos fascistas, envolveram Fiodor numa complexa trama internacional, na qual negociava ao mesmo tempo com agentes russos, alemães, franceses e espanhóis. Porém, só acompanhamos essas atividades indiretamente, pois o foco narrativo está centrado em Arsinoé. Tudo que sabemos é aquilo que ela presencia nas conversas do marido com outras personalidades ou, principalmente, através de suas discussões com Arsinoé. O crescimento da tensão internacional a deixa cada vez mais desconfiada das ações de seu marido, não sabendo exatamente o que ele faz, nem de que lado (dos brancos, dos alemães ou dos russos) ele realmente está. Essa desconfiança lhe coloca em posição de confronto com o marido. É quando acontece uma cena chave para compreender o filme. Ela questionar o marido, por que nunca me fala nada sobre suas atividades, por que seus colegas sabem mais do que faz do que eu? Ele responde, dizendo que para seus colegas ele pode mentir e enganar, mas não para ela. Por isso, ele prefere não lhe falar nada, para não ser obrigado a mentir. Esse diálogo é importante porque estabelece uma contraposição entre o espaço político e o espaço privado. Neste, as relações são orientadas a partir de princípios morais que tiram a legitimidade de qualquer tipo de subterfúgio sujo (como a mentira). Já no espaço político, não há nenhum tipo de impeditivo e qualquer tipo de recurso é aceitável para atingir os objetivos propostos. Isso que justifica, por exemplo, as inúmeras traições orquestradas por Fiodor, que busca apoio em todos os lados e não exita em trair seus aliados, mesmo que isso signifique a morte deles. O problema ocorre quando esta ausência de moralidade acaba resvalando exatamente naquele espaço que supostamente estava resguardado. Fiodor acaba envolvido no seqüestro de um ex-general russo e precisa do testemunho de sua esposa para lhe garantir um álibi. Isso lhe obriga a quebrar aquele pacto que estabelecera junto dela, inventando uma versão bem fantasiosa do ocorrido para ganhar sua confiança (inicialmente ela fica horrorizada com a mera possibilidade de Fiodor estar envolvido num crime tão brutal). No entanto, a situação escapa de seu controle e quem paga o preço da operação é a própria Arsinoé. De maneira análoga ao filme anterior, a política aparece como um espaço de manifestação da barbárie, justamente por conta desse pragmatismo finalista. Fiodor aparece como o duplo do Duque de Orléans, na medida em que os dois acabam quebrando a confiança daqueles que os circundavam. Pode-se dizer, portanto, que Rohmer desvela com maestria um princípio fundamental do pensamento político ocidental, qual seja, a legitimidade da razão de estado. A lógica da soberania política (manifestada na figura do Estado) justifica qualquer tipo de violação, seja jurídica, moral ou mesmo física. A lucidez do diretor reside na percepção do papel estruturante dessa lógica pragmática na ação política. Não é uma questão de ser bom ou mau político, o que não faz muito sentido, mas é próprio da política a necessidade de abrir mão de qualquer regra moral. Não é gratuito que a razão de estado ande de mão dada com outra categoria central da nossa política: o estado de exceção. É por isso que na perspectiva de Rohmer, a política é um espaço que não pode ser adentrado impunemente, todos que nela se envolvem acabam engolidos por este imperativo pragmático.

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4 Comments to “O Agente Triplo de Eric Rohmer”

  1. Beauvoiriana disse:

    De Rohmer eu já gosto muito, e desse filme, também. Mas agora com o seu texto percebi a relação entre os dois filmes e o que você escreve sobre a soberania do Estado. Curioso que Rohmer investigue a política pelos caminhos de revoluções…

  2. Trata-se do filme mais político do Rohmer (por sua vez o cineasta menos político da Nouvelle Vague), junto de A Árvore, o Prefeito e a Mediateca. Me parece que você capta muito bem a questão da política de Estado (de exceção), ligando-a à trajetória ambígua do personagem. O filme se constroi mesmo por aí, por meio destes fluxos bárbaros de pragmatismo.

    Abs!

  3. Leandro disse:

    Beauvoiriana, gostei muito dos dois filmes, é incrível como um ajuda a compreender melhor o outro. E talvez ele tenha optado analisar a política pelo caminho das Revoluções porque é nesse momento que as tensões ficam mais fortes e as coisas apareçam com mais evidência.

  4. Leandro disse:

    Pedro, concordo com você. Porém, acrescentaria na sua lista o “A Inglesa e o Duque”, um filme bastante político. Ainda preciso assistir o “A Árvore…”, tenho aqui em casa, mas não o vi. Obrigado pelo comentário e volte sempre.

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