O amor segundo B. Schianberg de Beto Brant

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O novo filme de Beto Brant, O amor segundo B. Schianberg, porta uma ambigüidade muito particular. Ao mesmo tempo em que lança um olhar que descortina absolutamente a intimidade de um casal, guarda pra si a mais profunda intimidade de um terceiro personagem, talvez até mais importante que os dois protagonistas. Vejamos como se isso funciona. As câmeras do filme registram todos os momentos íntimos de um casal recém-formado. Este registro é muito particular, pois é realizado por meio de aparelhos muito diferentes daquele que estamos habituados em filmes: é um registro granulado, pouco nítido, que parece mais com uma câmera de segurança do que qualquer coisa. Os momentos são absolutamente banais: são aquelas conversas desprovidas de qualquer importância, aquele papo que todo mundo já ouviu ou falou, aqueles gestos ordinários, aqueles beijos comuns, etc. Esta situação banal abre uma espécie de janela para a intimidade dos dois, um ator e uma artista visual, ato que carrega em si um espírito obsessivo muito característico de nosso tempo. Dessa maneira, o filme pode ser visto, num primeiro momento, como um exercício de exposição, de abertura do mais particular aos olhos ávidos do espectador curioso. Porém, há um fato que resta oculto e, em grande medida, mascara toda a proposta do filme. Bem, restava oculto pelo menos pra mim, vale dizer que assisti ao filme na Mostra de Cinema de São Paulo, meio às cegas, sem nenhum comentário ou análise da obra. Por isso, não sabia muito bem o que me aguardava. Foi nessa ignorância absoluta que acompanhei com certa perplexidade a exibição da obra. Após a sessão, tive a oportunidade de recuperar aquilo que faltava. O filme é baseado na última obra de Marçal Aquino, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, na realidade, recupera um personagem que parece ser bastante secundário da obra, o tal de B. Schianberg, um psicanalista que tece alguns comentários pontuais no romance. O que Beto Brant fez foi eleger este personagem como o narrador de seu filme. Um narrador muito particular, ausente, mas que assim mesmo estrutura toda narrativa. É esse fato que resta oculto na exibição do filme. Toda aquela exposição agressiva da intimidade do casal não passa de um experimento do psicanalista. Sua meta é registrar os movimentos de um casal a partir do nascimento daquilo que podemos chamar de paixão. Para tanto, ele dispôs, no recinto íntimo desses amantes, diversas câmeras (o que justifica a qualidade bizarra das imagens), com o propósito de registrar todos os movimentos dos amantes, suas ações, suas palavras, seus gestos, enfim tudo. A natureza de seu experimento não é muito diferente de qualquer reality-show. Há, porém, uma diferença de monta, qual seja, nesse registro é o próprio psicanalista que garante um lastro de sentido à narrativa. É ele quem destaca o que importa – anotando as frases mais relevantes dos personagens (o único signo visível ao espectador de sua presença, pois estas frases são destacadas na tela) – do que não importa. O profundo espírito inquiridor do psicanalista captura a essência mesma da experiência amorosa no momento em que é elaborado pelo casal, convertendo-a em um discurso sobre o amor. É daí que nasce a possibilidade de sentido na narrativa, na medida em que ela pode garantir alguma estabilidade a uma experiência tão fugidia. O problema é que este esforço, muito bem sucedido, acaba também esvaziando toda a vitalidade desta experiência, todo arriscar-se é substituído por uma difusa sensação de segurança. Isto porque, a construção da intimidade do casal não se realiza, há apenas uma reiteração insistente de tópicos e lugares comuns, de gestos e palavras meio ocos, diante do registro das câmeras. É como se mesmo na não-presença do terceiro da relação, aquele que registra e captura, pairasse sempre sobre o casal um olhar sugador, a própria materialização de um efeito normatizante. É aquela ambigüidade mencionada no início que impede a plena realização de uma experiência afetiva entre o casal, a formação de qualquer espaço de intimidade, para além da soberana intimidade (resguardada até mesmo do olhar do espectador) do saber psicanalítico. Isto resulta num relacionamento profundamente deserotizado. Esta afirmação pode parecer um pouco estranha, afinal os dois aparecem nus frequentemente, transam, parecem capazes de sentir o corpo alheio. Entretanto, esse sentir é marcado por uma sensação de inautenticidade, algo que não se realiza plenamente, e por isso também não consegue afetar (eroticamente) o espectador. Nesse sentido, o amor registrado por Schianberg é um amor desvitalizado, vazio de potência, no qual nada pode acontecer. Esta é, inclusive, uma boa definição da trama: nada acontece, não há absolutamente nenhum acontecimento singular. Não sei bem se era esse o propósito dos realizadores do filme, mas o que se revela ao espectador é apenas este exercício esvaziado do ato amoroso, incapaz de afetá-lo ou tocá-lo.

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